Pelo Mundo

Abaixo o rei! O referendo e o rechaço à monarquia ganham espaço na Espanha

 

22/10/2020 12:33

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Créditos da foto: ©ElKoko

 
A república é o futuro. Essa opção é amplamente majoritária entre as pessoas com menos de 40 anos, aquelas que não viveram a transição nem puderam votar a favor da Constituição. Dados que mostram uma notável polarização geracional e territorial – e entre esquerda e direita, com uma diferenciação crescente dentro do eleitorado de um partido importante como o PSOE (Partido Socialista Operário da Espanha) – como a principal conclusão a ser extraída dos resultados da pesquisa encomendada pela Plataforma de Meios Independentes. Levantamento que foi realizado depois de uma campanha de financiamento popular, devido ao vergonhoso silêncio do CIS (Centro de Investigações Sociológicas da Espanha), que há vários anos não mede a opinião do público sobre a monarquia, justamente desde a mudança na coroa, com a renúncia de Juan Carlos I e a assunção de Felipe VI. No entanto, parece inquestionável que esta fotografia do estado atual da opinião pública estabelece tendências que consideramos importantes de apontar.

Entre eles, como já vem sendo destacado pelos meios de comunicação que o promoveram (La Marea, CTXT, El Salto, Crític, Público, entre outros), o mais notável é a constatação de que 48% da população (incluindo 59,8% dos eleitores do PSOE) são a favor de um referendo (em comparação com 36,1% contra). Também mostra que se esse fosse realizado, 40,9% votariam a favor da república, enquanto 34,9% o fariam pela monarquia, com 12,9% indecisos. Percentual favorável que atinge níveis mais elevados em regiões como a Catalunha, País Basco e Navarra, e nas faixas etárias abaixo de 65 anos.

Junto com este fato inquestionável de que isso mostra a vontade da maioria em decidir sobre a forma do Estado, é inegável a crise de legitimidade sofrida pela monarquia entre a população em geral, especialmente os mais jovens, e, novamente, entre as comunidades distantes do poder central madrilenho. Fora da capital, sobretudo, a monarquia é percebida como “uma instituição de outros tempos”, é o que opina 47,9% da população, que entende que Juan Carlos I deve ser julgado por suas ações e que a inviolabilidade da instituição deve acabar. Também qualifica Felipe VI como um rei de direita, conhecedor e beneficiário dos negócios obscuros do pai.

Isso confirma o fracasso das tentativas de dissociar o atual rei da figura de seu pai, o que não impediu que a sombra da corrupção emergisse sobre um reinado sem uma história própria para além do juancarlismo. O discurso de 3 de outubro, após a brutal repressão ao referendo catalão de 1º de outubro de 2017, ao invés de reforçar a figura de Felipe VI, aumentou o descontentamento de uma parte da sociedade, não só da catalã, para com a instituição monárquica, ligando-a emocional e simbolicamente com os setores mais reacionários.

É verdade que há outras respostas que refletem que ainda há um percentual significativo da população que acredita no mito construído em torno do papel do atual rei emérito durante o golpe de Estado de 1981. Por exemplo, 40,1% dos entrevistados disseram que ainda consideram que a monarquia desempenha um papel garantidor da “ordem e estabilidade”. No entanto, também se percebe que o índice de satisfação com os resultados obtidos pelo atual monarca mostra uma baixa percentagem (27,7%), os quais consideram que a princesa Leonor deve ser tornar rainha. Também há uma divisão de opiniões sobre se “as tensões com os nacionalismos (catalão, basco ...)”, já que muitos consideram que esses conflitos piorariam sem a monarquia. Em suma, parece inegável que o sentimento antimonárquico está ressurgindo, e podem se acelerar nos próximos tempos. Porque, como já escreveu o famoso escritor Benito Pérez Galdós, e apesar do que os juancarlistas tentam fazer acreditar, “as monarquias não têm segundas fases, como acreditam os historiadores superficiais… Na guerra ou na paz, elas são o mesmo de sempre: um poder arbitrário que une o trono e o altar, para oprimir esse povo infeliz e mantê-lo na pobreza e na ignorância”.

Também é verdade que surgem disparidades em torno do tipo de república preferida, com 48,5% inclinando-se para um tipo presidencialista, contra 29,3% que optariam por outra com base na eleição indireta de um primeiro-ministro, por parte do parlamento, e com poucos poderes. Isso mostra que uma concepção elitista de democracia ainda pesa sobre a maioria dos cidadãos, e que um longo trabalho será necessário para ajudar a criar uma cultura política republicana em seu sentido mais profundo, ou seja, participativa, deliberativa e livre de todos os tipos de despotismos, de forma que culmine em processos constituintes.

Assim, no quadro da crise múltipla que vivemos, estes resultados traduzem uma clara tendência à erosão de uma instituição fundamental do regime de 1978, com mais de 70% da população considerando necessária uma reforma constitucional. Uma demanda que segue colidindo com o temor do estabelecimento de que se abra uma caixa de pandora em torno de quais aspectos do texto constitucional devem ser reformados, com a consequente polarização entre um bloco monárquico reacionário e o potencial bloco republicano se unindo aos setores federalista e plurinacionalista, coalizão que temos que construir no novo cenário em que estamos entrando.

Porque embora possa haver diferentes nuances sobre o grau ou o estado avançado da crise de regime em que nos encontramos, ninguém pode ignorar as profundas mudanças que estão ocorrendo no sistema político espanhol. As mudanças para as quais, como tudo aponta, irão se agravar nos próximos anos, em decorrência da crise multidimensional e sistêmica que vivemos. O mesmo é anunciado por porta-vozes do regime que olham com horror para o futuro, como um tempo de decadência, que tem sua maior expressão na ruína da imagem internacional da Espanha, com seu maior representante prófugo da Justiça, refugiado em um resort de luxo nos Emirados Árabes. Entretanto, seria prematuro anunciar seu declínio final. No quadro deste novo período, que podemos definir como uma emergência global crónica, queremos enfrentar esta crise do regime, e em particular aquela que, nos últimos tempos, se manifesta na instituição mais importante: a monarquia, cujo grau de impunidade, corrupção e parasitismo permitidos pela própria Constituição têm provocado a legítima indignação da grande maioria dos cidadãos. Todo um mito construído desde a transição da ditadura franquista à democracia, que em colapso, refletido na decadência das elites políticas, econômicas e midiática que o sustentaram durante décadas, algo que até o jornalista conservador Iñaki Gabilondo reconheceu, numa clara demonstração de sinceridade: “tudo isto abriu um capítulo de vergonha que degradou publicamente a minha geração. Nós, que acompanhamos o processo de transição, fracassamos. Fomos despidos, e eu me sinto envergonhado”.

Embora os porta-vozes do regime contemplem com horror a ameaça de um tempo de decadência, a ruína da Espanha monarquista, também seria prematuro anunciar seu fracasso definitivo. Não podemos subestimar a capacidade de recomposição das elites, uma vez que o bloco social pluralista, que poderia empreender e apresentar um novo modelo ao país, ainda é fraco. Podemos nos encontrar diante de uma equivalência de fragilidades, com um empate catastrófico, mas social e territorialmente assimétrico para aqueles que querem derrubar esse status quo, com o qual a instituição monárquica poderia continuar a ser mantida, não tanto por seus sucessos mas por nossa falta de capacidade de terminar com ela.

Portanto, ainda há muito o que fazer para chegar ao momento republicano em que apostamos, mas pesquisas como a publicada recentemente, e fracassos tão impressionantes como o da campanha “Viva o Rei”, recentemente promovida por movimentos liberais e conservadores, nos dão mais motivos para confiar que continuaremos avançando, até que possamos levantar um amplo movimento que faça o slogan “Abaixo o Rei” ser uma proposta para o futuro.

*Publicado originalmente em 'El Viejo Topo' | Tradução de Victor Farinelli



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