Pelo Mundo

A questão do Quênia

31/01/2008 00:00

BERLIM – Por entre o crescente frenesi em torno da terça-feira, 5 de fevereiro, onde primárias democratas e republicanas ocorrerão em duas dezenas de estados norte-americanos, a imprensa européia de hoje está tomada por relatos sobre a situação do Quênia, que se deteriora no que é descrito já como campanhas de massacres ou enfrentamentos étnicos, entre Kikuyus, grupo do atual presidente, Mwai Kibaki, e Raila Odinga, da oposição, dos Luo.

É difícil penetrar mais a fundo em diferenças programáticas – se existem – entre esses dois candidatos que se enfrentaram nas eleições presidenciais do fim do ano passado e que foram o estopim dos atuais enfrentamentos, sob acusações de que o presidente Kibaki teria comandado uma fraude eleitoral para ser declarado vencedor.

Toda a descrição da cena remonta a citação de massacres mútuos entre Kikuyus e Luos, perpetrados a golpes de machete, de porretes, ou com pneus em chamas presos aos pescoços das vítimas. São imagens de uma “guerra suja”, em contraste com as “guerras limpas”, intervenções cirúrgicas e assépticas para os interventores, apesar dos milhares de mortos do outro lado, que as potências do mundo hoje costumam patrocinar e praticar.
Como quase toda nação africana moderna, o Quênia tem um passado confuso e complexo de intervenções vindas de fora. É necessário inicialmente compreender que estamos falando de um dos berços da humanidade. Os traços de humanóides, hominídeos, australopitecos e demais antepassados ou primos distantes do homo sapiens remontam respectivamente a 20, 6, ou 2 milhões de anos.

Desde milhares de anos as terras do Quênia foram cenário de caravanas e povos invasores, desde os árabes, depois os europeus: primeiro os portugueses, depois os alemães e finalmente os ingleses, que ocuparam os planaltos interiores com plantações de chá.

A ocupação inglesa provocou uma série de revoltas e sedições desde o começo do século XX, todas reprimidas com notória brutalidade pelos ocupantes. Foi assim na década de 20 com os movimentos de reivindicação trabalhistas, e foi assim logo depois da Segunda Guerra, quando surgiu o primeiro movimento organizado de independência nacional e luta pela terra, conhecido com o nome, dado pelos ocupantes, de a Revolta dos Mau Mau, que, entre eles, chamavam-se de “combatentes da liberdade”. Em todas essas revoltas, inclusive a dos Mau Mau, a participação dos Kikuyus foi preponderante.

A repressão contra os Mau Mau foi notória e espetacular. Houve, primeiro, uma repressão simbólica. Declarados um grupo terrorista, de fanáticos assassinos de fazendeiros brancos, os Mau Mau foram estigmatizados na literatura e no cinema. O mais famoso filme dessa laia, que assisti aterrorizado (pelos “cruéis Mau Mau”) numa matinê dominical do cinema Capitólio, em Porto Alegre, foi Safari, com Victor Mature no papel principal, como um fazendeiro branco que tem o filho e o resto da família assassinados pelos “fanáticos” e se dedica ao seu extermínio, o que consegue depois de muita perseguição e assassinatos.

Informações mais equilibradas dizem hoje que de fato houve violência dos Mau Mau contra famílias de fazendeiros ingleses, mas que ela foi esporádica. Havia mais perseguições contra africanos que colaboravam com os ingleses, o que não elimina nem absolve violências praticadas. Mas os Mau Mau se caracterizavam sobretudo por serem independentistas, por desejarem atrair outras etnias para sua causa, e por lutar pela posse da terra, esbulhados que se sentiam pelos colonos europeus.

Em compensação, a repressão britânica foi exemplar. Oficialmente, de 1952 a 1959, ano em que a rebelião foi considerada extinta, houve 13 mil mortos em conseqüência das ações militares ou da repressão política. Dos Mau Mau, morreram 10.173, sendo que destes, 1.574 foram mortos por enforcamento. O número de prisões passou de 70 mil, grande parte sem processo nem julgamento.

Entre as conseqüências dessa repressão em meio a uma luta desigual, descrevem-se hoje 1) a conclusão a que os britânicos chegaram de que seria impossível no Quênia estabelecer um governo de minoria branca, como queriam os fazendeiros; daí abrirem caminho para a independência liderada por um governo formado por africanos, o que se efetivou em dezembro de 1963, sob a liderança de Jomo Kenyatta, um Kikuyu que fora preso e condenado a 7 anos por ocasião da revolta dos Mau Mau; 2) a independência se fez num país em que a repressão, como não é incomum nesses casos, se assentou sobre rivalidades e perseguições tribais, impedindo a formação de um sentimento de unidade nacional mais profundo.

Desde a independência, a luta política no Quênia vem se dando no interior do grupo que “sucedeu” a Kenyatta, centrado nos políticos herdeiros da frente liderada por ele onde predominaram os de origem Kikuyu. Esses grupos, a começar pelo próprio Kenyatta, exerceram uma repressão dura contra seus oponentes, aponto de num dado momento, o Quênia tornar-se um país de partido único. Isso que, aparentemente seguiria um modelo comunista, se dava, no entanto, num país pobre, em que a maioria da população vive com menos de 1 dólar por dia, e integrado, durante e depois dos anos 90, às vagas das políticas neo-liberais que impediam a concentração de possibilidades de reerguimento estatal para alvancar um desenvolvimento. O resultado desses quadros sucessivos foi o agravamento da “tribalização” das lideranças políticas, seguidas denúncias de corrupção, o que aparece como uma luta por um botim de verbas públicas, de financiamentos estrangeiros e até das ajudas humanitárias provindas de organismos internacionais e de ongues sobretudo religiosas e européias, e uma concentração de poderes cada vez maior nas figuras presidenciais, Daniel Moi, que sucedeu Kenyatta, e ficou anos no poder, e agora Kibaki, que sucedeu Moi. Tudo isso num cenário de miséria e favelização crescente das cidades, sobretudo de Nairobi, cuja estimativa populacional fala em 4 milhões de habitantes, mas cuja estimativa não oficial fala em mais de 6 milhões. Kibera é uma das maiores e mais pobres favelas do mundo, e ali, em meio às lutas com machetes e porretes, disputam-se tanto migalhas e barracos mínimos quanto o poder que isso representa, em termos locais e em termos de obtenção de favores dos “de cima”. Teme-se que logo depois dos machetes venham as metralhadoras, e que o país possa dividir-se num sul Kikuyu e num norte Luo.

O Quênia é um país de paisagens extraordinárias. Quando lá estivemos, em janeiro de 2007, para cobrir a 7a. jornada do Fórum Social Mundial, além da cobertura fizemos (a Carta Maiorveja nossas reportagens e crônicas) uma viagem ao parque Masai, o sudoeste de Nairobi, onde conhecemos alguns dos membros desse povo-pastor, antigamente nômade. Lá conversei longamente, junto com o Marcel Gomes, com Maripet Ole Nkoile, um pastor de cabras, ovelhas e reses, a quem carinhosamente apelidei de “filósofo”.

Maripet tentava entender as mudanças por que passavam seu país e seu povo, com a crescente chegada do turismo e seus fornidos dólares, com a educação sendo aberta para todos e para as meninas, e me confessava olhar tudo isso com esperança, mas também com temor. Ficamos amigos, prometi mandar-lhe um postal de S. Paulo, onde eu morava então. Cumpri a palavra, mandei. Espero que ele possa me responder. Com mais esperança do que medo.

Carta Maior Recomenda
Hoje, 31/01/08, vale a pena uma prolongada visita à página do The Guardian, de Londres (www.guardian.co.uk). Artigos interessantíssimos sobre o lançamento das cinzas de Gandhi no mar de Mumbai (onde Carta Maior também esteve, cobrindo o 4o. Fórum Social Mundial), por ocasião do sexagésimo aniversário de seu assassinato; as desculpas que o governo trabalhista de Austrália vai pedir aos aborígenes, pelo seqüestro quase secular de crianças mestiças das mães nativas, para serem criadas entre “famílias brancas”; além de artigos sobre o Quênia, Israel e a guerra no Líbano, e, é claro, as eleições nos Estados Unidos. Vale a pena também visitar a excelente galeria de fotos, 24 Hours in Pictures, com excelentes tomadas no mundo todo por alguns dos melhores repórteres fotográficos em ação, sempre ressaltando aspectos inusitados de acontecimentos da atualidade.



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