Pelo Mundo

A política errática de Trump põe a segurança nacional em risco, alertam experts

 

15/07/2019 14:24

 

 
Três reviravoltas políticas pelo presidente Trump reforçaram seu estilo despreocupado de governar, uma abordagem que envia mensagens ambíguas e coloca a segurança nacional norte-americana em risco, segundo experts.

A abordagem de Trump em três questões – batidas da Imigração e Alfândega dos EUA, tarifas ao México e ação contra o Irã – é politicamente arriscada para o presidente, que está cada vez mais empregando malabarismos perigosos em um esforço para conquistar objetivos políticos chave.

Os defensores de Trump, incluindo o vice-presidente Pence, argumentaram que o presidente mostrou uma cautela admirável ao recusar a continuar com o ataque militar no Irã tendo em vista as potenciais mortes.

“O presidente demonstrou o comedimento que o povo norte-americano, que eu conheço, admira e é grato”, disse Pence na CNN.

Ele adicionou: “O Irã não deveria confundir comedimento com falta de resolução. Todas as opções permanecem na mesa”.

Mas os críticos do presidente estão tentando transformar sua abordagem errática em uma questão para os eleitores.

No programa “Face the Nation” da CBS, o Senador Bernie Sanders (I-Vermont) descreveu as ações de Trump como similares a “uma pessoa ateando fogo a uma cesta cheia de papel e depois apagando-a”.

A Senadora Kamala D. Harris (D-Califórnia) teve uma opinião similar, dizendo à Ed O’Keefe da CBS, “eu não acredito que ninguém deva receber crédito por uma crise de sua própria criação”.

E o Sen. Cory Booker (D-Nova Jersei) argumentou que o tratamento de Trump na questão do Irã significou que “mesmo quando acontecem ataques à tanques, vemos novamente nossos aliados muito céticos até para acreditar em nós nesse momento”.

“Tudo isso tem sido uma loucura”, disse Booker no “This Week with George Stephanopoulos” da ABC. “Não há estratégia aqui. Temos um presidente que parece estar lidando com isso como um reality show e tentando construir mais drama e fazer política externa por tuítes.”

Larry Jacobs, cientista político e professor da Escola Humphrey de Relações Públicas da Universidade de Minnesota, disse que o comportamento de Trump gerou confusão sobre quais são as posições do país.

“Ronald Reagan foi muito claro, não há ambiguidade sobre suas visões sobre o mundo e sua disposição em persegui-las. Nenhuma”, ele disse. “Às vezes ele era criticado...mas havia uma clareza e consistência e um padrão que foi estabelecido.”

Com Trump, em contraste, “ambos nossos aliados e nossos inimigos não conseguem entender o que o nosso presidente quer dizer”, ele disse.

Os resultados da estratégia de Trump sobre política têm sido mistos – e poucos assuntos oferecem uma imagem tão completa dos malabarismos atuais do presidente quanto seus esforços em reformar a política comercial dos EUA.

Mês passado, ele ameaçou impor tarifas em todos os bens mexicanos entrando no país para forçar o México a estreitar sua fronteira sulista contra os migrantes saindo da América Central. Ele deu às autoridades mexicanas 10 dias para mostrar progresso ou encarar uma tarifa de 5% nos quase $346 bilhões em bens que o México envia todo ano para os EUA.

Trump provocou muitas críticas por usar o comércio para falar sobre uma questão não relacionada e por contradizer o espírito do novo Acordo-EUA-México-Canadá, feito para facilitar o comércio entre os vizinhos norte-americanos.

Mas a ameaça levou oficiais mexicanos à Washington para negociar medidas de segurança mais firmes na fronteira, ultimamente incluindo o envio de cerca de 6.000 guardas nacionais mexicanos para a fronteira do país com a Guatemala.

Não foi a primeira vez que o México sentiu o ferrão do estilo de negociação do presidente. Em março, Trump ameaçou fechar a fronteira com o México em uma ação para impulsionar contra os migrantes. Ele voltou atrás depois de apelos de líderes de negócios norte-americanos que temiam uma grande interferência nas cadeias de fornecimento industrial.

Trump também chegou à beira de tirar os EUA do Acordo de Livre Comércio da América do Norte em seu 100º dia no cargo, mas voltou atrás depois de apelos de líderes mexicanos e canadenses. Ele manteve a ameaça de sair do acordo por causa de negociações subsequentes mirando no novo USMCA, que espera ação congressional.

As ameaças de Trump impulsionaram o México e o Canadá a aceitar normas que resistiam até então e que resultaram no TPP, um acordo de 12 nações negociado pela administração Obama e que Trump saiu em seu quarto dia na Casa Branca, de acordo com Dan Ujczo, advogado do setor comercial na Dickinson Wright.

“Querendo admitir ou não, o presidente está conduzindo barganhas duras e conseguindo resultados”, disse Ujczo. “A questão será a qual custo no médio e longo prazo. Isto é, o que acontece quando outros países começarem a usar as mesmas táticas contra os EUA?”

Trump também entrou em partidas sequenciais de diplomacia com altas tarifas com a China. Ele ameaçou, no ano passado, aumentar tarifas em $200 bilhões nos bens chineses de 10% a 25%, começando em primeiro de janeiro. Mas um mês antes do prazo expirar, em um jantar com o presidente chinês Xi Jinping em Buenos Aires, Trump concordou em conceder 90 dias para chegarem a um acordo.

Dias antes do prazo limite, Trump novamente adiou, citando “progresso substancial” nas conversas. Ele não estabeleceu um novo prazo, mas em maio, depois das conversas colapsarem, ele implementou o aumento tarifário.

Ele também começou a impor tarifas em um adicional de $300 bilhões em importações chinesas, potencialmente criando um novo obstáculo para alcançar um acordo comercial com Pequim. Representantes chineses insistiram que todas as tarifas fossem removidas como parte de qualquer acordo que abordasse as reclamações do presidente sobre as práticas comerciais chinesas.

“Agora é mais complexo”, disse um executivo familiar com as conversas comerciais, que falou em anonimato para discutir as confidencialidades.

“As ameaças de Trump funcionam até um ponto contra alvos fracos, mas não contra os fortes. Canadá e o México, que são muito dependentes das exportações aos EUA, têm estado dispostos a realizar concessões difíceis ao invés de arriscar danos sérios à sua própria economia. A Coréia, que é tão dependente do guarda-chuva de segurança dos EUA, também estava disposta a fazer um rápido acordo”, disse Edward Alden, professor de economia da Universidade do Oeste de Washington. “Mas parceiros comerciais maiores – China, União Européia e até o Japão – se mostraram bem menos submissos.”

Enquanto isso, o anúncio de Trump de que havia direcionado agentes da imigração (ICE) para conduzir prisões em massa de famílias migrantes que receberam ordens de deportação – e com um subsequente adiamento da operação em dois dias - parece ter caído por terra até agora. Os Democratas responderam o acusando de governar com reféns ao invés de ir à mesa de negociações.

Alguns Democratas ainda apontaram que as declarações adiantadas de Trump sobre as batidas parecem ter violado as diretrizes de sua administração. Eles notaram que em uma declaração, a porta-voz da ICE, Carol Danko, disse, “qualquer vazamento falando sobre operações importantes de aplicação da lei é grave e põe nossos oficiais em perigo”.

Outros, como Richard J. Durbin (D-Illinois), hesitou com os pedidos de Trump.

“O presidente Trump dá aos milhões de cidadãos que encaram a deportação, duas semanas antes do seu próximo ataque via tuíte”, disse Durbin. “O destino deles depende se o Congresso permitirá que ele prenda crianças indefinidamente. Isso é a América?”

*Publicado originalmente em The Washington Post | Tradução de Isabela Palhares



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