Pelo Mundo

A síndrome Brexit-Trump: é a economia, estúpido!

 

22/07/2019 12:42

 

 
Por décadas, os investimentos estavam caindo, padrões de vida diminuindo e a desigualdadecrescendo. O que as campanhas do Brexit e Trump tinham em comum era a exploração do descontentamento resultante desses problemas, culpando ações externas, incluindo a globalização. Esses problemas não eram os resultados inevitáveis da globalização, mas das escolhas de políticas internas, influenciadas por falhas teorias econômicas. Michael Jacobs e Mariana Mazzucato explicam como e por que precisamos repensar o capitalismo contemporâneo.

A eleição de Trump e o voto pelo Brexit, no Reino Unido, tem sido amplamente interpretada como uma revolta dos "esquecidos" economicamente: um protesto dos eleitores da classe trabalhadora sobre o impacto da globalização sob seus empregos e seus padrões de vida. Em nenhum dos casos essa é a explicação completa: tanto no Reino Unido quanto nos EUA, muitas pessoas de alta renda e de regiões ricas votaram pelo movimento insurgente. No entanto, não restam muitas dúvidas de que no Michigan, em Merthr Tydfil, na Carolina do Sul e em Sunderland, o descontentamento das pessoas de baixa renda foi o que levou ao resultado.

A escolha dos eleitores por Trump ou pelo Brexit como a solução para seus problemas pode parecer um choque para muitos; mas o que levou a isso não deveria ser. Nos EUA, a renda familiar média de hoje é basicamente a mesma quando comparada com um quarto de século atrás - embora o PIB tenha crescido quase 80% nesse período. No Reino Unido, o fenômeno é mais recente: embora houvesse uma divergência semelhante entre a renda média e o crescimento do PIB nesse longo período, foi a crise financeira que marcou a estagnação dos salários. A renda familiar média disponível em 2014-2015 mal voltou ao nível de 2007-2008. De fato, nenhuma região do Reino Unido, além de Londres e do Sudeste, retornou aos seus níveis pré-crise. Ao mesmo tempo, os rendimentos dos 1% mais ricos de ambos os países continuaram a crescer: nos primeiros três anos de recuperação dos EUA após 2008, um extraordinário ganho em renda de 91% foi para os cem mais ricos da população.

Isto deveria fazer com que os economistas e os políticos parassem para pensar. Não é surpresa que um sistema econômico com mal distribuição de renda perca sua legitimidade popular. É o paradoxo do que talvez podemos chamar de Síndrome de Brexit-Trump - um fenômeno que pode muito bem se repetir nas eleições europeias nos próximos anos – e que os políticos não conseguirão atender as necessidades de seus eleitores. O presidente Trump pode aumentar os gastos em infra-estrutura, que (se bem direcionados e financiados) seriam bons, mas ele também prometeu cortes de impostos para os ricos e uma guerra comercial com a China, o que seria desastroso. O Brexit só prejudicaria a economia britânica, possivelmente de forma severa, se o Reino Unido abandonar o mercado único europeu e o setor financeiro perder os seus direitos de livre comércio na UE.

Os paralelos entre os dois não são iguais e não devem ser exagerados. Mas uma característica que as campanhas compartilhavam era uma tendência a culpar forças externas por problemas econômicos internos. Para soluções reais, precisamos de um olhar mais profundo, para o enorme aumento da desigualdade e a falta de empregos qualificados nas últimas quatro décadas, as quais impulsionaram o Brexit e Trump, os resultados não se devem às forças desenfreadas da globalização. Eles são o resultado de uma economia e política ativa. Ao invés de culpar os outros, deveríamos questionar essas escolhas e a teoria econômica problemática que as influenciou.

A globalização e a mudança tecnológica não precisariam ter levado ao esvaziamento de empregos qualificados e à queda forçada nos ganhos médios na escala que ocorreu nos EUA ou no Reino Unido. É a capacidade dos governos de moldar e criar mercados, e de negociar seus termos e condições, que determina o tipo de economia que emerge dessas forças globais e tecnológicas. A tragédia da globalização nos últimos 30 anos é que ocorreu ao mesmo tempo que o domínio de uma economia ortodoxa que viu o Estado se retirar da gestão econômica ativa. Enquanto que o oposto era necessário: como o comércio internacional - que aumenta a renda nacional, mas traz desigualdade e deslocamento geográfico - se expandia, o necessário era um estado mais ativo redistribuindo seus ganhos para desenvolver a economia produtiva e garantir resultados mais justos.

Em vez disso, a teoria econômica ortodoxa tem guiado fracas políticas económicas. Considere os investimentos como exemplo, onde houve um grande fracasso tanto da política pública quanto da ação privada. Não só o setor financeiro cresceu em uma proporção cada vez mais desequilibrada da economia, mas a chamada economia "real" tornou-se cada vez mais financeirizada. Justificados pela ideologia da criação de valor, grandes corporações americanas distribuíram dividendos aos acionistas em valores recordes para aumentar os preços das ações (e com a remuneração dos executivos) em vez de reinvestir na capacidade produtiva futura. Como o economista Bill Lazonick mostrou, na década de 2003 a 2012, as 500 maiores empresas pagaram mais de US $ 2,4 trilhões aos acionistas na forma de recompras de ações. Hoje, mais de US $ 2 trilhões de dinheiro ‘ocioso’ estão nos títulos de empresas públicas nos EUA, em vez de serem reinvestidos além de € 2 trilhões na Europa.

Esta forma equivocada de investir é acompanhada por uma falha de investimento público. O estreito debate sobre a austeridade desde a crise financeira se concentrou no tamanho dos déficits anuais, e não na composição dos gastos públicos e na contribuição que pode gerar crescimento ao longo prazo. Esse problema é agravado pela visão econômica ortodoxa que limita o papel da política pública para corrigir “falhas de mercado”. Assume-se que as empresas estão prontas e dispostas a investir, sendo a política interna limitada a remover as barreiras que possam estar inibindo-as de fazê-lo. Mas, como Keynes observou, os "espíritos animais" que impulsionam o investimento empresarial devem ser criados, não podem ser assumidos. Investimentos estratégicos por órgãos públicos com missões e propósitos públicos podem moldar e criar novos mercados, gerando o desejo de investir por empresas que enxergam oportunidades de lucros futuros.

O que precisa acontecer é que os ganhos da globalização e do comércio - que predominantemente vão para aqueles com renda mais alta e de setores específicos, como finanças e alta tecnologia - precisam ser taxados adequadamente (com controle muito mais forte à sonegação e evasão fiscal) e ser reinvestido em capacidade produtiva e inovação. Os governos precisam adotar uma estratégia econômica muito mais pró-ativa de apoio ao crescimento impulsionado por investimentos, usando poderes fiscais, regulamentação do mercado de trabalho, investimento público e criação de mercado "orientado para a missão" de moldar o desenvolvimento econômico. Eles também devem pensar de maneira muito mais criativa sobre como compartilhar não apenas os riscos, mas também os ganhos dos investimentos que eles apoiaram. Em áreas como o preço dos medicamentos, as leis de patentes e o financiamento da inovação, o estado se mostra muito disposto a arcar com os custos, enquanto permite que o setor privado colha os benefícios.

Por que os governos não adotaram essas estratégias econômicas? Em grande parte, é porque durante quarenta anos eles foram manipulados por um conjunto de teorias econômicas ortodoxas que afirmavam que elas não funcionariam. O consenso econômico dominante foi de que os mercados financeiros são eficientes, as empresas inovarão e investirão melhor quando atuarem sem influência do estado, o aumento da desigualdade é o preço a ser pago pelo crescimento e o melhor para o governo seria ter seu tamanho diminuído.

O grande colapso financeiro e o profundo fracasso das políticas de austeridade que se seguiram já deveriam ter afastado esse consenso econômico ortodoxo. A síndrome de Brexit-Trump deveria finalmente enterrá-lo. Não é simplesmente que o público não acredite mais nas prescrições dessa economia ortodoxa, embora isso pareça ser cada vez mais o caso, é que a realidade econômica não as suportam. Na verdade, os mercados financeiros não regulamentados tendem a desalinhar recursos e criar bolhas de ativos que devem inevitavelmente estourar. Empresas e detentores de ativos financeiros que buscam maximizar o valor para o acionista tendem a investir pouco no crescimento de longo prazo. A inovação é melhor estimulada através de uma parceria de finanças públicas e privadas. Bancos de investimento público podem se aglomerar em capital privado quando a demanda é fraca. Economias mais desiguais tendem a ter pior desempenho de crescimento.

O necessário agora é uma economia baseada não nas simplicidades abstratas do mercado do nas ‘falhas do mercado’, mas na evidência de como trabalha realmente o capitalismo contemporâneo, e de porque agora não funciona. Felizmente há ricas junções de pensamentos acadêmicos que possibilitam entender esse mecanismo – como os pensamentos de Polanyi, Keynes e Schumpeter, e as escolas progressistas, comportamentais do pós-Keynesiana.

Os resultados eleitorais de Trump e a votação pelo Brexit fazem com que isso pareça o início de uma nova era política. Se os dirigentes reagirem de uma melhor maneira a esse novo humor popular, eles precisam repensar o capitalismo - guiado por uma teoria econômica melhor e por um relacionamento mais dinâmico entre a teoria e a política.

*Publicado originalmente em blog do The London School of Economics and Political Sciente | Tradução de Cristiane Manzato



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