Pelo Mundo

A trajetória de Yolanda Colóm; da Teoria da Libertação à luta armada

19/12/2006 00:00

Yolanda Colóm recebe os Latinautas

Créditos da foto: Yolanda Colóm recebe os Latinautas
Yolanda Colóm pode ser considerada uma sobrevivente. Aos 59 anos de idade, sua vida foi dedicada ao ideal revolucionário. Quando tinha 50 anos, assumiu o primeiro emprego assalariado de toda sua vida ao mesmo tempo em que começou a construir a primeira casa que poderia chamar de lar. Durante os anos que antecederam esses acontecimentos, Yolanda trabalhou em projetos sociais e lutou junto à Guerrilha Guatemalteca.

O sentimento revolucionário foi uma construção em sua vida. Desde criança aprendeu com seu pai a ser justa e humanitária. Seu pai era um homem de pouca formação política, mas que, ao mesmo tempo, possuía um forte instinto de igualdade. Sua educação estava diretamente ligada à Igreja Católica, freqüentava missa e estudou em um colégio de freiras norte-americanas.

Estudar em um colégio católico, segundo Yolanda, permitiu-lhe analisar a situação social de seu país por meio dos ensinamentos cristãos. As freiras, de uma maneira geral, cultivavam o sentimento de ajudar ao próximo, assim como a necessidade do trabalho voluntário. Entretanto, as explicações cristãs pareciam-lhe não responder as perguntas que cresciam em sua mente sobre a desigualdade e extremo nível de pobreza sofrido pela maioria dos guatemaltecos. Em busca de respostas que lhe ajudassem a compreender sua realidade, fez parte de projetos de voluntariado da Igreja, e trabalhou em aldeias indígenas.

Durante essas experiências, as respostas eram poucas e as perguntas multiplicavam-se. Yolanda percebeu que seu trabalho não poderia restringir-se a esse único ano de contato com o povo pobre. “Se me contentasse com o pouco que fiz estaria mentindo para mi mesma. A minha inquietude só aumentou ao conhecer aqueles povos”. Entretanto, continuou uma série de trabalhos voluntários após retornar de uma viagem de três meses pela Europa. Dessa vez, em um hospital público onde viveu durante mais um ano as dificuldades da população.

Ao ingressar na Universidade, passou a encontrar algumas respostas junto aos grupos de esquerda. Ao mesmo tempo, em 1968, seu namorado recebeu uma bolsa para estudar sociologia em Paris. Após alguns meses, Yolanda juntava-se a ele na França, fato que lhe possibilitaria conhecer diversas personalidades latinas no exílio.

Em meio a esse cenário, começou a ler livros marxistas com o intuito de encontrar respostas para “o que era isso de ser comunista”, rótulo que muitas pessoas na Guatemala ganhavam. Foi a primeira vez que teve acesso a livros que contavam a história não oficial da América Latina. Leu também diversos livros de Jorge Amado, assistiu aos filmes de Glauber Rocha, mas foram os escritos brasileiros sobre a Teoria da Libertação que mais chamaram a sua atenção. Na sede da UNESCO, quando encontrou manuscritos de Paulo Freyre, passou dias na instituição conhecendo as palavras do autor.

Ao retornar para a Guatemala, em 1970, começou a considerar a possibilidade de fazer parte de uma luta armada, entretanto, a vitória de Allende no Chile representou a possibilidade de fazer valer a vontade do povo por meio do voto e a dúvida sobre o melhor caminho a seguir permaneceu. Em 1971, foi ao México estudar e conheceu uma jovem brasileira de Recife chamada Cecita, assistente do arcebispo de Olinda Dom Hélder Câmara.

“Um dia, tocou o telefone no lugar onde nosso grupo estava e disseram que era uma ligação do Brasil para mim. Eu disse que não poderia ser, devia ser para Cecita, a qual não estava por lá. Quando atendi ao telefone era Dom Helder Câmara que me disse ‘Se você vier à América do Sul algum dia, gostaria que viesse até o Recife para conhecer os meus projetos sociais. Cecita vai deixar-te todos os mecanismos para que possa localizar-nos’. Não sei como ele ficou sabendo de mim, creio que Cecita deve ter lhe dito alguma coisa. Depois daquele dia nunca mais a vi, nem tive noticias”.

Nesse mesmo ano, Yolanda e seu companheiro foram ao Chile para conhecer as conquistas do governo de Allende. Após uma estada de aproximadamente 4 meses no país, o casal decidiu visitar a Argentina e o Brasil antes de regressar à Guatemala. No Brasil, visitam o Rio de Janeiro e de lá seguiram ao Recife.

A viagem ao Recife durou um mês. Durante esse tempo, Yolanda teve uma relação muito próxima a Dom Hélder Câmara, o arcebisto dedicou-lhe todo seu tempo livre e a jovem conheceu seus projetos sociais.

“Eu diria que a experiência em Recife foi a que representou o ponto-chave, minha virada definitiva ao marxismo. Foi quando abandonei totalmente o cristianismo. Naquele momento, ainda enfrentava muitas confusões mentais, que estavam presentes devido à formação católica que tive durante toda a vida na Guatemala”.

Ao regressa à Guatemala, Yolanda buscou informações mais concretas sobre as guerrilhas que esavam em formação na parte norte do país. Fez contato com diversas pessoas e foi convidada para integrar o Exército Guerrilheiro dos Pobres. “Durante os anos 73 e 74 eu e meu esposo trabalhávamos legalmente, levando uma vida dupla. Em 74, eu passei a viver uma vida totalmente clandestina. Deixei o meu filho pequeno de um ano e oito meses com seu pai e me incorporei totalmente à luta”. Nesse momento, seu casamento fracassou.

Após 5 meses de treinamento no México, integrou-se ao grupo armado, onde lecionou espanhol para os índios que estavam aderindo ao movimento revolucionário. Naquela ocasião, conheceu Mario Payeras com quem construiria uma relação que perduraria até a morte do escritor em 1990.

Yolanda e Mario dedicaram todas as suas vidas à causa revolucionária. Entre os anos de 1982 e 83, o movimento guerrilheiro guatemalteco foi derrotado pelo exército e os sobreviventes fugiram em sua maioria para o México.

Yolanda retornou à Guatemala somente em 1996, ano em que foram assinados os acordos de paz. Há dez anos, está tendo a experiência de viver em meio à sociedade, sendo uma pessoa visível. Dedica-se à formação política de jovens e ao magistério. Ao mesmo tempo, busca divulgar o trabalho de Mario Payeras, escritor “invisível”, que o povo guatemalteco pouco teve chance de conhecer pessoalmente.

O futuro, segundo Yolanda, não prevê grandes esperanças. Segundo ela, todos os que tentaram mudar o mundo por meios pacíficos foram assassinados: “Abraam Lincon; assassinado; Mathin Lutter King; assassinado; Mahattma Gandhi; assassinado, meu tio Manuel, o qual não queria mundanças na sociedade, apenas reformas, melhorias, foi assassinado como um cão raivoso”.



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