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A propaganda da mídia liberal diz ao mundo: os EUA em primeiro lugar

 

23/06/2021 11:57

(Reprodução/bit.ly/3h2kBkZ)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/3h2kBkZ)

 
Se você pegar suas notícias sobre política externa hoje da CNN ou da MSNBC ou de veículos parecidos, então você será bombardeado hora após hora com a ideia de que os Estados Unidos têm o direito absoluto de impor sanções a diversos países estrangeiros se eles violarem os direitos humanos ou se eles não foram democráticos.

Para dar apenas um exemplo: no domingo, a âncora da CNN, Dana Bash, grelhou Jake Sullivan, conselheiro nacional de segurança de Biden, sobre o porquê de a Casa Branca não estar impondo ainda mais sanções à Rússia (e à China) e o porquê de o Time Biden estar “cedendo para a Rússia” em relação ao gasoduto para a Europa Ocidental. Sullivan foi empático ao insistir que as sanções foram impostas e que mais estavam a caminho – ostentando que Biden havia adquirido ainda mais poder presidencial para sancionar a Rússia por meio de uma ordem executiva.

Eu sou velho o suficiente para lembrar do complexo de superioridade por trás da propaganda da mídia liberal durante a Guerra Fria com a União Soviética – enquanto a política externa estadunidense, em nome da democracia, massacrou milhões de pessoas não brancas, em sua maioria civis, ao redor do globo... da Ásia ao sul da África à América Latina.

No meio da Guerra Fria, quando Martin Luther King Jr. denunciou o governo dos EUA como “o maior provedor de violência no mundo hoje” e criticou a arrogância dos EUA alimentando a Guerra Fria, veículos liberais como o New York Times e o Washington Post condenaram King furiosamente – na essência, dizendo para ele deixar a política externa para “nós homens brancos”.

Quando o assunto era relações entre nações, King criticou a “arrogância” do nosso país e do ocidente ao “sentirem que têm tudo para ensinar aos outros e nada para aprender com eles”.

Pule para o presente e verá a mesma arrogância na mídia liberal estadunidense: temos tudo para ensinar aos outros – seja a Rússia, ou China, Irã ou Venezuela, ou qualquer dúzia de países que os EUA estejam impondo sanções, às vezes, sanções mortais.

Vamos fazer hoje o que MLK nos alertou para fazer no passado: olhar no espelho.

Não há direito humano mais precioso que o direito de se ver livre da cadeia ou prisão. Então, é uma violação aos direitos humanos de proporções épicas o fato de que os EUA possuem mais de dois milhões de pessoas encarceradas, bem mais do que qualquer outro país, incluindo a China com sua população muito maior. Nosso povo por trás das grades é, desproporcionalmente, negro ou marrom. A mídia liberal aprendeu recentemente como jogar o termo “racismo sistêmico”, mas – quando ensina outros países – eles esquecem que o encarceramento em massa é uma afronta às noções de “democracia” e “direitos humanos”.

É um direito humano ser capaz de viver sem medo da violência. Ainda assim, nenhum outro país de grande dimensão tem tanta violência armada, com centenas de mortos todos os dias – um dos muitos problemas que a “democracia” dos EUA não consegue nem abordar, quem dirá resolver.

Era de se esperar que a história recente dos EUA teria tornado mais modesta a retórica dos analistas da mídia liberal sobre sua crença de que os EUA são “os bastiões da democracia” do mundo – e sobre o nosso direito sagrado de punir outros países que não se adequem.

Após anos de Trump e de um movimento trumpista que capturou quase metade do eleitorado... após nosso sistema midiático corporativista esbanjar massivas quantidades de tempo livre no ar com o candidato Trump em 2015 (CNN, CBS, ABC, etc) porque era bom para os lucros das redes... após anos de um sistema político disfuncional em Washington que serve aos ricos e às gigantes corporações, quando não estão em total colapso... após a Suprema Corte ser preenchida por juízes de direita por meio de acordos legislativos... após a crescente supressão eleitoral mirando em pessoas não brancas e jovens eleitores... era de se esperar alguma humildade em relação à “democracia estadunidense”.

Ainda assim, analistas da mídia liberal continuam propagandeando para o público sobre o direito dos EUA de ensinar outros países sobre seus sistemas políticos, e de puni-los severamente (deixando de lado aliados como a Colômbia, Arábia Saudita e Israel, é claro). Não importando as horríveis consequências para os civis dos outros países quando são privados de importações vitais.

Esses veículos de notícia liberais podem detestar Trump, mas eles certamente colocam “os EUA em primeiro lugar” quando o assunto é policiar o resto do mundo. E eles parecem propensos a instigar novas Guerras Frias com a Rússia e a China.

É indefensável que Putin tenha aprisionado e quase matado a figura da oposição, Alexei Navalny, e é importante para o governo dos EUA falar publicamente e em particular contra tal comportamento. O mesmo serve para o terrível tratamento chinês com os muçulmanos Uyghur. Mas enquanto fala com consciência e humildade sobre os direitos humanos, os EUA também precisam trabalhar colaborativamente com a Rússia em prol da paz cibernética e do desarmamento (as duas nações têm 90% das armas nucleares do mundo) e com a China em prol da mudança climática. Sem colaboração, o mundo está condenado.

A visão liberal sobre a Guerra Fria original com a Rússia é a de que “NÓS GANHAMOS”. A visão progressista é a de que todos perderam, especialmente os países do sul global como o Vietnã, o Irã, a Indonésia, a Guatemala e El Salvador que foram vitimizados por invasões estadunidenses, golpes e guerras à distância apoiadas tanto por Democratas quanto por Republicanos.

Eu tenho uma ideia ousada que você não vai ouvir na CNN ou na MSNBC: ao invés de palestrar e sancionar o resto do mundo, vamos arrumar a nossa própria casa. Vamos liderar pelo exemplo. Na democracia, ao invés de sancionar outros países, o Time Biden deveria organizar os Democratas para sancionar o senado dos EUA estabelecendo um comando da maioria pondo um fim ao legado Jim Crow, ao obstrucionismo. E Biden deveria falar sobre a Suprema Corte lotada de direitistas.

Sobre os direitos humanos, vamos cortar na metade o orçamento militar dos EUA, e fornecer coisas que outros países avançados já têm: assistência médica universal e educação superior gratuita ou quase gratuita. Vamos investir bilhões de dólares nas comunidades pobres e de trabalhadores, e pôr fim aos horrores do encarceramento em massa. Vamos cancelar a dívida estudantil que é um fardo para 45 milhões de pessoas – e, finalmente, vamos taxar seriamente os oligarcas dos EUA e as corporações para que paguem todos esses investimentos (e talvez se preocupem menos com a taxação à oligarcas russos).

Joe Biden gosta de se ver como um especialista em política externa. Se ele ouvir os guerreiros do laptop na mídia que querem que ele seja o pivô em direção à China e à Rússia, uma política externa aventureira vai prejudicar a agenda doméstica Democrata e condenar sua administração mais rápido do que você imagina. E os Republicanos vão retomar o Congresso.

Biden pode ter êxito somente se ignorar os gaviões da mídia e focar na política externa – galvanizando seu partido em direção a um esforço tipo o de FDR para abordar os direitos humanos e a mudança climática com grandes programas federais que edificam os trabalhadores de todas as raças.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' Tradução de Isabela Palhares



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