Pelo Mundo

A perseguição aos imigrantes

 

17/07/2019 14:02

 

 
Trump decretou a expulsão dos Estados Unidos de todos os imigrantes que não conseguiram legalizar sua permanência. Alguns estão no país há vinte anos ininterruptos. Se casaram, tiveram filhos, criaram empresas e trabalham em numerosos ofícios. Levam uma vida ordenada segundo as leis estadunidenses, sabem inglês e inclusive se encontram bem no país, além de defender seu “estilo de vida”.

As ordens permitem prender os apontados pelo poderoso dedo presidencial em qualquer lugar: nos domicílios, na rua, no trabalho, no cinema, no supermercado, no colégio, nas universidades. As mães e os pais serão separados dos filhos e filhas, os matrimônios serão separados entre si, diferenciando os que têm a nacionalidade estadunidense dos que não a tenham obtido. Nem os mais velhos nem os mais novos serão indultados. Serão algemados e levados em furgões da polícia a algum centro de detenção ou campo de concentração do Século XXI, e lá serão mantidos mal alimentados e sem atenção sanitária ou legal, e permanecerão durante tempo indeterminado até que se organizem os trens que os deportarão. Como nos trens do filme Amen, de Costa-Gavras, os novos perseguidos percorrerão as enormes extensões desse grande país até as fronteiras, portos ou aeroportos, onde serão entregues… A quem? Aonde?

Isso é indiferente. Indiferente para Trump, para a polícia que cumprirá as ordens e para a maioria da cidadania que o consente. A película Amen, de 2002, dirigida por Costa-Gavras, narra a cumplicidade com que a Santa Sé e vários países do mundo toleraram o fato de o regime nazista da Alemanha avançasse em sua política de extermínio de judeus durante a II Guerra Mundial. Está baseada na obra de teatro The Deputy, a Christian Tragedy, de Rolf Hochhuth.

Como diz Eli Wiesel, o pior da época nazi não foram os gritos e a perseguição dos malvados, e sim o silêncio dos bons. Exceto algumas manifestações de pouca adesão, em muitas cidades onde mandatários se posicionaram contra as ordens de Trump, a maioria do país permanece alheia à nova tragédia que está se desenvolvendo em seu país, e no mundo inteiro.

Caravanas de pessoas que fogem da América Central, em direção à terra prometida nos Estados Unidos, são presos na fronteira e logo expulsos, como se fossem animais daninhos. Algumas crianças também morreram, seja por asfixia, desnutrição ou violência. Mães separadas dos seus filhos, crianças que gritam desesperadamente quando são arrebatados dos braços de seus pais, homens e mulheres exaustos, arrastrando seus poucos pertences, por campos, rios e desertos, fugindo da fome, da perseguição, dos maus tratos, das prisões, da morte.

No sul da Europa, velhos navios e balsas, embarcações claramente precárias nas quais as pessoas tentam atravessar os 14 quilômetros do Estreito de Gibraltar para morrer entre suas ondas ou ser resgatados pelas guardas costeiras e voltar à rotina de prisões, maus tratos e deportações. Campos de extermínio na Líbia. Alguns heróis e heroínas que se atrevem a desafiar as ordens dos governantes fascistas – que proíbem desembarcar seu carregamento humano nos portos sobre os que governam –, são presos e processados. As organizações que tentam, tão esforçadamente, manter o nível de consciência social que se construiu sobre as milhares de vítimas nos séculos anteriores não são apoiadas pelos governos dos países europeus. Esta Europa, de onde escrevo, considerada o paraíso sobre a Terra, visto que aqui impera a lei que protege os direitos humanos e as liberdades fundamentais, não conseguiram, em cinco anos, a aceitação dos seus governantes a leis que estabelecessem miseráveis quotas de acolhida de refugiados. Pensem que, como em todas as situações, entre os miseráveis que fogem também existem classes: não se pode respeitar igual a um imigrante econômico que um refugiado ou alguém que fugiu de uma guerra que o obriga a buscar asilo, e muito menos se são mulheres, destinadas pela biologia a ser carne de exploração sexual dos homens.

Nem os mandatários desta Europa, continente de liberdades e direitos, estão protegendo os desesperados do mundo que fogem das guerras e da miséria que provocaram, nem suas cidadanias estão indignadas com tais políticas. Porque eu não vejo manifestações massivas nas ruas da Alemanha nem da França, nem da Espanha, com gente protestando contra esses crimes. Sequer promoveram uma campanha continuada contra tais iniquidades, que fosse induzida pela esquerda desses países.

Assim como em artigo anterior, me pergunto: como está reagindo a esquerda espanhola? O que denunciou nos foros onde ela está presente? O que escreve nos meios onde publica seus artigos? O que diz nas redes sociais, as quais ardem com as polêmicas sobre a teoria gay? Que mobilizações prepara para enfrentar as infames atuações dos mandatários que ordenam que os barcos não atraquem em seus portos, que perseguem as organizações humanitárias que desobedecem suas ordens, que prende aqueles que resgatam os refugiados e os amontoa em campos de concentração?

Alguns comentaristas pedem que Alberto Garzón se pronuncie sobre o drama existencial que está vivendo a coalizão Unidas Podemos e o partido que ele lidera, a Esquerda Unida, mas ninguém exige que se coloque na liderança da luta contra a repressão da migração. E as organizações da Esquerda Unida, o que fazem? Minúsculas atividades de bairro, enquanto a antes visível e influente Área da Mulher está muda e desaparecida.

E o que diz o Movimento Feminista, que não o escuto? Terá perdido suas capacidades auditiva e leitora? Parece estar preso a único brinquedo: seus problemas pessoais, e não se pronuncia sobre nenhum tema que não afete diretamente os seus componentes.

Neste momento crucial da sociedade humana do Século XXI, a força que o Movimento Feminista adquiriu na Espanha não está sendo utilizada nem para melhorar o acesso ao poder político – objetivo ao que renunciou orgulhosamente, e fazendo alarde disso – e sequer para ser uma força influente. Agora, neste caloroso verão no hemisfério norte, não se organizará nenhum protesto contra o sequestro, tortura e expulsão dos imigrantes nos Estados Unidos?! Provavelmente não. Nem na Grécia, nem na Turquia, tampouco na Líbia.

As últimas eleições espanholas deram a maioria no parlamento ao PSOE (Partido Socialista Operário da Espanha), pedindo por um governo desse setor, e também levaram os seus deputados ao Parlamento, para que configurassem o maior grupo da Câmara, e também das comunidades autônomas e cidades importantíssimas, que passaram a ter mandatários progressistas. E, alguém tem notado a diferença dessa nova política?



Lidia Falcón O’Neill é formada em Direito, Arte Dramática e Jornalismo, além de doutora em Filosofia. Nomeada doutora honoris causa pela Universidade de Wooster. É fundadora das revistas Vindicación Feminista e Poder y Libertad, a qual dirige atualmente. Também é criadora do Partido Feminista da Espanha e da Confederação de Organizações Feministas do Estado Espanhol, além de colunista habitual do diário Público.es e outros meios.

*Publicado originalmente em publico.es | Tradução de Victor Farinelli




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