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Apesar dos pesares, Cuba resiste: 14 reflexões sobre os acontecimentos na ilha

 

20/07/2021 11:59

(Reprodução/Twitter)

Créditos da foto: (Reprodução/Twitter)

 
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“A maioria dos cubanos apoia Castro… a única maneira previsível de reduzir seu apoio interno é através da frustração e da insatisfação resultantes do mal-estar econômico e das dificuldades materiais… todos os meios possíveis devem ser usados rapidamente para enfraquecer a vida econômica de Cuba… Uma linha de ação que, sendo o mais habilidosa e discreta possível, consiga os maiores avanços na privação a Cuba de dinheiro e suprimentos, a fim de reduzir seus recursos financeiros e salários reais, causar fome, desespero e derrubar o governo”.

Em 6 de abril de 1960, Lester D. Mallory, subsecretário de Estado Adjunto para Assuntos Interamericanos.

1) Nos encontramos perante um novo cenário político: há quem pense que estamos assistindo à implementação de uma espécie de Operação Condor II. A semelhança dos métodos usados pelos Estados Unidos em países como Haiti, Nicarágua, Venezuela, Bolívia e Cuba não é mero acaso. Entre outras coisas, o que emerge no Século XXI é uma reconfiguração das estratégias e armas utilizadas no campo da política. Nesse cenário, como no Século XX, entidades como a OEA (Organização dos Estados Americanos) desempenham um papel fundamental para esses fins.

2) Há poucos 9 dias, a hashtag #SOSCuba explodiu nas redes sociais, pedindo “ajuda humanitária” ao país.

No domingo, 11 de julho, ocorreram protestos em dez localidades da ilha, com a participação total de algumas centenas de pessoas, incluindo o município de San Antonio de los Baños na província de Artemisa, onde o presidente Miguel Díaz-Canel esteve presente para ouvir as reivindicações dos manifestantes, mostrando não só força e legitimidade, mas também receptividade ao que houvesse de legítimo nos protestos.

Finalmente, na segunda-feira (12), ocorreram motins com atos de violência no bairro La Güinera, no município suburbano “Arroyo Naranjo”, em Havana.

Desde então, e até agora, as únicas manifestações que foram adicionadas foram em apoio à Revolução. Em outras palavras, os protestos antigovernamentais acabaram sendo tão focados e coordenados quanto escassos, tendo sido consumidos em apenas 48 horas.

No entanto, parece razoável supor que quem não tem tempo para se aprofundar em todo este assunto pode acabar concluindo que Cuba está imersa em uma revolta social incessante e que a queda de seu governo é iminente. O que, na verdade, não poderia ser mais falso.

3) Deve ser esclarecido que uma narrativa como a descrita acima não é assumida como a mais provável de forma arbitrária ou maliciosa. Pelo contrário, se é a opção “natural” ou predominante, isso se deve ao efeito gerado pelas agências que se dedicam a fabricar cenários contrarrevolucionários através das múltiplas mídias e plataformas digitais, que possuem um exército de bots e trolls, capazes de ampliar os eventos que realmente ocorreram a ponto de semear confusão na opinião pública mundial. Como analisou Julián Macías Tovar ao investigar mais de dois milhões de tweets que usavam a hashtag #SOSCuba, que passaram a pedir “ajuda humanitária” com a participação de alguns artistas, mas principalmente com o impulso de bots e milhares de contas criadas recentemente e que foram usadas para magnificar o aumento das mortes por covid-19, o que acabou levando às mencionadas mobilizações nas ruas cubanas.

Além disso, vimos imagens de mobilizações de 2011 no Egito, Catalunha ou as celebrações no Obelisco de Buenos Aires pela obtenção da Copa América, falsificadas como eventos de protestos antigovernamentais em Cuba.

Essa matriz de operações foi implantada durante as chamadas Revoluções Coloridas, na Primavera Árabe e nas guerras híbridas contra o governo da Venezuela; bem como na Nicarágua, Bolívia e outros países que decidem não se submeter a Washington.

4) As causas dos protestos se devem a múltiplos fatores, mas a variável determinante é o bloqueio econômico decretado em 1962 pelo presidente democrata John F. Kennedy no âmbito da “Lei do Comércio com o Inimigo”, de 6 de outubro de 1917.

Este quadro jurídico inclui outras leis e regulamentos administrativos, como a Lei de Assistência Exterior (1961), a Lei de Administração das Exportações (1979), a Lei Torricelli (1992) e a Lei Helms-Burton (1996).

Donald Trump aprofundou o boicote econômico, financeiro e comercial com 243 novas medidas que intensificaram o bloqueio à maior ilha das Antilhas – medidas que o governo Joe Biden mantém em vigor até hoje.

5) Mencionaremos apenas algumas dessas novas medidas, a título de ilustração:

Adicionar Cuba à Lista de Estados que Patrocinam o Terrorismo e à lista de Adversários Estrangeiros do Departamento de Comércio (janeiro de 2021).

Limitar a quantidade de remessas a mil dólares por trimestre, suspender as remessas não familiares e proibir as remessas de terceiros países através da Western Union.

Tornar impossível o envio de remessas por meio de empresas Fincimex.

Dispor que AIS elimine os principais canais formais, visto que esse mecanismo de envio de divisas a Cuba por familiares ou terceiros no exterior (usado por cerca de um milhão de pessoas) constitui, junto com o turismo e a exportação de serviços médicos e profissionais, uma das três maiores fontes de receita em moeda estrangeira para o país – recursos que, além do mais, são indispensáveis para importar medicamentos e alimentos necessários que Cuba não produz.

Permitir ações judiciais nos tribunais norte-americanos ao amparo do Artigo III da Lei Helms-Burton, que tem impacto inegável nas perspectivas de atração de investimentos estrangeiros, pois constitui um desincentivo que se soma aos obstáculos existentes devido ao marco regulatório do bloqueio. Até o momento, existem 28 processos judiciais desse tipo iniciados nos tribunais dos Estados Unidos.

Restabelecer para Cuba a medida que impede a importação de produtos de qualquer país que contenham mais de 10% de componentes norte-americanos.

Proibir a importação de equipamento médico para ventilação pulmonar no contexto da pandemia de covid-19. Aplicar sanções às empresas de navegação que garantiam a chegada de suprimentos médicos ao país (a Medicuba, entidade exportadora e importadora do Ministério da Saúde Pública, anunciou que foi notificada pelos fabricantes IMT Medical AG e Acutronic, que passaram a ser propriedade da Empresa americana Vyaire Medical Inc, com sede em Illinois).

6) Além do bloqueio econômico, deve-se considerar que agora há maiores restrições ao turismo, em decorrência da pandemia, o que derrubou o PIB cubano em 10%.

De abril de 2019 a dezembro de 2020, o bloqueio produziu prejuízos de mais de 9 bilhões de dólares, segundo valores atuais. O PIB de Cuba em 2018 foi de US$ 100 bilhões.

7) Por sua vez, o governo de Miguel Díaz-Canel lançou um projeto de reunificação monetária. Isso gerou distorções na economia que, somadas à falta de divisas e às mencionadas restrições ao comércio, levaram à escassez de produtos básicos.

Além de tudo isto, devemos considerar a pressão sobre o sistema hospitalar, devido à entrada da variante delta e aos cortes programados no fornecimento de energia elétrica. Este último se deve ao fato de os embarques de petroleiros da Venezuela – essenciais para a produção de energia – têm sido reduzidos devido à pressão exercida por Washington sobre seguradoras e armadores.

8) Outro fator a se levar em conta é a transição dentro da Revolução, onde a autoridade máxima do governo e do Partido Comunista Cubano não é mais exercida por um membro da “Geração Histórica”, mas sim por um quadro (Miguel Díaz-Canel) das novas gerações, após o triunfo da Revolução.

A transição para a geração de reposição representa, para alguns setores do Departamento de Estado, uma oportunidade atraente de provocar uma crise de legitimidade que compromete a continuidade do processo aberto em 1959.

9) Devemos recordar também a existência de uma nova safra de jovens com novas demandas e limitações objetivas para poder satisfazê-las.

Todos esses fatores se uniram nos protestos recentes.

10) Após um ano e meio de pandemia, o país mantém 2,2% (250 mil casos) de infectados pela covid-19, ou seja, 97,8% da população nacional não teve contato com o vírus. Por sua vez, 26,9% da população cubana está vacinada com pelo menos uma dose. Cuba tem uma das menores taxas de mortalidade de covid-19 em todo o mundo, contando atualmente com 0,64%.

11) Também é importante destacar que Cuba apresentou, mesmo estando em meio a estas circunstâncias proibitivas, cinco candidatas a vacina contra o vírus SARS-CoV-2, sendo as vacinas Soberana 02 e Abdala as mais eficazes, devido ao seu alto nível de imunização. Também são únicas de produção latino-americana até agora.

Cuba planeja vacinar toda a sua população antes do final do ano, com vacinas produzidas no próprio país.

Além disso, mesmo neste contexto extremamente difícil, Cuba enviou 57 brigadas especializadas do Contingente Internacional Henry Reeve a 40 países ou territórios, que se juntaram aos mais de 28 mil profissionais de saúde que já atendiam a 59 nações naquela época.

12) A título de conclusão: a Revolução Cubana passou por sabotagens e ameaças das mais complexas, em seus mais de 60 anos de vida, e já enfrentou coisa muito pior do que os episódios ocorridos em nesse início de julho.

Um dos objetivos daqueles que impulsionaram e ampliaram os protestos é mostrar fragilidades no processo revolucionário, e minar a legitimidade do presidente Díaz-Canel.

13) Seguindo uma tradição histórica que já dura quase trinta anos, a ONU (Organização das Nações Unidas) voltou a se posicionar este ano a favor do fim do bloqueio dos Estados Unidos a Cuba. A resolução teve 184 votos a favor, e apenas dois países votaram contra: Israel e os Estados Unidos.

A efemeridade dos protestos e a sua diluição não se limitam ao comportamento das forças de segurança, trata-se de um argumento simplista, nenhum regime político se sustenta com base na coerção.

Este argumento parte de um alto nível de subestimação do povo cubano.

Sem consenso ou legitimidade, não existem mecanismos coercitivos que possam sustentar um governo.

Cuba tem um povo educado e culto, formado em valores humanísticos, patrióticos e solidários. Quem subestima o povo cubano, uma geração de dirigentes e centenas de milhares de militantes formados por Fidel fará um diagnóstico equivocado

14) Agora, talvez esta conjuntura possa ser uma boa oportunidade não só para desarmar as operações contra a Revolução, mas também para enfrentar os problemas não resolvidos que a sociedade cubana vem reivindicando e que, em sua maioria, não são para voltar a ser o “bordel dos Estados Unidos”, mas sim para defender uma melhora na sua vida cotidiana.

Talvez seja uma oportunidade imbatível para Díaz-Canel e a nova guarda: construir a legitimidade popular necessária para continuar a obra daqueles que desceram da Serra Maestra para mudar definitivamente o curso da História.

*Publicado originalmente em 'Tiempo Argentino' | Tradução de Victor Farinelli

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