Pelo Mundo

A semântica da guerra

09/01/2009 00:00

Al Jaazera

Créditos da foto: Al Jaazera
Toda guerra tem sua própria linguagem e suas palavras.

“Guerra de trincheiras: esta é uma expressão para sempre ligada à 1ª Guerra Mundial. Assim como o nome do romance de Erich Maria Remarque: “Nada de novo na frente ocidental”. A 2ª Guerra Mundial consagrou (infelizmente) termos como “Blitzkrieg” – “Guerra Relâmpago”, que em português nos deixou o termo “blitz” para uma batida rápida da polícia; “Dia D”, que até hoje significa “momento decisivo”. E assim por diante. Outras guerras popularizaram termos como “Napalm”, “Agente Laranja”, “Limpeza étnica”, etc.

Esta ofensiva de Israel em Gaza ainda não inovou em matéria de semântica. Mas já trouxe uma peculiaridade para a linguagem jornalística que mostra algo sobre sua natureza.

Sempre aprendi com meus mestres em matéria de jornalismo que o bom estilo poupa os adjetivos ou expressões qualificativas que equivalham a eles. Mas agora constato que, se há uma marca que esta ofensiva de Israel em Gaza deixará, ela jaz nos adjetivos.

Fiz um levantamento, de propósito em jornais que poderiam ser qualificados como “conservadores”, do ponto de vista político, ou “sóbrios”, do ponto de vista do estilo. Chovem adjetivos e qualificações, dos e das mais fortes.

As expressões mais comuns foram, em inglês, “carnage”, e “onslaught”, ambas encontradas até em publicações que entram conspicuamente em ambas as classificações acima expostas, “conservadores” e “sóbrias”: Financial Times e The Economist. Ambas as palavras são de uma dramaticidade exemplar. “Carnage”, “carnagem” em português, se aplica ao abate de animais em quantidade para alimentação. O Aurélio dá como sinônimo a expressão “carnificina”. “Onslaught”, na semântica da guerra, é expressão usada como sinônimo de “furious attack”, “ataque furioso”. De novo, o termo vem da matança de animais (“slaughter”), e quando aplicado no contexto bélico, se aplica a uma situação em que um dos contendores mata indiscriminadamente pessoas do outro lado. Outros termos que encontrei foram, com respeito ao ataque de Israel, “hard to justify”, “difícil de justificar” (The Economist) e “disproportionate”, “desproporcional” (Financial Times), além de, neste último, “horror” e “desperate”, (“horror” e “desesperada”) com respeito à situação dos palestinos em Gaza.

Continuando a busca, um pouco a esmo, mas dentro dos critério que me propusera, fui encontrando em artigos e editoriais:

1) “Bloody war” (Der Spiegel, da Alemanha, edição em inglês), que ao mesmo tempo quer dizer “guerra sangrenta” (qual não é?) e “guerra maldita”; em algumas gírias também quer dizer “de merda”, mas duvido que os redatores do Spiegel tenham pensado nesta conotação, embora ela também coubesse.

2) “Matanza de civiles” e “situación desesperada” no El País, da Espanha.

3) “Campo di concentramento”, “campo de concentração”, em relação às condições de vida em Gaza, declaração do Cardeal Renato Raffaele Martino, Presidente do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz da Santa Sé, no Vaticano, à página Ilsussidiario.net, da Itália. Lembremos, em todo caso, que o Vaticano ficou a dever uma atitude mais firme contra o fascismo e contra o holocausto durante a 2ª Guerra, ainda que muitos sacerdotes tenham sido exemplares nas diversas modalidades de luta durante a Resistência.

4) “L’horreur”, “atroce”, “desesperée”, no Le Monde, da França.

5) “Nightmarish”, “pesadelar” (palavra rara, mas existente na nossa língua), “deprivation”, “privação”, e “neglect”, “negligência”, esta última empregada em relação à atitude do exército israelense diante da situação dos mortos e feridos, no New York Times, dos Estados Unidos.

6) “Vengeful military Behemoth”, “um Beemote militar vingativo”, assim a reportagem do Herald Tribune descreve o exército de Israel. “Behemoth” é uma criatura citada no Livro de Jó (40: 15 – 24), do Antigo Testamento; algumas interpretações o associam ao hipopótamo, outras a um animal pré-histórico; em todo o caso é um ser impressiona por sua força e postura, conforme Jeová o descreve a Jó, mas que guarda algo de monstruoso. No inglês a expressão é usada para designar algo animalesco e monstruoso, disforme.

7) “Indiscriminate attacks”, “ataques indiscriminados”, “Heart wrenching images”, “imagens de cortar o coração” (to wrench significa aplicar uma torção súbita e violenta), “inhumane”, “massacres”, no Asahi Shimbun, do Japão.

8) “Brink of disaster”, “à beira da calamidade”, sobre a situação em Gaza, e “increasing international criticism”, “crescente crítica internacional”, com respeito à ação de Israel, no Mail & Guardian, da África do Sul.

9) “Deadly air raids”, “mortíferos ataques pelo ar”, no Sidney Morning Herald, da Austrália.

Mas o caso mais espantoso ficou por conta do britânico “The Guardian”, conhecido pela objetividade e pela circunspecção modelares de seus artigos e editoriais. A coleção de expressões qualificativas é impressionante. “Calamity”, calamidade, “intolerable”, intolerável, “schocking”, chocante, “unacceptable”, inaceitável, e as já visitadas “carnage” e “onslaught” estão entre as expressões encontradas.

A estas uma nova se acrescenta: o movimento de Israel é descrito antecipadamente como uma “pyrrhic victory”, vitória de Pirro, menção ao rei grego de Épiro que venceu duas batalhas contra os romanos em 280 e 279 A. C., mas a tal custo que o efeito mais lhe parecia o de uma derrota. Também nesta publicação encontramos referências à denúncia, depois vista em outras também, de que Israel estaria usando bombas de fragmentação e outras incendiárias à base de fósforo branco, que também foram usadas no Vietnã pelo exército norte-americano.

Ao longo desse passeio (se assim se pode chamar tal visita à semântica de uma guerra) por tais publicações, não encontrei uma única palavra de defesa das atitudes beligerantes do Hamás e de seus (patéticos – a expressão é minha) foguetes. Pelo contrário, encontrei também condenações sobre esses disparos, sempre qualificados como terroristas, contra o território israelense. O caso mais chocante estava relatado no Herald Tribune, em que o correspondente se referia a um militante do Hamás que esperava atendimento num hospital coalhado de horrores, e sorria. Perguntado pelo porquê do sorriso, ele respondeu que os mortos eram mártires, e que ele também queria ser um mártir.

Os mortos da ofensiva israelense no lado palestino estão chegando a 800. Bem mais de 200 desses mortos são crianças. Há uma certa lógica nisso, embora não seja verossímil acreditar que oficiais e soldados israelenses estão em busca de crianças para matá-las. Mas apesar das declarações do Major Avital Leibovich, porta-voz do exército de Israel, no NYT de 9/01, de que “estamos fazendo o melhor possível para evitar a morte de civis, e muitas vezes não retaliamos porque vimos civis por perto”, esse tipo de guerra que Israel está disposto a levar para Gaza implica demonstrar para os outros e para os seus (não esqueçamos de que há eleições em 10 de fevereiro) que nada deterá os seus soldados e o seu poder de fogo, nem mesmo as crianças. Que de resto, a gente poderia lembrar o Major Leibovich, são mais difíceis de se ver do que os adultos.



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