Pelo Mundo

A opinião de Chomsky sobre a mudança de regime na Nicarágua

A Nicarágua provocou a ira dos EUA devido às coisas boas que tem feito, não as más

15/08/2018 10:37

hobvias sudoneighm CC BY 2.0

Créditos da foto: hobvias sudoneighm CC BY 2.0

 

Com evidente angústia, Noam Chomsky deu sua opinião sobre a Nicarágua do presidente Daniel Ortega a uma concordante Amy Goodman: “Mas tem havido muita corrupção, muita repressão. É algo autocrático, sem dúvida”.

Momentos antes em sua entrevista no Democracy Now!, os principais pontos a serem discutidos foram estabelecidos através de um vídeo de um dissidente que é ex-dirigente do Partido Sandinista de Ortega: “O governo inteiro [de Ortega] tem sido, em sua essência, neoliberal. Então tornou-se autoritário e repressivo”.

Por não compartilharem desta perspectiva, os EUA decidiram que a Nicarágua deve sofrer uma mudança de regime. A implementação de um regime neoliberal, especialmente se fosse autoritário e repressivo, seria justamente a maneira de ganhar os favores de Washington.

Nas próprias palavras de Chomsky, a Nicarágua coloca a ameaça de um bom exemplo para o império dos EUA.

Desde a vitória na eleição em que Ortega retornou ao poder, em 2006, a Nicarágua alcançou o seguinte, de acordo com o NSCAG (Grupo de Ação de Campanha de Solidariedade da Nicarágua), mesmo sendo o segundo país mais pobre do hemisfério:

A segunda maior taxa de crescimento econômico e a economia mais estável da América Central.

Único país da região que produz 90% da comida que consome.

Pobreza e extrema pobreza caíram pela metade; país com a maior redução de extrema pobreza.

Alcançou a Meta de Desenvolvimento do Milênio da ONU quanto a cortar a desnutrição pela metade.

Educação e saúde básicas gratuitas.

Analfabetismo praticamente eliminado, sendo que em 2006 a taxa era de 36%.

Crescimento econômico médio de 5,2% nos últimos 5 anos (segundo o FMI e o Banco Mundial).

País mais seguro da América Central (segundo o Programa de Desenvolvimento da ONU) com um dos menores índices de criminalidade da América Latina.

Maior nível de igualdade de gênero das Américas (Relatório do Fórum Econômico Global sobre Diferenças de Gênero de 2017).

Não contribui para o êxodo de migrantes rumo aos EUA, diferentemente de seus vizinhos Honduras, El Salvador e Guatemala.

Diferentemente de seus vizinhos, manteve longe os cartéis de droga e é pioneira no policiamento comunitário.

A Nicarágua foi escolhida pelos EUA para sofrer mudança de regime

Antes de 18 de abril, a Nicarágua estava entre os países mais pacíficos e estáveis da região. A violência aparentemente inexplicável que repentinamente engolfou a Nicarágua deve ser entendida no contexto do país ter sido escolhido pelos EUA para sofrer uma mudança de regime.

A Nicarágua provocou a ira dos EUA devido às coisas boas que tem feito, não as más.

Além de representar uma “ameaça” por ser um bom exemplo, a Nicarágua está na aliança anti-imperialista ALBA junto com a Venezuela, a Bolívia, Cuba e outros países. O ataque à Nicarágua é parte de uma estratégia maior dos EUA para desfazer alianças regionais de resistência ao império, apesar da questão ser bem mais ampla.

A Nicarágua regularmente vota contra os EUA em fóruns internacionais opondo-se a políticas estadunidenses retrógradas em relação à mudança climática. A construção de um canal interoceânico passando pela Nicarágua está sendo considerada, o que geraria uma competição com o Canal do Panamá. A Rússia e a China têm investimentos na Nicarágua, competindo com o capital dos EUA.

O decreto NICA, aprovado pela Câmara de Deputados dos EUA e que está agora no Senado, iniciaria uma guerra econômica projetada para atacar o padrão de vida da Nicarágua através de sanções econômicas, além de intensificar a intervenção das atividades de inteligência dos EUA. O propósito final é depor o democraticamente eleito governo Ortega.

Enquanto isso, a USAID anunciou US$ 1,5 milhões adicionais “para apoiar a liberdade e a democracia na Nicarágua” através de organizações não-governamentais (ONGs) para derrubar o governo democraticamente eleito e “fazer deste um hemisfério da liberdade”. Ou seja, liberdade para o império dos EUA.

Cobrando muito mais da Nicarágua do que do nosso próprio governo

Apesar de Chomsky repetir os principais pontos do dirigente da USAID, Mark Green, sobre “o regime brutal de Ortega”, ele não consegue se convencer a aceitar a responsabilidade de realizar-se uma mudança de regime. Chomsky se desespera: “é difícil encontrar uma saída simples no ponto que estamos. É uma situação muito infeliz”.

Chomsky está preocupado com a corrupção, repressão e autocracia na Nicarágua, encorajando o presidente democraticamente eleito a renunciar e tentar a reeleição. É necessário mencionar que Chomsky repreendeu esquerdistas que não apoiaram “completamente” Hillary Clinton? É a partir deste patamar moral que o professor desaprova a Nicarágua.

Essas acusações de corrupção e outras são abordadas pelo ativista de solidariedade de longa data, Chuck Kaufman:

O Banco Mundial, o FMI, e países da UE certificaram a Nicarágua por seu uso eficiente de empréstimos e financiamentos internacionais; os fundos foram gastos de acordo com os propósitos para os quais foram dados, e não foram desviados por corrupção.

Kaufman questiona: “Por que uma força policial que em 39 anos não reprimiu o povo da Nicarágua repentinamente se descontrolaria?”, enquanto vídeos claramente mostram a violência vinda da oposição mais militante.

Ortega venceu em 2006 com 38% dos votos, em 2011 com 63% e em 2016 com 72,5%. A Organização dos Estados Americanos oficialmente acompanhou e certificou a votação. Kaufman observa: “Ditadores não ganham eleições justas com margens crescentes”.

As alternativas a Ortega seriam piores

Aqueles que pedem a remoção de Ortega precisam aceitar a responsabilidade pelo que vier depois. Nesse aspecto, a lição da Líbia é instrutiva, onde a substituição de, nas palavras de Chomsky, o “tirano brutal” e “ditador cruel” Gaddafi ocasionou uma situação muito pior para o povo da Líbia.

Qualquer substituto de Ortega seria mais — não menos — neoliberal, opressivo e autoritário. Quando o povo nicaraguense, em situação de refém político da guerra dos Contra apoiada pelos EUA, primeiramente votou pela saída de Ortega em 1990, o governo que assumiu, apoiado pelos EUA, de Violeta Chamorro implementou ajustes estruturais neoliberais e levou a uma economia moribunda.

Os sandinistas dissidentes que saíram do partido oficial após a derrota na eleição do partido e formaram o MRS (Movimento de Renovação Sandinista) não são uma alternativa progressista. Eles estão agora confortavelmente integrados a ONGs financiadas pelos EUA, regularmente fazendo viagens às custas dos contribuintes a Washington para prestar homenagens a pessoas como a Deputada Ileana Ros-Lehtinen e o Senador Marco Rubio para fazer lobby a favor do decreto NICA. Não representam nenhuma força popular, somando menos de 2% em eleições nacionais.

Quando o MRS deixou o partido sandinista, eles levaram consigo quase todos aqueles que tinham mais instrução, que vieram de famílias mais privilegiadas e que falavam inglês. Esses dissidentes anteriormente de esquerda, que agora tornaram-se de direita devido a seu ódio por Ortega, têm muitas ligações com ativistas da América do Norte, o que explica um pouco a confusão atual na Nicarágua.

O mundo, não só Ortega, mudou desde os anos 1980, quando a União Soviética e seus aliados eram uma força de oposição à opressão dos EUA. O que era possível na época pode não ser possível na atual arena internacional mais restrita.

Luta de classes virada de ponta cabeça

Kevin Zeese, da Resistência Popular, adequadamente caracterizou a ofensiva contra o governo democraticamente eleito da Nicarágua como “uma luta de classes virada de ponta cabeça”. A Nicarágua era o país mais progressista da América Latina sem um adversário a sua altura. Ainda assim, os intelectuais da América do Norte estão preocupados com as deficiências da Nicarágua enquanto não reconhecem claramente que ela está sendo atacada por uma direita doméstica aliada ao governo dos EUA.

Noam Chomsky é um dos maiores intelectuais de esquerda do mundo e deve ser reconhecido por suas contribuições. Sua advertência incisiva sobre as políticas nucleares dos EUA é só um exemplo essencial. Ainda assim, ele também representa um indício de uma tendência na esquerda da América do Norte de aceitar um pouco rápido demais os principais pontos da propaganda imperialista em relação aos sandinistas atuais.

Há uma desconexão entre o encorajamento de Chomsky quanto a substituir Ortega com novas eleições e sua defesa enérgica e de longa data contra ataques imperialistas estadunidenses a países como a Nicarágua. Tais eleições na Nicarágua não só seriam inconstitucionais, mas desestabilizariam ainda mais uma situação profundamente instável. Dada a impopularidade e a desunião da oposição, e a unidade e a força organizacional dos sandinistas, Ortega provavelmente venceria.

O mais importante é que o papel chave dos ativistas de solidariedade norte-americanos é acabar com a interferência dos EUA na Nicarágua de forma que os nicaraguenses possam resolver seus próprios problemas.

A violência direitista desde abril na Nicarágua deve ser entendida como uma tentativa de golpe. Uma porção significativa do povo nicaraguense mobilizou-se a favor de seu governo eleito, como pôde ser visto nas gigantescas manifestações comemorando a revolução sandinista em 19 de julho.

Até o momento, os tranques (bloqueios) da direita têm sido desmontados e os cidadãos podem novamente circular livremente sem serem revistados e ameaçados. Entretanto, como resultado final, a Nicarágua sofreu mortes humanas, o que é inaceitável, enormes danos à propriedade pública, e uma fragilização da economia com o debilitante decreto NICA ameaçando ser aprovado no Senado dos EUA.

Roger Harris faz parte do conselho diretor da Força-Tarefa nas Américas, uma organização de direitos humanos anti-imperialista fundada há 32 anos.


*Publicado originalmente no Counter Punch | Tradução de Nicolas Chernavsky

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