Pelo Mundo

Adeus à integração? (necessidades e urgências diante da crise mundial)

 

17/09/2020 12:58

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
A crise global e seu impacto na América Latina colocam mais uma vez a necessidade de integração regional em primeiro lugar. Apesar disso, de acordo com algumas análises, parece que a integração regional é uma questão de um passado breve (e glorioso), e não tem lugar num presente estagnado e num futuro incerto. Contrariamente a essas posições nostálgicas e céticas, a busca de soluções progressistas para a crise nos leva diretamente a propor uma agenda baseada na integração regional.

A desesperança como armadilha

Certamente, depois que prevaleceu a reação conservadora, acompanhada pelas renovadas (e fracassadas) propostas de livre comércio, com o desmonte da Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e do Mercosul (Mercado Comum do Sul), o enfraquecimento da CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos) e outras estratégias, o ceticismo se impôs, com respeito às possibilidades de integração regional. Os principais argumentos para essa desesperança são:

1) A correlação desfavorável de forças políticas, que inclinou a balança para uma integração subordinada aos interesses dos Estados Unido e da União Europeia;

2) O fato de que a experiência dos “governos progressistas” incluía sua incapacidade de realizar ações de integração vigorosas e duradouras;

3) A crise econômica, agravada pela pandemia da covid-19, que dá um princípio de realidade ao discurso: a integração avançou com o boom das exportações e agora, com a geladeira vazia, não podemos mais sonhar e prometer nada. O debate passou a ser sobre “quem pode” ter uma agenda mínima de sobrevivência.

Uma certa etapa foi imposta em termos de viabilidade política da integração. Nesse sentido, os esforços devem se concentrar em recuperar a região da reação conservadora, que luta para fazê-la regressar aos valores do Século XIX: condições coloniais ou associadas aos Estados Unidos e à União Europeia, reprimarização da economia através de acordos comerciais favoráveis %u20B%u20Baos centros capitalistas, entre outras características.

Acredita-se que somente depois que os governos se recuperarem da gestão desastrosa da direita, e se consolidarem as experiências recentes da Argentina e do México, será possível avançar na integração.

Pensando em desenvolvimento e integração agora

Não devemos esperar a correlação de forças mudar para construir uma agenda que retoma, contextualiza e redimensiona as grandes discussões sobre o modelo de desenvolvimento e integração. Uma revisão crítica da integração que permita identificar quais foram os avanços e quais foram suas deficiências pode fornecer pistas úteis na construção de propostas. Não se pode voltar ao passado, mas também não se deve começar do zero – aquele passado está cheio de lições, e esta é uma delas

Uma agenda progressista ou alternativa à corrente política dominante, e ao desencorajamento e dispersão das forças autonomistas, não pode evitar uma crítica propositiva ao “modelo de desenvolvimento”.

É preciso explorar opções alternativas ao paradigma neoliberal dominante, que pressupõe uma relação de crescimento automático com base em uma orientação subordinada à abertura comercial, liberalização, investimento estrangeiro e financiamento externo.

Novamente, a saída para exportação é oferecida como a única forma possível. Mas a economia mundial mostra uma realidade em que nacionalismos e regionalismos protecionistas predominam nos países centrais. Além disso, o paradigma da especialização nas exportações primárias tem mostrado que produz um crescimento anti desenvolvimento, omitindo as fortes assimetrias globais e regionais, entronizando a deterioração das condições de vida humana, enquanto a depredação dos recursos naturais se acelera.

A ênfase deverá estar no fortalecimento do mercado interno, na mudança estrutural de uma matriz produtiva atrelada à especialização primário-exportador; em empregos produtivos e bem remunerados; na produção de alimentos; nas possibilidades de industrialização, e não só a partir do mercado interno e regional, mas de industrialização das exportações.

A pandemia e a crise econômica global estão gerando mudanças na organização produtiva, na divisão internacional do trabalho, na organização do trabalho e no uso do território e do espaço urbano. É uma mudança no estilo de vida, na qual devemos procurar oportunidades e possibilidades.

Nessa perspectiva, a integração não é apenas uma necessidade, mas uma urgência, e algumas ações imediatas devem estar presentes em sua agenda em termos de: produção agroalimentar; sistemas de saúde e produção de bens para a saúde; educação; coordenação na luta contra pandemias e políticas de recuperação; exploração de opções para deficiências em sistemas de transporte regionais, que requerem coordenação de investimentos e cooperação sul-sul; promoção da pesquisa científica; tratamento harmonizado dos movimentos migratórios, respeitando direitos e valorizando a qualidade da mão de obra, evitando a xenofobia no subdesenvolvimento…

São temas de uma agenda onde, com a superação da diversidade política, se resgata a lógica vencedora praticada na Unasul e na CELAC.

Uma agenda conjunta nas negociações extrarregionais pode se tornar uma âncora para essa nova integração. Negociação de blocos com os diversos polos tradicionais e emergentes do quadro mundial. Defesa dos interesses nos espaços multilaterais, do comércio e da administração dos recursos naturais, além do direito ao tratamento preferencial.

As condições econômicas globais e regionais podem favorecer a integração. Em nossas economias, agravaram-se as tendências pré-existentes à crise atual, como a deterioração do balanço de pagamentos e das contas fiscais. Uma crise de dívida está se formando. A voracidade do capital financeiro e a condicionalidade das instituições financeiras internacionais, juntamente com as pressões pela distribuição de mercados e territórios (fruto do atual confronto hegemônico), nos afetarão a todos. A unidade estratégia é uma necessidade.

Da mesma forma, evitar os desequilíbrios causados %u20B%u20Bpor processos de desvalorização competitiva beneficiaria muitas pessoas e muitos países. A escassez de moeda estrangeira e a dependência do dólar estadunidense podem motivar o uso de moedas locais e sistemas de pagamento alternativos.

Há capacidade de desenhar propostas acadêmicas, a partir dos movimentos políticos e sociais, e principalmente dos produtores. Não devemos esperar que interesses externos nos tragam fórmulas fraudulentas. Existem fatores objetivos que catalisam a integração, mas também possibilitam gerar um jogo suicida de soma zero. Devemos continuar a arar a terra.

José Félix Rivas Alvarado é economista venezuelano, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em 'Tiempo de Crisis' | Tradução de Victor Farinelli




Conteúdo Relacionado