Pelo Mundo

A nazificação do Partido Republicano

O termo "nazista" não é nem forte o suficiente para transmitir a repulsa que ativistas de direitos humanos sentem por aqueles que afirmam que são simplesmente patriotas com opiniões diferentes

15/02/2021 14:12

(Ilustração de Nathaniel St. Clair)

Créditos da foto: (Ilustração de Nathaniel St. Clair)

 

Depois da 2ª Guerra Mundial, os nazistas que ajudaram Hitler ascender ao poder e assassinar milhões de pessoas, incluindo ao menos seis milhões de judeus, foram postos em julgamento como um alerta ao mundo. Nem todos eles encararam processos judiciais, mas uma quantidade suficiente não foi protegida por seus status na sociedade ou alegações de “inocência” e “patriotismo”. O poder por meio da violência era a única linguagem que eles falavam – não a da justiça nem da liberdade – e foram responsabilizados. Esses criminosos enfrentaram um tribunal em Nuremberg tão monumental que a palavra desgraçada “nazista” está para sempre associada àqueles que participaram e permitiram tais crimes horríveis.

Depois da guerra, a Alemanha baniu bandeiras nazistas e neonazistas. Na realidade, o único jeito de parafernálias nazistas entrarem na Alemanha era através de contrabando de outros países como os EUA, como do propagandista nazista Gerhard Lauck em Nebraska, o homem chamado de “Fuhrer do Cinturão Agrícola” que serviu quatro anos em uma prisão alemã por distribuição ilegal de materiais nazistas ao redor da Europa.

Eu sei disso porque eu ensino um curso sobre Supremacia Branca na Universidade Smith que foca em antissemitismo, antirracismo, e os muitos componentes interseccionais da ideologia da supremacia branca. Depois de mais de 30 anos de ensino sobre o fascismo sendo uma ativista e acadêmica feminista e negra, eu sei sobre a influência destrutiva dessas ideias e eu ensino pessoas jovens a saber interpretá-las e resistir a elas.

O desprezo global pela palavra “nazista” é uma lição para nós hoje nos EUA depois da criminosa tentativa de golpe no Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021. Qualquer pessoa que tenha simpatizado, apoiado ou financiado esses atos que tentaram negar a transferência pacífica de poder no nosso país deveria ser tratada com a mesma condenação pública que os nazistas receberam depois da 2ª Guerra Mundial. Isso inclui pessoas “nazificadas” no Congresso, nas redes sociais, nas universidades, em empregos comuns, e na sociedade porque o fascismo não é um sonho fervoroso de um homem louco. Trump é um supremacista branco; o fato de ele ser também um narcisista louco é um mero acidente.

Os Republicanos são um partido político moralmente falido que apoiou um presidente louco que levou essa democracia frágil e em desenvolvimento para a beira da extinção simplesmente porque não conseguem suportar o vagaroso e certeiro empoderamento das pessoas não-brancas e quaisquer limites ao seu poder de acumular uma quantidade imoral de riqueza. Para parafrasear Vicent Harding, notório educador negro, somos cidadãos de um país que ainda não foi concebido.

A marca Republicana de um partido político legítimo será para sempre associada a ideologias de extrema-direita, incluindo neonazistas e neo-confederados. Esses tais líderes “respeitáveis” mimaram e incitaram uma insurreição supremacista branca feita por Trump nos últimos quatro anos. Seu oportunismo transacional permitiu que bandeiras dos Confederados fossem exibidas no Capitólio dos EUA, uma vergonha nem sequer conquistada durante a Guerra Civil. Eles provaram que não querem partilhar uma democracia plural com outros partidos e interesses políticos.

Se os Republicanos não conseguem dominar esse país permanentemente com uma quantidade de pessoas brancas enraivecidas que está diminuindo demograficamente, eles provaram que estão prontos para acabar com tudo, figurativamente e literalmente. Agora eles querem que nós nos apressemos na direção do perdão e da reconciliação, e ignoremos que a verdade e a responsabilidade vêm primeiro na jornada para a conquista da cura.

Hitler liderou uma insurreição contra o governo alemão em 1923 e foi condenado a cinco anos de prisão, serviu um, e usou essa leniência para cometer o Holocausto. Nunca esqueça que o perdão prematuro antes da responsabilização é perigoso. Fascistas são violentos por causa de quem são, não por causa do que fazem – como os alemães comuns que subestimaram os nazistas e pensaram que fossem apenas outro partido político direitista. Os alemães que não eram nazistas continuaram com suas vidas de maneira passiva negando as realidades dos seus vizinhos judeus, tudo pelo bem da “unidade”.

Os Republicanos não podem mais ter o direito de existir como um partido político legítimo porque esse retrocesso autoritário vem sendo construído desde que novas leis de direitos civis foram aprovadas em 1964 e 1965 em resposta à violência branca racista filmadas na TV que exigiram ação da Guarda Nacional.

O então presidente Lyndon Johnson previu que a maioria das pessoas brancas deixaria o Partido Democrata para se unir ao movimento político revanchista segregacionista, anti-feminista e anti-gay de Goerge Wallace, Richard Nixon e Ronald Reagan. Cada presidente Republicano eleito de maneira não democrática desde os anos 60 (por um colégio eleitoral feito para retirar poderes e oportunidades) falhou em repudiar essa ala neofascista do seu partido.

Já estou cansada de dar aos Republicanos o benefício da dúvida depois de 50 anos.

O termo “nazista” não é nem forte o suficiente para transmitir a repulsa que ativistas de direitos humanos sentem por aqueles que afirmam que são simplesmente patriotas com opiniões diferentes. Da Casa Branca, ao Congresso, às ruas, eles declararam guerra à democracia. São conspiradores, co-conspiradores e neonazistas se escondendo em plena luz do dia que escolheram usar quaisquer plataformas, poderes e microfones que tinham para derrubar esse sistema de governo. Seu objetivo aparente é um sistema similar ao apartheid no qual uma minoria de pessoas comanda milhões de pessoas que se opõem a elas. Devemos enviar um sinal inconfundível de que isso não será tolerado quando um neofascista mais competente buscar ganhar poder permanentemente no Congresso e na Casa Branca no futuro.

Eu os chamo de nazistas-americanos, que adaptaram o roteiro do Terceiro Reich. Trump pode ter ido embora, mas o trumpismo não. Como disse Nancy Pelosi, presidente da Câmara, eles priorizaram sua “branquitude no lugar da democracia”. Isso é salientado pelo seu ataque implacável ao direito ao voto. Os Republicanos que encorajaram essa ressurreição perigosa do fascismo já estão tentando apagar o que aconteceu ou descrever o momento como simplesmente um “protesto da Primeira Emenda”. Esses defensores tentando lavar suas reputações destroçadas deveriam ter empregos, oportunidades midiáticas, contratos para publicações negados, junto com quaisquer outras oportunidades que tiverem de espalhar seu desprezo pela democracia. Como observou o filósofo Karl Popper em 1945, “a fim de manter uma sociedade tolerante, a sociedade não deve tolerar a intolerância”.

Devemos defender uma sociedade democrática e aberta contra essas forças do fascismo mascaradas de Republicanos que encorajam insurreições supremacistas brancas que buscam comandar como reis acima da lei. Eles consideram pedidos de unidade e civilidade como fraquezas, como fazem os fascistas. Eles tiram vantagem de uma sociedade aberta para prejudicar o progresso do século 20 em relação a raça, gênero, cidadania e relações nacionais e internacionais. Por mais de um século eles provaram que não são confiáveis com poderio militar, perturbando outras democracias fomentando guerras e conflitos de baixa intensidade ao redor do mundo que mataram milhões de pessoas. Eles não são capazes de aceitar a complexidade de um mundo globalizado multicultural e multirracial, então eles sofrem com seus ressentimentos, e lutam contra todos os esforços de democratização dos privilégios e benefícios do nosso mundo. Eles estão na extinção natural de um partido político que quis se segurar no poder por meio de uma rede de mentiras para os seus seguidores para enriquecer uma pequena porção de pessoas.

A esfarrapada reputação global dos EUA está em jogo nessa infindável Guerra Civil. Ao invés de denunciar os traidores em 1865, permitimos que eles fossem reabilitados e consagrados em monumentos ao redor do país. Nossos descendentes olharão para trás e verão que hesitamos mais uma vez na hora de responsabilizar rebeldes? Se não, teremos a mais curta Reconstrução da história.

Nosso comprometimento com os direitos humanos, leis justas, bem-estar social, paz global e governança democrática é o que autoritários buscam prejudicar por meio do abuso ao conceito de liberdade. Deveríamos chamá-los todos de nazistas-americanos e impedir que se escondam atrás de palavras hipócritas porque já nos mostraram quem são. E devemos acreditar neles.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Isabela Palhares

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