Pelo Mundo

Aclamação de uma liderança

21/01/2006 00:00


EVO: “SEM SEGURANÇA SOCIAL NÃO HAVERÁ SEGURANÇA JURÍDICA”
Acompanhado pelos recém-eleitos presidentes da Câmara e do Senado, bem como da vice-presidente do Senado e do segundo secretário da Câmara, Evo Morales fez uma entrada triunfal para encerrar o Encontro das Lideranças Indígenas, realizado nesta sexta-feira (20), no prédio da Vice-presidência da república. Com isso, Evo quis mostrar como está mudando a cara do governo boliviano. A senadora estava com seus trajes indígenas, um dos deputados mantinha seu capacete de mineiro, uns eram quéchuas, outros aymaras. Evo vestia uma de suas já famosas chompas, malha de lã com listas coloridas.

O Encontro reuniu lideranças indígenas de todo o continente e, depois dos debates, durante o dia, tirou uma declaração em que, entre outros pontos, nomeia Evo presidente de todos os povos indígenas do continente, propõe seu nome para o Prêmio Nobel da Paz, convoca um grande Congresso Continental dos Povos Indígenas a realizar-se na Bolívia no dia 12 de outubro, dia da resistência indígena à colonização, além de propor a formação de um Conselho Indígena da América Latina e do Caribe. Houve intervenções de crítica ao que foi chamado de “terroristas de lápis e papel”, de que Vargas Llosa é o melhor representante, por seus artigos racistas e discriminatórios. Sobraram críticas também para o norte-americano James Petras, que declarou numa recente entrevista que “não basta ser índio para governar bem”.

Evo disse que este é o melhor momento, pela situação do mundo e do continente, em particular, para realizar as transformações que a Bolívia precisa. Essas transformações têm como objetivo a conquista da segurança social – para a grande maioria, que não a tem -, sem a qual não pode haver segurança jurídica.

Evo agradeceu o convite para estar presente em uma reunião da ONU sobre povos indígenas, mas brincou: “Se me derem visto”...

Exibiu um documento de protesto ao governo chileno pelo impedimento a um líder mapuche para que viesse às cerimônias de posse, embora isso não impeça que oito ônibus estejam chegando com delegações indígenas chilenas.

Finalmente, Evo disse que sua vitória é uma conseqüência da campanha por ocasião dos 500 anos da chegada dos colonizadores, que permitiu que os povos indígenas coordenassem-se e adquirissem mais consciência da sua história e dos seus valores.


COMPROMISSO MÍTICO
Evo Morales prestará três juramentos – o primeiro com cerimônias indígenas, no sábado, o outro será o oficial, no Palácio de Governo, e o terceiro na praça de São Francisco, com uma grande festa popular.

Espera-se que 200 mil pessoas participem das atividades, 100 vindas de outras províncias, que já saíram de suas cidades de origem.

Neste sábado, haverá uma cerimônia andina em Tiahuanacu, uma cidade de ruínas indígenas a 71 quilômetros de La Paz. Ali, Evo Morales contrairá um compromisso mítico com a Pachamama (a mãe terra) e com o Tata Inti (pai sol), em um ritual organizado pelos povos indígenas dessa região, os aymaras. Quatro autoridades religiosas que representarão as quatro regiões do Império dirigirão esse ritual inédito na posse de um presidente boliviano.

Em seguida, Evo Morales irá descalço até uma pirâmide sagrada, onde receberá o bastão do mando terreno dos povos originários dos Andes bolivianos.


EVO “TRAIDOR”
Mas há os do contra:

“Evo Morales e a Bolívia: gestos populistas e fundo neoliberal”;

“(...) considero Morales um político social liberal moderado que nos últimos cinco anos evoluiu para o centro. Não nacionalizará as multinacionais do petróleo ou do gás, mas provavelmente renegociará um aumento moderado de seus impostos e “nacionalizará” os minerais do subsolo, deixando que as companhias os extraiam livremente, os transportem e comercializem. Promoverá três variantes do capitalismo: proteção das pequenas e médias empresas; convite aos investimentos estrangeiros e financiamento das companhias estatais de petróleo e minas como sócios menores das multinacionais. Para compensar e estabilizar seu governo, nomeará uma série de líderes populares para postos de governo relacionados com o trabalho e o bem estar social, com orçamentos exíguos que estarão submetidos aos ministérios econômicos e financeiros dirigidos por economistas liberais. Morales promoverá e financiará atividades culturais indígenas assim como o uso da língua nativa nas escolas andinas e na administração publica. A reforma agrária não implicará em nenhuma expropriação de explorações agrárias, mas se reduzirá a projetos de colonização em zonas despovoadas e sem cultivo. O cultivo da coca será legalizado, mas restrito a meio acre por família. Será proibido o tráfico de drogas. Morales se proporá a trabalhar com a DEA estadunidense contra o tráfico e a lavagem de dinheiro”;

“Todos os dados sobre as políticas de Evo Morales, em particular desde 2002, indicam uma virada para a direita, das lutas populares para a política eleitoral; um deslizamento para as atuações no marco do Congresso e com as elites institucionais. Evo Morales mudou do apoio às insurreições populares a dar o apoio a um ou outro presidente neoliberal. Seu estilo é populista, sua maneira de vestir, informal. (sic) É fotogênico, tem boa aparência e tem carisma. Mistura-se com gosto com os vendedores nas ruas e visita as casas dos pobres. Mas a que política servem esses gestos e símbolos populistas? Sua retórica antineoliberal não tem nenhum sentido quando convida a investidores estrangeiros a espoliar o ferro, o gás, o petróleo, o magnésio e outras matérias primas”;

“O poder político vai ser repartido entre os novos pequenos burgueses em ascensão, que ocupam postos dirigentes no MAS e a velha oligarquia econômica” ;

“Infelizmente, a esquerda continua reagindo a símbolos, a histórias míticas, à retórica política e aos gestos, em lugar de fazê-lo diante do fundo programático, das experiências históricas e das políticas sócio-econômicas específicas. Parafraseando Marx: A retórica populista é o ópio dos intelectuais”.

Em suma, a natureza humana, da qual a esquerda – ou pseudo-esquerda – faz parte – está condenada ao fracasso, à traição e ao inferno. Isso na opinião de James Petras, com sua visão ultra-esquerdista modelar, em artigo publicado na Bolívia na revista “El juguete rabioso” (www.eljugueterabioso.com). Para quem necessite de argumentos para rebater tal visão, Hervé do Alto e Pablo Stefanoni publicaram resposta, com o título “Os limites da sociologia ‘doutrinária’”, na revista “Pulso” (www.pulsobolivia.com).



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