Pelo Mundo

A ordem mundial de Joe Biden

Muitos esperam que, quando o presidente-eleito dos EUA Joe Biden tomar posse em janeiro, ele possa resolver, até renovar, a ordem mundial liberal pós-1945 conduzida pelos EUA. Esse é um desejo compreensível, mas é totalmente irreal

29/11/2020 14:01

(Peter Parks/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: (Peter Parks/AFP via Getty Images)

 
TEL AVIV – Em menos de quatro anos, o presidente dos EUA Donald Trump alcançou o que, historicamente, somente guerras devastadoras conseguiram: reformular a ordem global. Com o seu isolacionismo, aspiração ao autoritarismo e puro capricho, Trump deu uma marretada nas instituições internacionais e organizações multilaterais que seus antecessores haviam construído das cinzas da 2ª GM e mantido desde então. E agora?

Muitos esperam que, quando o presidente-eleito dos EUA Joe Biden tomar posse em janeiro, acordos internacionais liberais possam ser salvos e até mesmo renovados. Isso certamente seria algo desejável. Infelizmente, é uma esperança irrealista. Uma ordem pós-Trump parece ser mais sobre um retorno à competição inter-blocos de 1945 ao invés de uma euforia liberal pós-Guerra Fria.

Para início de conversa, a administração Biden será consumida pelas assustadoras tarefas de curar feridas domésticas que Trump infligiu e de corrigir a fraqueza crítica dos EUA, exposta pela pandemia. A recuperação dos EUA da presidência mais desagregadora na história do país não será rápida e nem indolor. Reformar os EUA é um pré-requisito para restaurar sua capacidade de ser uma liderança global.

Mesmo se a administração Biden tivesse capacidade infinita, não teria como voltar o relógio. O status quo surgiu de um tipo de euforia pós-Guerra Fria, animada pela crença de que a democracia liberal ocidental havia garantido uma vitória definitiva sobre o resto, e que o mundo havia alcançado, segundo a famosa formulação de Francis Fukuyama, o “fim da história”.

Nos anos 90 e 2000, quando os EUA eram a potência econômica, militar e diplomática global inigualável, a lógica da hegemonia liberal era convincente. Mas, no mundo multipolar rápido de hoje, não é mais. Isso foi verdade por mais de uma década, e é por isso que os EUA estavam recuando da liderança global bem antes de Trump assumir o cargo.

Embora o isolacionismo de Trump seja frequentemente tido como anômalo, reflete uma linhagem de pensamento estadunidense que remonta à fundação do país. Se os submarinos alemães não tivessem atacado navios mercantes estadunidenses em 1917, pode ser que os EUA tivessem ficado de fora da 1ª GM.

Do mesmo modo, foi somente quando o Japão atacou Pearl Harbor em dezembro de 1941 que os EUA entraram na 2ª GM. E depois da guerra, os esforços estadunidenses para preservar a paz (enviando tropas) e restaurar a prosperidade na Europa (implementando o Plano Marshall) foram conduzidos por medo da expansão soviética, não por algum senso moral de dever.

Também foi por interesse dos EUA que o antecessor de Trump, Barack Obama, em cuja administração Biden serviu como vice-presidente, e até mesmo George W. Bush antes dele, tomou medidas para reduzir o projeto hegemônico de política externa dos EUA. Como Trump, tanto Obama quanto Bush demonstraram frustração sobre a inadequada partilha de responsabilidades dos aliados da OTAN.

O recuo dos EUA da hegemonia reflete a história que Biden não pode desfazer: a perda de credibilidade dos EUA como resultado das suas longas, custosas e inconclusivas guerras no Oriente Médio, e a crise financeira global de 2008, que expôs o lado ruim da globalização e as deficiências da ortodoxia neoliberal. Longe de cumprir a promessa de prosperidade partilhada amplamente, se tornou claro, o ethos do livre mercado das últimas décadas facilitou o surgimento de desigualdades obscenas e o colapso da classe média.

Essa combinação de guerras infindáveis e desigualdade crescente alimentaram a reação nacionalista que levou Trump à vitória em novembro de 2016. As mesmas frustrações refletiram na votação do Brexit no Reino Unido naquele junho, os protestos dos coletes amarelos na França em 2018 e até mesmo a crise de covid-19.

Uma pandemia poderia parecer uma oportunidade imperdível para a cooperação. No entanto, foi conduzida com fechamento de fronteiras e competição por suprimentos e doses futuras de vacinas, sem mencionar o cerceamento de liberdades civis e a expansão das capacidades de vigilância, inclusive em democracias. Simplesmente, justamente quando mais precisamos da cooperação global, nosso sistema multilateral quebrado nos levou de volta ao seio do estado-nação.

Então, o mundo parece estar retornando a uma ordem vestefaliana, na qual a soberania prevalece sobre as regras internacionais. O posicionamento “América em Primeiro Lugar” de Trump se encaixa perfeitamente nessa ordem. E enquanto a China promove a cooperação internacional em algumas esferas, o multilateralismo é um conceito fundamentalmente alheio a ela. Se oporia ao renascimento de uma ordem mundial baseada em preceitos liberais. Outras potencias nacionalistas (como Brasil, Índia, Rússia e Turquia) e outras menores no Leste Europeu (Hungria e Polônia) se movimentam dentro da mesma esfera iliberal.

A administração Biden deveria aspirar a liderar as democracias mundiais em sua competição contra um bloco autoritário em ascensão, enquanto sustenta as instituições multilaterais e estruturas mais essenciais à paz. Para isso, deveria imediatamente abandonar a conivência do seu antecessor para com o presidente turco Recep Tayyip Erdo%u01Fan, e substituir sua estratégia belicosa em relação ao Irã por um esforço para alcançar um acordo nuclear revisado e durável. Felizmente, parece que fará ambos.

Ao mesmo tempo, a administração Biden precisará tratar as alianças estadunidenses mais como empresas coletivas, que os EUA lideram sem dominar. Do lado dos aliados, essa mudança já começou, com líderes europeus, especialmente o presidente francês Emmanuel Macron, cada vez mais reconhecendo a necessidade de tomar para si a segurança da Europa. Os EUA deveriam trabalhar com uma UE empoderada para conter o revisionismo da Rússia nas fronteiras da OTAN e encerrar sua guerra híbrida contra democracias ocidentais.

Do mesmo modo, para gerenciar sua estratégia contínua de confrontação com a China, os EUA precisarão trabalhar com seus aliados asiáticos, como os rearmados Japão e Coréia do Sul. Como a China ainda não abandonou sua estratégia de “ascensão pacífica”, evitar conflitos violentos será um malabarismo delicado.

Amplamente, os EUA precisarão estimular as democracias liberais do mundo a formarem um bloco capaz de enfrentar os autoritários do mundo. Isso deveria incluir esforços para confrontar as forças de desintegração dentro da UE e, potencialmente, transformar a OTAN em uma aliança de segurança mais ampla para as democracias.

Crucialmente, os dois blocos também precisariam cooperar efetivamente em áreas importantes de interesse mútuo, como o comércio, não-proliferação, mudança climática e saúde global. Isso exigirá habilidades diplomáticas que Trump nem imagina, muito menos domina.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares





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