Pelo Mundo

A revolta dos oficiais

Os comandantes militares estão finalmente se manifestando contra Trump

04/06/2020 12:42

Michael Mullen, almirante aposentado da Marinha (Mandel Ngan/Getty Images)

Créditos da foto: Michael Mullen, almirante aposentado da Marinha (Mandel Ngan/Getty Images)

 
Em uma mudança notável, o secretário de Defesa, Mark Esper, disse na quarta-feira (3/6) que se opõe ao uso de tropas ativas para reprimir os protestos nas cidades norte-americanas - em outras palavras, ele se opõe à ameaça do presidente Donald Trump de fazer exatamente isso.

Sua afirmação é significativa por dois motivos. Primeiro, Esper seria o encarregado de executar essas ordens sob a Lei da Insurreição de 1807, que Trump ameaçou invocar. Segundo, desde que se tornou secretário de Defesa, há quase um ano, Esper, como muitos de seus colegas de gabinete, se curvou a Trump como um cão de colo. Os comentários de quarta-feira podem sinalizar uma mudança maior, provocada talvez por seu constrangimento por ter sido usado por Trump, para fins descaradamente políticos, na sessão de fotos em frente à Igreja de São João na segunda-feira.

Esper não é o único que está começando a se rebelar pelo mau uso das forças armadas por Trump. Oficiais militares sêniores também estão se voltando contra ele. Até agora, essa é uma ação descoordenada - os oficiais são treinados, desde o momento em que são cadetes, para ficarem fora da política e obedecerem às ordens legais da autoridade civil - mas há uma preocupação crescente com o uso das forças armadas por Trump para seus propósitos partidários e, assim, um crescente reconhecimento da necessidade de se manifestar.

O primeiro extravasamento público ocorreu na terça-feira, do almirante reformado Mike Mullen, ex-presidente do Estado-Maior Conjunto (JCS, Joint Chiefs of Staff), que escreveu no site Atlantic: “Até agora, tenho sido reticente em falar sobre questões que envolvem a liderança do presidente Trump, mas estamos em um ponto de inflexão, e os eventos das últimas semanas tornaram impossível permanecer em silêncio. ”

Ele estava se referindo à visita de Trump à Igreja de St. John - depois que a polícia e a Guarda Nacional abriram caminho disparando gás lacrimogêneo contra manifestantes pacíficos no vizinho Lafayette Park - e à convocação de tropas ativas para mais ataques. Com esses atos, escreveu Mullen, Trump “pôs a nu seu desdém pelos direitos de protesto pacífico neste país, prestou auxílio aos líderes de outros países que se confortam com nossos conflitos domésticos e arriscou politizar ainda mais os homens e mulheres de nossas forças armadas."

Mullen escreveu que estava confiante de que homens e mulheres de uniforme “obedecerão a ordens legais. Mas", acrescentou, “estou menos confiante nas ordens que serão dadas por esse comandante em chefe." Ele também criticou Esper, sem mencionar seu nome, que havia falado alguns dias antes da necessidade de dominar o "espaço de batalha" na luta contra os manifestantes. Mullen replicou que as cidades americanas "não são, e nunca devem de tornar, 'espaços de batalha' a serem dominados".

As palavras do almirante seguiram comentários semelhantes, principalmente no Twitter, do general reformado Martin Dempsey, outro ex-presidente do JCS; o general aposentado Michael Hayden, ex-diretor da CIA e da NSA; e o general reformado Tony Thomas, ex-chefe do Comando de Operações Especiais.

Oficiais da ativa também estão começando a se manifestar. Em um memorando para seus colegas líderes de serviço, obtido pelo Air Force Times, o general David Goldfein, chefe de gabinete da Força Aérea, condenou a morte de George Floyd nas mãos da polícia de Minneapolis. Ele observou que a Força Aérea "não é imune ao espectro do preconceito racial" e os exortou "como líderes e como aviadores" a "enfrentá-lo de frente". O memorando não era uma crítica explícita à abordagem de Trump às manifestações, mas foi uma clara tentativa de dissociação da abordagem do presidente.

Goldfein escreveu seu memorando depois que Kaleth Wright, chief master sergeant da Força Aérea, o principal líder alistado do serviço, que é negro, publicou um comunicado - depois de receber a autorização de Goldfein para fazê-lo - identificando-se com Floyd e outras vítimas de brutalidade policial . Observando que a Força Aérea está lutando com "seus próprios demônios" contra o racismo, incentivando seus colegas aviadores a "fazer o que você acha que é certo para o país, para sua comunidade ... para todos os homens negros neste país que poderiam acabar como George Floyd.”

Mais claro ainda foi o memorando do tenente-general Jay Silveria, superintendente da Academia da Força Aérea, não apenas pedindo "introspecção, reflexão e discussão" sobre a injustiça racial, mas também declarando, sem rodeios: "A violência contra nossos concidadãos não tem lugar em nosso trabalho em direção a mudanças positivas” e “juramos defender” o direito a protestos pacíficos.

Um professor da academia, que me deu uma cópia do memorando, escreveu em um e-mail: "Silveria e o restante dos líderes militares estão chateados porque somos uma das instituições mais bem integradas" e "também a única instituição não politizada, e vamos lançar nossos militares – soldados negros, hispânicos, brancos etc. em plena batalha para espancar os cidadãos americanos?”

Esper - um ex-cadete de West Point, oficial de infantaria do Exército e executivo aeroespacial - pode ter sido castigado não apenas por essas declarações, mas também por uma carta de James Miller, ex-subsecretário de Defesa, que na terça-feira, em protesto, renunciou a sua posição de líder no Conselho de Ciência da Defesa desde 2014. Em sua carta de demissão, enviada por Miller ao Washington Post para publicação, ele escreveu que, ao acompanhar Trump à Igreja de São João, depois que manifestantes pacíficos próximos foram dispersados com gás lacrimogêneo, Esper havia violado seu juramento de seu cargo para “apoiar e defender a Constituição”.

Miller continuou: “Qualquer pessoa que preste juramento deve decidir onde ele ou ela traçará a linha divisória. Agora devo perguntar: se as violações flagrantes de ontem à noite [na igreja] não cruzaram a linha para você, o que o fará? ... Espero que esta carta de demissão o encoraje a contemplar novamente as obrigações que você aceitou … bem como suas obrigações com os homens e mulheres de nossas forças armadas e outros americanos cujas vidas podem estar em risco”.

Talvez a carta de Miller tenha levado Esper a fazer exatamente isso. Em sua entrevista coletiva na quarta-feira, Esper também recuou no uso da frase ‘espaço de batalha’, dizendo: “É parte do nosso léxico militar em que eu cresci. … Não é uma frase focada nas pessoas. Em retrospecto, eu teria usado palavras diferentes.”

Antes, em uma entrevista à NBC News, Esper tentou se dissociar do incidente de St. John, dizendo que, depois de uma reunião na Casa Branca, ele seguiu Trump e outros em direção a Lafayette Park, ao lado da igreja, pensando que ele estaria inspecionando as tropas da Guarda Nacional que haviam sido enviadas para lá. "Eu não sabia para onde eu estava indo", disse ele, um comentário que provocou riso e zombaria nas mídias sociais - o que também pode ter levado Esper a se explicar e cortar, com mais firmeza, os laços com a política do governo.

O general Mark Milley, presidente do Estado-Maior Conjunto - que também posou na sessão de fotos de St. John e que andava pomposo por Washington, na noite de segunda-feira, em traje completo de batalha, como se fosse um comandante de guerra que inspecionava suas tropas antes delas entraram em combate - ainda não disse nada sobre seu comportamento ou sobre as políticas do presidente. Vários oficiais desaprovaram as palhaçadas de Milley, especialmente porque, como presidente do JCS [Estado Maior Conjunto], ele não desempenha nenhum papel formal nas operações militares. Hayden tuitou que estava particularmente "chocado" com o traje de batalha de Milley.

A espera, agora, é por outros oficiais se manifestarem - e, talvez, que oficiais do serviço ativo, limitados no que podem dizer publicamente, renunciem. Em fevereiro de 2017, o almirante aposentado William McRaven, ex-chefe do Comando Conjunto de Operações Especiais, o oficial que planejou o ataque a Osama bin Laden, denunciou Trump como a "maior ameaça à democracia" que ele já viu. Isso foi no contexto em que Trump denunciou a imprensa como "inimiga do povo". Outros oficiais assentiram silenciosamente nos bastidores, mas poucos se juntaram a ele publicamente. Afinal, a presidência de Trump tinha apenas um mês.

Em dezembro de 2018, James Mattis, um general aposentado de quatro estrelas, escreveu uma carta virulenta a Trump, renunciando em protesto como seu secretário de defesa, principalmente por causa do desrespeito do presidente com os aliados. Alguns meses depois, Mattis escreveu um livro de memórias que mal mencionava Trump. Ao promover o livro, ele disse aos entrevistadores que estava constrangido a falar contra um presidente em exercício, mas também disse a Jeffrey Goldberg, do Atlantic, que seu período de silêncio "não era eterno - não seria para sempre".

Uma pergunta, então, para Mattis * e muitos outros homens e mulheres críticos silenciosos na ativa (ou recentemente reformados), parafraseando a carta de Jim Miller para Mark Esper: Se o comportamento recente de Trump não cruzou a linha para você, o que o fará?

*NT James Mattis já se manifestou, denunciando Trump como uma ameaça à Constituição.

*Publicado originalmente em slate.com | Tradução de César Locatelli



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