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Alguns aliados do exército dos EUA acreditam que Trump tentou um golpe e teve ajuda de oficiais federais de segurança

 

12/01/2021 14:51

Donald Trump na Casa Branca em 26 de novembro. (Erin Schaff - Pool/Getty Images)

Créditos da foto: Donald Trump na Casa Branca em 26 de novembro. (Erin Schaff - Pool/Getty Images)

 
Os apoiadores do presidente Donald Trump que invadiram o Capitólio na semana passada para impedir a ratificação da vitória eleitoral do presidente eleito Joe Biden estavam tentando realizar um golpe violento que diversos oficiais de segurança europeus disseram parecer ter, ao menos, apoio tácito de aspectos das agências federais dos EUA responsáveis pela segurança do complexo do Capitólio.

O Insider falou com três oficiais: um policial francês responsável pela segurança pública de uma região importante do centro de Paris, e dois oficiais de inteligência de países da OTAN que trabalham diretamente com operações de contraterrorismo e contrainteligência envolvendo os EUA, terrorismo e a Rússia.

Eles disseram que as evidências circunstanciais disponíveis apontaram para o que seria abertamente chamado de tentativa de golpe em qualquer outra nação. Nenhum quis gravar depoimento por causa da gravidade do assunto.

Embora não tenham fornecido evidências de que oficiais de agências federais facilitaram o caos, o Insider está reportando essa informação porque ilustra a escala e a seriedade dos eventos da semana passada: aliados internacionais do exército e da segurança dos EUA estão agora dispostos a conceder séria credibilidade à ideia de que Trump deliberadamente tentou reverter violentamente uma eleição e que alguns agentes federais de segurança – por omissão – facilitaram o atentado.

'Hoje estou comunicando ao meu governo que nós acreditamos com um nível razoável de certeza que Donald Trump tentou dar um golpe'.

Uma fonte da OTAN esclareceu a situação, usando termos mais utilizados ao descrever perturbações em países em desenvolvimento.

“O presidente derrotado realiza um discurso a um grupo de apoiadores no qual ele diz que foi roubado na eleição, denuncia os membros da sua própria administração e partido como traidores, e diz aos seus apoiadores para entrarem no prédio onde a votação está acontecendo”, disse o oficial de inteligência da OTAN.

“Os apoiadores, muitos com vestimentas militares e segurando bandeiras de estilo revolucionário, então invadem o prédio onde agências de segurança controladas pelo atual presidente não estabeleceram um cordão de segurança, e os manifestantes rapidamente sobrecarregam o policiamento.”

“O presidente então faz uma declaração publica aos apoiadores atacando o Capitólio dizendo que os ama, mas não pede para eles pararem”, disse o oficial. “Hoje estou comunicando ao meu governo que nós acreditamos com um nível razoável de certeza que Donald Trump tentou dar um golpe que falhou quando o sistema não cedeu.”

“Não acredito que isso aconteceu.”

Um oficial de segurança que treina com forças de segurança estadunidenses acredita que alguém interferiu com a distribuição adequada de oficiais ao redor do Congresso.

O policial francês disse que acredita que uma investigação descobriria que alguém interferiu no envio de oficiais federais de segurança extras para o perímetro do complexo do Capitólio; o oficial possui conhecimento direto sobre os procedimentos adequados para a segurança da instalação.

A segurança do Congresso é garantida pela Polícia do Capitólio dos EUA, uma agência federal que responde ao Congresso.

É rotineiro para a Polícia do Capitólio coordenar com o Serviço Secreto Federal e com a Polícia do Parque e com a polícia local de Washington, Capital, antes de grandes manifestações. A Guarda Nacional, comandada pelo Departamento de Defesa, está frequentemente de prontidão também.

Na quarta passada, no entanto, essa coordenação estava ausente ou atrasada.

'É óbvio que grandes partes de qualquer plano exitoso foram apenas ignoradas.’

"Você não pode me dizer que não sei o que eles deveriam ter feito. Posso voar para Washington amanhã e fazer esse serviço, assim como qualquer policial de Washington pode voar para Paris e fazer o meu”, disse o oficial. Ele comanda a segurança pública em um distrito policial do centro de Paris lotado de prédios governamentais e pontos turísticos.

“Esses não são comandos sutis” para lidar com manifestações, “e eles se transferem para todas as situações”, disse o oficial. “É por isso que treinamos junto com forças federais de segurança dos EUA para lidar com esses problemas, e é óbvio que grandes partes de qualquer plano exitoso foram simplesmente ignoradas.”

A Guarda Nacional, que foi enviada para reprimir violentamente os protestos do Black Lives Matter em 2020, não apareceu para auxiliar a polícia até duas horas depois do início da ação, de acordo com a AP.

Vídeo mostra a polícia não fazendo nada enquanto manifestantes acessam o prédio

Um vídeo pareceu mostrar alguns policiais abrindo a barreira para permitir que um grupo de manifestantes se aproximasse do domo do Capitólio. Outro vídeo mostrou um policial permitindo que um protestante tirasse uma selfie com ele dentro do Capitólio enquanto protestantes se amontoavam ao redor do prédio de maneira desenfreada.

Kim Dine, que foi o chefe da Polícia do Capitólio de 2012 a 2016, disse ao Washington Post que ficou surpreso que a Polícia do Capitólio permitiu manifestantes nos degraus do Capitólio. Ele disse que também ficou intrigado com o baixo número de detenções no local.

Larry Schaefer, que trabalhou para a Polícia do Capitólio por mais de 30 anos, disse ao ProPublica a mesma coisa: “Temos uma manifestação planejada que possui propensão a violência no passado e ameaças de porte de armas – porque você não se prepararia como já fez antes?”

A Polícia do Capitólio não respondeu imediatamente ao pedido de comentário do Insider.

Falhas sistemáticas

O policial francês detalhou diversos lapsos que acredita terem sido sistemáticos:

1.Grandes multidões de manifestantes precisavam ter sido controladas bem antes pela polícia, que, ao invés, controlou uma situação na primeira demonstração que Trump abordou, então ignorou a multidão enquanto andava em direção ao Capitólio.

2."Deveriam ter sido cercados, controlados e direcionados imediatamente, e essa pressão nunca deveria ter sido flexibilizada.”

3.A multidão não foi contida e direcionada, e por isso, disse o oficial, os manifestantes foram capazes de se reunir ao redor do Capitólio, onde a próxima grande falha aconteceu.

4.”É inacreditável não haver um forte cordão policial nos arredores do complexo. Grades e barricadas são inúteis sem uma forte força policial. É aí que você começa a prender pessoas, mirando nas que parecem mais violentas, qualquer um que atacar um policial, qualquer um que furar a barricada. Você tem que mostrar que cruzar a linha é um erro e que a pessoa acabará presa.”

5.”Eu não consigo acreditar que a falha em estabelecer um cordão adequado foi um erro. Esses são policiais muito habilidosos, mas são federais, o que significa que reportam em última instância ao presidente. Isso precisa ser investigado.”

6.”Quando a multidão chegou nos degraus do prédio, a situação já estava acabada. A polícia está lá para proteger o prédio de ataques terroristas e do crime, não de um batalhão de infantaria. Isso precisava ter sido controlado há centenas de metros de distância a menos que a polícia estivesse disposta a abrir fogo completamente, e consigo respeitar o motivo pelo qual não estava.”

'Graças a Deus não funcionou, porque não consigo imaginar o quanto seria difícil sancionar o sistema financeiro dos EUA’

O terceiro oficial, que trabalha na contrainteligência de um membro da OTAN, concordou que a situação somente poderia ser vista como uma tentativa de golpe, independentemente de quão pobre e fracassada, e disse que suas implicações podem ser grandes demais para compreender imediatamente.

“Graças a Deus não funcionou, porque não consigo imaginar o quanto seria difícil sancionar o sistema financeiro dos EUA”, disse o oficial. Por sanções, ele quer dizer a imposição de bloqueios diplomáticos, militares e comerciais que nações democráticas normalmente reservam para ditaduras.

“O dano mais amplo ao redor do mundo será extensivo em relação a reputação, e é por isso que Putin não se importa com a derrota de Trump. Ele tem que estar feliz e contar suas vitórias, que da era Trump será o declínio rápido do prestígio estadunidense e da superioridade moral.”

“Cada momento que os estadunidenses passam em seu caos auto-infligido estão ajudando a China, Putin e, em uma menor extensão, os mini-ditadores como Erdogan e Orban, que respiram cinismo sobre política, direitos humanos e democracia como se fosse seu oxigênio”, disse o oficial. “Não vão sentir falta de Trump; ficarão contentes em ver seu drama ir embora para que possam aproveitar seu clima político envenenado.”

*Publicado originalmente em 'Business Insider' | Tradução de Isabela Palhares



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