Pelo Mundo

A lei de apoio contra o coronavírus pode virar um golpe corporativo se não tivermos cuidado

Os Estados Unidos ficarão irreconhecíveis depois dessa pandemia se as grandes corporações receberem trilhões de dólares sem comprometimentos associados

29/03/2020 12:13

Créditos da foto: "A única esperança é montar um grupo bipartidário da direita e da esquerda para se opor à essa farsa" (Sarah Silbiger/Reuters)

 
É provável que líderes congressistas nos EUA coloquem um acordo muito feio na frente do povo estadunidense, e se for aprovado, os EUA podem ficar irreconhecíveis depois dessa pandemia. Mas tem como impedir isso, se as pessoas na esquerda populista e na direita populista trabalharem juntas.

Aqui está a situação. Mitch McConnell, Chuck Schumer e a administração Trump estão negociando um pacote de resgate financeiro para abordar a crise do coronavírus. Tem se escutado muito sobre a necessidade de apoiar trabalhadores enquanto a economia congela. Isso está acontecendo ao redor do mundo; o governo britânico, por exemplo, está disposto a pagar 80% dos salários dos trabalhadores durante essa reviravolta para aqueles afetados pela crise.

Mas nos EUA, nossos líderes parecem estar virando presas do que só pode ser chamado de frenesi corporativo de favores. “Sempre que tem uma crise e Washington está no meio, é uma oportunidade para caras como eu”, disse um lobista.

Primeiramente, eu devo dizer que não sei exatamente o que veremos na lei finalizada, porque todo o processo é opaco e está sendo negociado no momento por líderes políticos não confiáveis. Só vamos descobrir os detalhes no último minuto. Então tudo o que tenho para começar são rumores e reportagens. Mas se esperarmos até sabermos todos os contornos, pode ser que seja tarde demais. Espero estar errado, mas a lista de favores dos lobistas é longa, e feia, e, frequentemente, os pedidos por dinheiro ou favores políticos são feitos para cobrir erros feitos antes do surto do coronavírus.

Olhe a Boeing. A gigante aeronáutica, é claro, quer um resgate de 60 bilhões de dólares. Os problemas financeiros dessa corporação antecedem a crise, com a má gestão que levou ao 737 Max e aos produtos espaciais e de defesa que não funcionam (notei em julho que um resgate estava a caminho). A corporação pagou 65 bilhões de dólares em recompras de ações e dividendos nos últimos 10 anos, e estava fazendo um levantamento de linhas de crédito antes da crise. É muito conectada politicamente; o conselho da corporação inclui Caroline Kennedy, Ken Duberstein chefe de gabinete de Ronald Reagan, três CEOs da Fortune 100, dois almirantes, um dos quais é o único engenheiro do conselho e um ex-oficial da agência de comércio dos EUA. Com a desculpa do coronavírus, a Boeing está tentando fazer o contribuinte pagar a conta pelos seus erros, para que possa voltar a cometer outros.

Mas isso não é tudo. Empreiteiros de segurança querem apressar seus pagamentos, e ouvi que querem ampliar uma grande lacuna chamada ‘poder de transação alternativa’ para contornar as restrições aos lucros. Elon Musk e Jeff Bezos querem “5 bilhões de dólares em empréstimos para manter funcionários de empresas de comércio aéreo em seus empregos e inaugurar instalações”. Também querem que a Receita Federal dê dinheiro pelos impostos de Pesquisa e Desenvolvimento.

A CNBC reportou que os hotéis querem 150 bilhões de dólares, os restaurantes 145 bilhões e fabricantes querem 1.4 trilhões de dólares. E o Conselho Internacional de Shopping Centers quer uma garantia de até 1 trilhão. A indústria cervejeira quer 5 bilhões. A indústria de doces quer 500 milhões. O New York Times reportou que a “Adidas está procurando por apoio para uma medida que permita que as pessoas usem seu dinheiro sem dedução de impostos para pagar por matrículas nas academias e equipamentos fitness”. As academias estão, é claro, fechadas. Produtores de carnes querem vistos especiais para abaixar os salários dos seus trabalhadores, e importadoras querem parar de pagar taxas que assumiram ao prejudicar indústrias domésticas por ilegalmente entulhar produtos nos EUA.

Agora, não sou contra apoiar indústrias. Essa é uma crise, e não queremos que boa parte da capacidade de produção dos EUA desmorone por causa da pandemia. Mas o mais importe ao apoiar corporações é garantir que existam condições rígidas, de modo que o poder não fique consolidado nas mãos de monopólios e investidores. Caso contrário, os EUA ficarão simplesmente irreconhecíveis depois dessa pandemia. Jim Cramer, personalidade da CNBC, por exemplo, está preocupado que depois dessa pandemia os EUA só terão três distribuidores. E ele está certo ao se preocupar com isso.

Aqui está como podemos parar isso. Existem membros suficientes do Congresso para agir e prevenir contra o que parece menos com um pacote de apoio e mais com um golpe corporativo. No entanto, o problema é que esse grupo está dividido em dois partidos políticos e a liderança congressista está tirando vantagem dessa dinâmica para travar tudo isso. O líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, quer que as grandes corporações comandem, então ele está manobrando. Ele está recusando o auxílio aos trabalhadores. Os Democratas estão negociando com ele para tentar conseguir auxílio desemprego e benefícios sociais. McConnell sabe que os Democratas não vão prestar atenção aos resgates corporativos se ele tomar o povo como refém, e os Democratas sabem que conseguem conceder favores às grandes corporações se apenas falarem sobre como conseguiram cheques maiores para os trabalhadores.

Então, McConnell vai colocar uma lei na frente de Nancy Pelosi, com coisas boas como auxílio desemprego, mas também com a parte feia que é entregar os EUA às grandes corporações. Os corporativistas no Partido Democrata vão dizer a ela “passe a lei do golpe corporativo, afinal temos que fazer algo agora!” E ela vai fazer isso, porque não tem os votos de dentro de sua própria convenção por causa desses corporativistas, e porque ela particularmente não se importa que os EUA sejam vendidos às grandes corporações. A única esperança é montar um grupo bipartidário da direita e da esquerda para se opor à essa farsa.

E há um precedente.

Em 2008, quando o Congresso estava prestes a aprovar um resgate de 700 bilhões de dólares para Wall Street, algo incrível aconteceu. Um grupo bipartidário variado de quase cem membros, incluindo experts de fora, formou o que foi chamado de “convenção cética” e organizou votos suficientes para derrubar o resgate. Líderes congressistas então associaram outros ajustes e forçaram o pacote depois da quebra da bolsa de valores. Finalmente, os céticos falharam, e os resgates acabaram deslocando o poder e a riqueza para uma elite sem responsabilidade.

Mas por um breve momento, ficou claro que é possível uma oposição à uma liderança congressista que favorece subsídios corporativos. Vamos precisar de outra convenção cética, e rápido. E, dessa vez, pode ganhar. Porque, dessa vez, ninguém está se enganando com o que está acontecendo. Vemos plenamente.

Então, se você é um Republicano ou um Democrata, junte-se a uma convenção cética. E exija que seu membro no Congresso te represente, e não somente represente as grandes corporações. Ajude as pessoas ao lidar com desemprego, aluguel, hipotecas, não com executivos de grandes corporações que estão tentando salvar suas posições confortáveis.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares

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