Pelo Mundo

A hora de mudar as instituições financeiras internacionais

06/03/2009 00:00

Eduardo Seidl

Créditos da foto: Eduardo Seidl
BRASÍLIA - O painel no qual foram apontadas as necessidades e possibilidades de mudança nas instituições financeiras multilaterais – o Banco Mundial (Bird), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) foi aberto com uma provocação do conselheiro do CDES Artur Henrique, da Central Única dos Trabalhadores, que fazendo uma analogia falou em democratizar, também, o Conselho Monetário Nacional brasileiro, e de incluir nas exigências feitas por aquelas agências o respeito aos direitos humanos e trabalhistas.

Falando em seguida, Otaviano Canuto, até recentemente representante brasileiro no BID, ressalvou que a atual crise não é produtiva, senão de consumo. Segundo ele, a máquina de liquidez, gerando altíssima alavancagem nos países centrais (e em especial nos Estados Unidos) a partir da desregulamentação do sistema financeiro, fez com que o resto do mundo voltasse suas economias para a satisfação desse mercado consumidor baseado em endividamento crescente. Isso se aplicaria tanto às plataformas industriais da Ásia quanto aos países que suprem estas plataformas com commodities, na América Latina, África e Oriente Médio.

Rogério Studart, representante brasileiro no Bird, mencionou que mesmo o acúmulo de reservas pelos países emergentes demonstra essa relação desigual, que faz com que os EUA, com 5% da população mundial, consumam mais de 25% de toda a energia gerada no planeta. Estourada a bolha de crédito, não há mais quem possa consumir esta vasta capacidade produtiva – o que, de qualquer modo, seria imprudente, tendo em vista a extensão da crise ambiental associada à superprodução.

A solução da crise, aliás, pode estar justamente aí. Tanto Canuto quanto Paulo Nogueira, representante brasileiro no FMI, citaram o relatório Stern britânico, que sugere a reordenação do parque industrial mundial no sentido das energias limpas e sustentáveis como uma oportunidade econômica. Outro caminho importante, citando o economista chinês Justin Yifu Li é evitar a construção de uma infraestrutura redundante, principalmente no Japão e Europa, apenas para o enxugamento da liquidez. Seria, então, mais proveitoso para os próprios países ricos criarem fundos, ou capitalizarem as agências multilaterais de fomento, para a criação de infraestrutura útil nos países em desenvolvimento.

Estas agências multilaterais, frisaram todos os palestrantes, ganharam um novo prestígio internacional com a crise, após terem sido vistas, logo antes da crise, como perto da obsolescência. Com efeito, enquanto havia quem alegasse que o FMI, com o fim da necessidade de seus créditos, deveria se resumir a um empório de polinização de experiências, hoje o Fundo chega aos limites de seu capital com o socorro aos países da Europa Oriental. Socorro este que, infelizmente, continua sendo acompanhado da imposição das mesmas condicionalidades que estamos acostumados a ver o FMI impor, o que demonstra a necessidade de mudar as instituições financeiras multilaterais.

Sobre essa mudança necessária, e o papel dela, é que se demoraram os representantes do Brasil no Bird, Rogério Studart, e no FMI, Paulo Nogueira. Studart destacou que a atual ordem econômica foi desenhada para refletir e manter as relações de poder do fim da II Grande Guerra, o que inclui os mecanismos de funcionamento dessas instituições, ditas de Bretton Woods que é o nome do subúrbio de Washington onde foi realizada a conferência em 1944 que lhes deu a luz. Essa meta ficou clara quando em seguida Nogueira detalhou que no FMI, no qual muitas decisões precisam de mais de 85% dos votos, 17% dos votos estão na mão dos EUA – um poder de veto de facto. E outros 33% dos votos estão em mãos européias.

O Brasil, junto com outros países emergentes, tem aproveitado a crise das potências centrais, econômica, financeira e sobretudo moral, para conseguir mudanças, ainda insuficientes, nas instituições de Bretton Woods. Ainda em abril de 2008, reformas alteraram em 3% para mais a fatia dos emergentes no poder de voto dos emergentes, mas a resistência de EUA e Europa às mudanças pôde ser vista em seguida, quando foi mantido o arranjo, que havia sido formalmente denunciado, pelo qual o diretor-gerente do FMI é sempre um europeu (hoje o francês Dominique Strauss-Khan) e o presidente do Bird é sempre um americano (hoje Robert Zoellick). A Europa, em especial, resiste à idéia de dar mais poder aos emergentes; os EUA também o faziam até agora, mas há sinais positivos, segundo Nogueira, vindo da administração Barack Obama.

Não é só nas instituições de Bretton Woods que o Brasil deve se juntar a outros emergentes para enfrentar essa parceria transatlântica, que o relator do painel Murilo de Aragão descreveu como uma versão global da política do café com leite. Nogueira citou, finalmente, o G20, que após a crise foi alçado a um foro de chefes de estado, nos moldes do G7, dada a fraqueza das potências centrais, mas que estas já pretendem minar, propondo a inclusão de novos países, em especial os europeus. (Apesar de a Europa já contar com 4 países no G20, mais um representante da União Européia.). A tônica geral do painel foi dada por esse enfrentamento, que pode parecer desigual e pôde se dar apenas devido à própria crise. Criar uma ordem multilateral mais igualitária entre os estados pode parecer pouco realista, mas, nas palavras de Rogerio Studart, “não se constrói o futuro sendo realista. Sendo realista se repete o passado.”

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