Pelo Mundo

A xenofobia republicana vai piorar muito a pandemia

Trump inflama ódio contra estrangeiros durante crise que exige cooperação internacional

14/03/2020 13:29

Rudy Giuliane fala aos repórteres na Casa Branca (Alex Wong/Getty Images))

Créditos da foto: Rudy Giuliane fala aos repórteres na Casa Branca (Alex Wong/Getty Images))

 
O fanatismo sempre serviu bem a Donald Trump. O racismo não teve um papel pequeno em sua ascensão à Casa Branca. Não é de surpreender que, em momentos estressantes, Trump se volte ao racismo e à xenofobia, as fontes de sua força política.

Em um discurso nacional na noite de quarta-feira, Trump descreveu o coronavírus como "um vírus estrangeiro". O presidente reiterou seu compromisso em resolver esse problema principalmente através do controle de fronteiras. Ele anunciou novas restrições às viagens originadas em muitos países europeus e sugeriu que a própria Europa estava atrasada em não restringir os visitantes da China.

"A União Europeia errou ao não tomar as mesmas precauções e restringir as viagens da China e de outros pontos perigosos", argumentou Trump. "Como resultado, um grande número de novos aglomerados de casos nos Estados Unidos foram semeados por viajantes da Europa". Para registrar, simplesmente não está claro se isso é verdade. O coronavírus, que atua em ambas as costas norteamericanas, provavelmente chegou aos Estados Unidos de vários locais da Europa e da Ásia.

Como observa minha colega Elie Mystal, a intenção clara era dar aos apoiadores de Trump um bode expiatório para eles culparem pela crise. Mystal observa que "Trump não quer que seus acólitos republicanos pensem que estamos combatendo um vírus. Ele quer que eles pensem que estamos lutando contra pessoas - pessoas estrangeiras - que têm um vírus".

A retórica de Trump, de colocar a "culpa na China", estava relativamente silenciosa em comparação com a disseminação do medo Perigo Amarelo, que agora é lugar comum no discurso da direita. Na quinta-feira, o senador do Arkansas Tom Cotton disse: "Vamos sair mais fortes desse desafio, responsabilizaremos aqueles que o infligiram ao mundo". Um comentário no Twitter explicou o significado dessas palavras como "a China pagará por isso". Cotton confirmou essa interpretação. No mês passado, Cotton sugeriu, sem evidências, que o coronavírus poderia ter sido criado em um "superlaboratório" chinês

Cotton estava ecoando uma virulenta teoria da conspiração que muitos direitistas estão espalhando negligentemente. No final de fevereiro, o American Enterprise Institute, o mais influente think tank de política externa da direita, tuitou: “O coronavírus era uma arma biológica? Não sabemos, mas a história mostra que não podemos confiar na China. "

Às vezes, o fanatismo antichinês é mesquinho e infantil. Outras mídias da direita passaram a se referir ao coronavírus como "Kung Flu". Rudy Giuliani, advogado do presidente, retuitou alguém que escreveu: “De repente, as pessoas são 'racistas' porque não comem em um restaurante chinês? Não vou comer em um restaurante chinês simplesmente porque o bom senso me diz para não fazê-lo.”

A exploração republicana da xenofobia serve a muitos fins políticos. Além de desviar a culpa de Trump pela atrapalhada condução da crise dos coronavírus, ela também reforça o tema político principal do Trumpismo, a agenda “America first” [América em primeiro lugar] que combina protecionismo, uma política externa unilateralista e hostilidade para com os imigrantes. O coronavírus, em outras palavras, é o monstro globalista que Trump foi eleito para violentamente aniquilar.

O problema dessa abordagem não é apenas que o racismo é moralmente repugnante, mas também que a crise do coronavírus exige cooperação internacional. O nacionalismo é a abordagem absolutamente errada a ser adotada para uma pandemia global, onde a solução requer uma rede mundial de recursos médicos.

A abordagem de controle de fronteira de Trump para impedir a propagação do coronavírus já falhou. Thomas Bossert, que atuou como consultor de segurança interna de Trump, tuitou: "Há pouco valor nas restrições de viagens da Europa. Má utilização de tempo e energia. Antes, sim. Agora, as restrições / triagem de viagem são menos úteis. Temos quase tantos casos aqui nos EUA quanto nos países da Europa.”

Lawrence Gostin, diretor do Instituto O’Neill de Direito Nacional e Global da Saúde na Faculdade de Direito da Universidade de Georgetown, fez um argumento semelhante em uma entrevista à Vox. "Existe uma linha tênue entre a posição anti-internacionalista e pró-EUA do presidente, em que ele acha que pode restringir suas fronteiras a coisas como comércio ou imigração", observou Gostin. "Isso não funciona com um germe, principalmente com um germe que já está aqui".

A restrição à imigração, na melhor das hipóteses, atrasou a chegada do coronavírus nos Estados Unidos. Mas agora que o vírus está aqui, o país precisa trabalhar na mitigação, o que significa contar com equipamentos médicos que só podem vir da Europa e da China.

Como observa o senador Chris Murphy de Connecticut, “Faltam reagentes para testes de coronavírus. 2. Grande parte do suprimento de reagentes vem da Europa. 3. Irritar a Europa por não lhes dar aviso prévio da proibição de viajar era totalmente desnecessário.”

Manter boas relações com a China é ainda mais importante. Polemistas antichineses muitas vezes se queixaram de que os Estados Unidos transferiu sua capacidade produtiva para a China.

Isso é verdade e talvez um problema a ser resolvido no futuro. Porém, no curto prazo, quando a mitigação do coronavírus é fundamental, os Estados Unidos precisam confiar na China para fornecer ventiladores, máscaras e outros equipamentos médicos que são urgentemente necessários.

A inépcia do governo chinês desempenhou um papel importante na criação dessa crise global. Mas a China está usando sua capacidade produtiva incomparável para conquistar pontos diplomáticos. Segundo o jornal italiano Corriere della Sera, o governo chinês concordou em vender 1.000 ventiladores e 2 milhões de máscaras para a Itália. A China também está enviando como doação milhares de respiradores, roupas de proteção e kits de teste.

É fácil achar que as ações chinesas são um exercício cínico no controle de danos. Mas quaisquer que sejam os motivos do governo chinês, esse tipo de cooperação internacional é fundamental para solucionar a crise do coronavírus.

Em comentários na quinta-feira, Joe Biden enfatizou corretamente a importância de trabalhar com outras nações. “Deveríamos liderar uma resposta global coordenada, como fizemos com a crise do Ebola, que se baseia na incrível capacidade da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional e nosso Departamento de Estado, de ajudar nações vulneráveis na detecção e tratamento do coronavírus onde quer que se espalhe ”, argumentou Biden. "Deveríamos investir na reconstrução e no fortalecimento da agenda global de segurança em saúde, lançada durante nosso governo, especificamente para mobilizar o mundo contra as ameaças de novas doenças infecciosas".

O historiador Mike Davis, vindo de uma posição política bem mais radical que a de Biden, também destacou a necessidade de uma resposta global. Escrevendo para [o jornal australiano] Links, Davis argumentou que "a globalização capitalista agora parece ser biologicamente insustentável na ausência de uma infraestrutura de saúde pública verdadeiramente internacional".

Davis resumiu perfeitamente a resposta xenofóbica de Trump à crise: "Muros, não vacinas: poderia haver um modelo mais maligno para o futuro?"

*Publicado originalmente em 'The Nation' | Tradução de César Locatelli



Conteúdo Relacionado