Pelo Mundo

América Latina não tem motivos para celebrar com Trump

Com uma retórica que qualifica imigrantes mexicanos como 'criminosos' e 'estupradores', Trump apresentou um plano deportar cerca de 11 milhões de pessoas.

09/11/2016 16:15

Gage Skidmore

Créditos da foto: Gage Skidmore

Maior confrontação e a agudização de políticas imperiais voltadas ao continente. Este é o cenário que virá, após a chegada do magnata novaiorquino Donald Trump ao Salão Oval.
 
Desde que começou a campanha eleitoral estadunidense, especialistas em política internacional já não vaticinavam “nada de positivo” para América Latina qualquer que fosse o candidato vencedor do pleito, mas claro, muito pior com uma vitória do republicano Donald Trump. O cientista político alemão Andreas Boeckh, professor da Universidade de Tübingen, já advertia que “nenhum dos candidatos representa uma via que a América Latina possa celebrar”.
 
“Trump é um homem de negócios e não se sabe ainda quem serão seus assessores em política exterior. Por isso, vemos um complexo panorama para esta região”, afirma o doutor em ciências econômicas, Esteban Morales, em entrevista com a Agência Andes.
 
Reviravolta no processo de normalização das relações com Cuba
 
Durante seus discursos, Donald Trump elogiou a política de hostilidade das administrações estadunidenses contra os governos progressistas da América Latina. No último ato de sua campanha, realizado na Flórida, Trump deixou claro suas intenções com respeito a Cuba. Prometeu apoiar o povo cubano “contra a opressão do regime de Castro”, palavras que evidenciam sua aversão contra o governo da ilha caribenha. Também disse que buscará se afastar do processo de normalização das relações com Cuba, iniciado por Barack Obama em dezembro de 2014.
 
Contudo, Trump figura na lista dos que violaram o bloqueio contra Cuba. Durante a campanha, a revista Newsweek revelou que diretores de uma companhia controlada por Trump viajaram a Cuba em 1998 e gastaram ao menos 68 mil dólares, num momento em que gastar dinheiro no país caribenho estava proibido para os estadunidenses, salvo com aprovação prévia do governo.
 
Para Madeleine Russak, diretora de comunicações de Engage Cuba – uma organização de empresas e organizações que pressionam a favor do fim do bloqueio – as revelações demonstram que “Trump, um homem de negócios, reconhece há tempos que os benefícios econômicos de interatuar com Cuba são importantes”.
 
Donald Trump se comprometeu a apoiar a oposição ao governo do presidente venezuelano Nicolás Maduro, que traça estratégias para propiciar um golpe de Estado na nação sul-americana.
 
O presidente eleito dos Estados Unidos defendeu que os estadunidenses deveriam se manifestar “em solidariedade com o povo da Venezuela, que ama a liberdade”. Numa convenção em Miami, no dia 16 de setembro, Trump fez críticas ao sistema econômico e ao governo venezuelano.
 
Tomando como referência o caso da Venezuela, o analista político Fernando Casado, investigador do Instituto de Altos Estudos Nacionais do Equador (IAEN), afirma que Trump talvez tente impulsar medidas intervencionistas para acabar com qualquer governo que tenha matizes mais progressistas e que seja considerado pelos Estados Unidos, por parte do Pentágono, como uma ameaça aos seus interesses.
 
Casado insiste na possibilidade de um maior financiamento ou apoio aos partidos políticos que promulguem medidas inclusive inconstitucionais, como golpes parlamentários na Venezuela, semelhante ao que ocorreu no Brasil.
 
Relação com o México
 
“Construirei um grande muro e vou a hacer que México pague por ele”, foi uma das declarações mais polêmicas de Trump, ideia na qual ele insistiu durante toda a sua campanha, inclusive depois de se encontrar com o presidente mexicano Enrique Peña Nieto. A medida, se concretizada, colocará em risco a vida de milhares de imigrantes latino-americanos.
 
O México e os mexicanos foram um dos alvos prediletos dos ataques e insultos lançados por Trump nestes últimos quinze meses.
 
Com uma retórica que inclui qualificar os imigrantes mexicanos como “criminosos” e “estupradores”, o novo inquilino da Casa Branca apresentou um plano de imigração no qual pretende deportar cerca de 11 milhões de indocumentados.
 
“Os mexicanos se aproveitam dos Estados Unidos ao utilizar a imigração ilegal para exportar o crime e a pobreza do seu próprio país ao nosso”, expressou.
 
Para ele, a construção do muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México representa a grande solução para o tema da imigração. Porém, isso teria consequências severas para os milhares de imigrantes tentam chegar aos Estados Unidos todos os dias.
 
Desde 1994, os Estados Unidos já vem instalando bloqueios que hoje alcançam cerca de 1,1 quilômetro da fronteira, fazendo com que os imigrantes busquem cruzá-la por vias mais remotas e arriscadas. Mas uma maior obstaculização da fronteira agravaria mais a crise dos refúgios, atualmente já saturados, gerando um estancamento dessas milhares de pessoas nas cidades fronteiriças do México.
 
Um muro “seria uma contradição com a ideia de se criar uma fronteira mais segura”, afirma a investigadora Paulina Ochoa, do Colégio Haverford, da Pensilvânia, pois o que se requer neste caso é mais coordenação e mais comunicação, e não mais isolamento.
 
Além de afetar as atividades humanas, o meio ambiente também está em jogo. Em 2011, a cidade mexicana de Nogales sofreu com as fortes chuvas que provocaram uma inundação na zona urbana, tragédia que foi agravada devido a que a parte do leito que cruza a fronteira ficou parcialmente bloqueada pelo muro fronteiriço, o que gerou uma grande acumulação de água.
 
A proposta de Trump também influirá na economia mexicana. Para Andreas Boeckh, as palavras do multimilionário sobre a segunda economia da região foram golpes muitos baixos. “Temo que sua atitude para com o resto da América Latina, no caso de que tenha alguma, será muito similar”, disse o analista, em entrevista para o canal alemão Deutsche Welle.
 
Tradução: Victor Farinelli



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