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Ajuda de US$ 4 bilhões para Israel associa EUA a violações em Gaza

 

16/06/2021 13:15

Colunas de fumaça sobem do complexo de Hanadi, na Cidade de Gaza, após ataques aéreos israelenses, em 11 de maio de 2021 (Mohammed Abed/AFP)

Créditos da foto: Colunas de fumaça sobem do complexo de Hanadi, na Cidade de Gaza, após ataques aéreos israelenses, em 11 de maio de 2021 (Mohammed Abed/AFP)

 
Dentro do cenário político interno americano, o assunto Israel é delicado, em especial dentro do Partido Democrata. De um lado, há, tradicionalmente, a ala que defende um apoio irrestrito a qualquer política israelense de repressão aos palestinos. De outro, está a ala progressista, encabeçada pela congressista de origem palestina Rashida Tlaib (D-MI) e Ilhan Omar (D-MN), que tem sido apoiada por um grupo cada vez maior na Câmara de Representantes, que vai além do Squad, como Betty McCollum (D-MN), Mark Pocan (D-WI), Andre Carson (D-IN), Chuy Garcia (D-IL) e Joaquin Castro (D-TX). Um esforço para impedir um novo carregamento de armas americanas para Israel foi promovido por Tlaib, Cortez e Pocan quando os bombardeios a Gaza já haviam se iniciado.

No Senado, a crítica mais enfática à ajuda militar americana a Israel veio do independente Bernie Sanders, que preside a Comissão de Orçamento da casa. Até o presidente do Comitê de Relações Internacionais do Senado, Robert Menendez (D-NJ), um antigo aliado de Israel, fez críticas aos bombardeios a civis e aos escritórios de veículos de imprensa em Gaza. Do lado republicano, a pressão foi maciçamente em favor de um apoio “inequívoco” a Israel, como era de se esperar. Esse tom dominou uma carta ao presidente assinada por 44 dos 50 senadores do partido de oposição, que também tratou de outros assuntos caros ao atual governo de Israel, como o eventual restabelecimento do acordo nuclear com o Irã.

Mudança de posição

Mas a pressão por um fim imediato dos ataques foi mais efetiva, mesmo que tenha sido depois de uma semana de bombardeios israelenses a Gaza que resultou em mais de 200 mortos, sendo pelo menos um quarto deles eram crianças, e 58 mil desabrigados. O ataque israelense ao prédio de 12 andares que abrigava agências de notícias internacionais em Gaza também pode ter ajudado Biden a mudar seu discurso. A Associated Press divulgou nota dizendo que a ação foi “chocante e aterrorizante”. Biden, então, finalmente manifestou a Netanyahu que esperava “uma significativa desescalada” do conflito, a fim de se abrir o caminho para um cessar-fogo. As palavras, que parecem bastante anódinas, não deixam de ser vistas como uma pequena vitória, um dia após ele ter sido visto em uma tensa conversa de oito minutos com a deputada Rashida Tlaib em uma pista de pouso em Detroit. De qualquer forma, o comunicado da Casa Branca à imprensa que menciona o contato com Netanyahu não deixou de citar “o Hamas e demais elementos terroristas” – um sinal claro de que o apoio às ações de Israel continua sólido.

A falta de esforços americanos na ONU para cessar o conflito também é notável. Tradicionalmente, o país usa o poder de veto que tem no Conselho de Segurança para favorecer as posições israelenses. Os EUA exerceram esse direito 82 vezes, sendo que 44 desses vetos serviram para que Israel fosse beneficiado em questões relacionadas a crimes de guerra e violações de direitos humanos, tanto nos territórios palestinos como no Líbano. Biden parece que manterá essa tradição, que mostra que, nessa questão específica, ele está bem mais próximo a Donald Trump do que muitos gostariam, comprometendo qualquer esforço futuro de seu governo para patrocinar uma reaproximação entre dois lados em conflito.

Isabelle Christine Somma de Castro é pesquisadora do INCT-INEU e do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais (Nupri-USP) e do Grupo de Pesquisa Tríplice Fronteira (GTF/Unila). Concluiu pós-doutorado em Ciência Política (USP) e Universidade de Columbia e doutorado em História Social (USP). Contato: isasomma@hotmail.com.

*Publicado originalmente em 'OPEU'




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