Pelo Mundo

Ao promover novo poder nuclear, Biden-Harris priorizam ficção à ciência

 

20/11/2020 16:26

Conjuntos de combustível nuclear sendo inspecionados antes de entrar em um reator de água pressurizada nos Estados Unidos (Domínio Público)

Créditos da foto: Conjuntos de combustível nuclear sendo inspecionados antes de entrar em um reator de água pressurizada nos Estados Unidos (Domínio Público)

 
Embora seja um comentário triste sobre seus antecessores, Joe Biden, o próximo presidente dos EUA, está oferecendo a política climática mais progressista do que qualquer um em sua posição já ofereceu até agora.

Como aponta Paul Gipe em seu blog’, o plano climático Biden-Harris usa a palavra “revolução” logo na manchete – uma saída da usual retórica cautelosa do Partido Democrata controlado por centristas.

Mas “revolução” é seguida por duas palavras que nos fazem saber que estamos andando em território conservador “seguro”. Eles chamam de “revolução de energia limpa”, a qual Gipe se refere certamente como uma “terminologia de grupo focal comprada”. Ele continua:

“Energia limpa é um termo cunhado pelos publicitários da Madison Avenue nos grupos focais. ‘Vai bem nas pesquisas’, como eles dizem. Significa uma coisa para um grupo de interesse, e outra totalmente diferente para outro grupo. Então é perfeita para a política nos EUA.”

“Para os ambientalistas, significa energia solar e eólica, frequentemente só essas duas formas de energia renovável, e, às vezes, somente a solar. Também significa boas notícias para a indústria nuclear e de carvão. (Já ouviu falar em ‘carvão limpo’?).”

“Então a energia limpa é uma daquelas palavras enganosas que líderes de partidos e, principalmente, eventos de arrecadação de fundos podem usar para extrair dinheiro de doadores de todos os tipos. Porque dizer energia renovável, quando você pode arrecadar dinheiro das indústrias nuclear e de carvão?”

O plano de energia Biden-Harris aperta todas as teclas certas em seus parágrafos iniciais, focando na meta de emissões zero até 2050 e enfatizando a infraestrutura, colaboração internacional e a proteção de comunidades de cor pobres, que são as que mais sofrem com os poluentes desenfreados.

Pelo que sabemos das suas declarações públicas, Biden levará os EUA de volta ao Acordo de Paris e vê a crise climática como “o problema número um encarando a humanidade”. O Acordo de Paris não é suficiente, mas a ausência dos EUA o enfraquece ainda mais.

Ainda no caminho certo, o plano climático Biden-Harris reconhece os direitos e o bem-estar dos trabalhadores e a criação de empregos. Vai aderir “à ciência e não à ficção” e reconhece que a eficiência energética tem um importante papel.

E então começa a ir muito mal.

Na seção intitulada “Agenda Legislativa de Um Ano de Biden sobre Mudança Climática”, o documento proclama “temos que nos livrar do modo antigo de pensar”, e então reverte precisamente para ele, se agarrando ao poder nuclear como um componente necessário do seu plano.

Então, a agenda Biden-Harris lista reatores modulares pequenos como parte das “tecnologias revolucionárias”. De certo modo, isso está certo. Converter dinheiro em reatores modulares pequenos será uma grande mudança. Vai nos colocar firmemente na estrada para o fracasso climático.

A boa notícia é que o poder nuclear não tem um papel tão importante no plano Biden-Harris. Mas a má notícia é que, quando o assunto é poder nuclear, o time de Biden, de fato, escolheu ficção ao invés da ciência.

Um tópico chamado “Identificar o futuro da energia nuclear” reverte à fracassada abordagem de Obama “todas acima” para “considerar tecnologias de baixo e zero carbono”, ao invés de reconhecer que o poder nuclear, uma tecnologia fracassada do século 20, não tem futuro.

Como aponta Amory Lovins, essa abordagem de “baixo carbono” é um erro feito pelos políticos e aproveitado pela indústria nuclear – para considerar somente redução de carbono, e não o custo e o tempo também.

“Opções custosas economizam menos carbono por dólar do que opções mais baratas”, escreve Lovins. “Opções lentas economizam menos carbono por ano do que as opções mais rápidas. Com isso, mesmo uma opção de baixo ou zero carbono que seja muito custosa ou muito lenta irá reduzir e retardar uma proteção climática alcançável. Ser uma opção sem carbono não estabelece efetividade climática.”

Quando você olha para a queda nos custos da energia renovável versus os custos nucleares elevados; quando você examina como você pode reduzir mais emissões de carbono de modo mais rápido e mais barato com renováveis do que com nucleares; e quando você observa os exemplos da vida real dos países cujas reduções de carbono são maiores depois de investir em renováveis ao invés de se agarrarem ao poder nuclear; então a única razão para incluir o poder nuclear em um plano climático é política.

A plataforma Biden-Harris provavelmente continuará a ouvir a velha guarda. Afinal, é quem eles conhecem. Mas se querem mesmo essa revolução, deveriam abrir os olhos para a realidade no solo.

Um artigo recente da Jacobin Magazine, apontou para um exemplo na Holanda onde foi tomada a decisão de não expandir uma usina de energia nuclear e, ao invés, construir dois parques eólicos em alto mar. Embora o desastre de Fukushima tenha influenciado minimamente a decisão, no final do dia, como apontou o artigo, tudo foi sobre “a lei do valor”, em outras palavras, dinheiro. “Com o custo reduzido da energia renovável, o poder nuclear simplesmente não faz sentido econômico”, segundo o artigo.

Em um importante novo estudo da Universidade de Sussex no Reino Unido – Diferenças na redução das emissões de carbono entre países buscando renováveis versus energia nuclear – os pesquisadores concluíram que a escolha pela energia nuclear ultrapassa a renovável e vice versa. Isso significa que continuar a usar velhas usinas nucleares não rentáveis – ou investir em novas – na realidade impede o desenvolvimento da energia renovável, e, com isso, do progresso da mudança climática, e dos resultados das reduções de carbono e a um custo muito mais alto.

O estudo nota que, “por dólar investido, a modularidade dos projetos renováveis oferece reduções nas emissões mais rápidas do que os projetos nucleares de grande escala propensos a atraso”, a mesma observação feita por Lovins. E, como também diz o estudo, quanto mais usamos renováveis, mais sua performance é aprimorada, exatamente o oposto da energia nuclear que vê “custos crescentes ou performance reduzida com a próxima geração de tecnologia”.

Esse último é um ponto importante para o time de energia Biden-Harris tomar nota. Ao incluir o chamado novo-nuclear, estão fadados a gastar tempo e dinheiro que poderiam ser melhor gastos focando em renováveis. Reatores modulares pequenos não virão, como afirma seu plano, “pela metade do preço de construção dos reatores de hoje”. Serão bem mais caros em relação à eletricidade que eventualmente produziriam. E, é claro, chegariam tarde demais, e em uma quantidade pequena e gerariam muito pouca eletricidade – e muito cara – para fazer qualquer diferença na mudança climática.

Biden-Harris devem analisar dados empíricos, não ouvir consultores e comparsas do establishment que os manterão ancorados ao status quo, com isso, adiando a própria revolução energética que eles afirmaram que iriam conduzir. Se Biden-Harris continuarem a favor da ação pelo clima E pela energia nuclear, então eles são parte do problema e não da solução.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Isabela Palhares



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