Pelo Mundo

A presidência de Trump acabou

 

03/06/2020 15:03

 

 
Você será perdoado, se não tiver notado. Suas explosões verbais estão mais altas do que nunca, mas Donald J. Trump não é mais o presidente dos Estados Unidos.

Por não ter uma resposta construtiva a qualquer uma das crises monumentais que agora convulsionam os Estados Unidos, Trump abdicou de seu cargo.

Ele não está governando. Ele está jogando golfe, assistindo TV a cabo e tuitando.

Como Trump reagiu à agitação generalizada, após o assassinato em Minneapolis de George Floyd, um homem negro que morreu depois que um policial branco se ajoelhou sobre seu pescoço por nove minutos, enquanto estava algemado no chão?

Ele incitou a mais violência policial. Trump chamou os manifestantes de "bandidos" e ameaçou matá-los. "Quando o saque começa, o tiroteio começa", tuitou, imitando um ex-chefe de polícia de Miami cujas palavras provocaram tumultos raciais no final da década de 1960.

No dia seguinte, ele encorajou a mais violência policial, exultando sobre "os cães mais cruéis e as armas mais ameaçadoras", que aguardavam manifestantes do lado de fora da Casa Branca, caso eles rompessem as linhas do Serviço Secreto. No domingo, ele novamente recorreu a tuítes incendiários, instruindo os “prefeitos e governadores democratas” a “serem duros” com os “ANARQUISTAS”.

A resposta de Trump ao assassinato de George Floyd degradou a presidência e dissipou qualquer autoridade moral que restasse.

A resposta de Trump aos últimos três meses medonhos de crescentes doenças e mortes tem sido igualmente desatenta. Desde que alegou que a Covid-19 era uma "farsa democrata" e amordaçou as autoridades de saúde pública, ele direcionou a administração do coronavírus para os estados.

Os governadores tiveram que encontrar respiradores para manter os pacientes vivos e equipamentos de proteção para os trabalhadores dos hospitais e outros trabalhadores essenciais que não o possuem, geralmente fazendo lances uns contra os outros. [NT: há reportagens mostrando a subida de preços de equipamentos causada por competição entre os governadores] Eles tiveram que decidir como, quando e onde reabrir suas economias.

Trump não assumiu "nenhuma responsabilidade" pelos testes e pelo rastreamento de contatos - as chaves para conter o vírus. Seu novo "plano" coloca a responsabilidade dos estados em fazer seus próprios testes e rastreamento de contatos.

Trump também está AWOL [absent without leave, ou ausente sem ter saído] na pior crise econômica desde a Grande Depressão.

Mais de 41 milhões de americanos estão desempregados. Nas próximas semanas, as moratórias temporárias de despejo devem terminar em metade dos estados. Um quinto dos americanos não pagou o aluguel este mês. Os benefícios extras de desemprego devem expirar no final de julho.

Qual é a resposta de Trump? Como Herbert Hoover, que em 1930 disse que "o pior está para trás" quando milhares de pessoas passavam fome, Trump diz que a economia vai melhorar e não faz nada para resolver as dificuldades crescentes. A Câmara, liderada pelos democratas, aprovou um pacote de ajuda de US$ 3 trilhões em 15 de maio. Mitch McConnell colocou o Senado em recesso sem tomar medidas e Trump chama a lei de ‘morta na chegada’.

E quanto a outras questões prementes que um presidente de verdade estaria abordando? A Câmara aprovou quase 400 projetos de lei neste mandato, incluindo medidas para reduzir as mudanças climáticas, aumentar a segurança das eleições, exigir verificações de antecedentes para a venda de armas, reautorizar a Lei de Violência contra as Mulheres e reformar o financiamento de campanhas eleitorais. Todos estão definhando na caixa de entrada de McConnell. Trump não parece estar ciente de nenhum deles.

Não há nada de errado em jogar golfe, assistir televisão e tuitar. Mas se isso é tudo o que um presidente faz quando o país está envolvido em crises, ele não é um presidente.

Os tuítes de Trump não substituem governar. Eles são principalmente para dar o troco.

Quando ele não está fomentando a violência contra manifestantes negros, ele acusa uma personalidade da mídia de cometer assassinato, retuíta insultos sobre o peso de uma mulher negra e a aparência da presidente da Câmara, conjura conspirações contra si mesmo, supostamente organizadas por Hillary Clinton e Barack Obama, e encoraja seus seguidores para "libertar" seus estados de restrições dos bloqueios.

Ele tuíta ameaças falsas que não tem poder para realizar - reter fundos de estados que expandem votos de ausentes, "anular" a decisão dos governadores que não permitem que locais de culto reabram "imediatamente", designar ativistas antifascistas como terroristas, e punir o Twitter por conferir a veracidade de suas afirmações.

E ele mente incessantemente.

Na realidade, Donald Trump não administra o governo dos Estados Unidos. Ele não administra nada. Ele não organiza ninguém. Ele não administra, nem inspeciona ou nem supervisiona. Ele não lê memorandos. Ele odeia reuniões. Ele não tem paciência para receber briefings. Sua Casa Branca está em caos perpétuo.

Seus conselheiros não são reveladores da verdade. Eles são bajuladores, lacaios, servis e parentes.

Desde que se mudou para o Salão Oval, em janeiro de 2017, Trump não demonstrou qualquer interesse em governar. Ele é obcecado apenas por si mesmo.

Mas foi necessário o atual conjunto de crises para revelar as profundezas de sua abdicação absorta - seu total desprezo por seu trabalho, seu total repúdio a seu cargo.

A inação de Trump vai muito além da ausência de liderança ou desatenção às normas e papéis tradicionais. Em um momento de trauma nacional, ele abandonou os principais deveres e responsabilidades da presidência.

Ele não é mais o presidente. Quanto antes pararmos de tratá-lo como se fosse, melhor.

*Publicado originalmente no site do autor | Tradução de César Locatelli

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