Pelo Mundo

Após triunfo de Evo, Estados Unidos promove desestabilização e golpe na Bolívia

 

23/10/2019 11:47

 

 
A invasão incendiária à sede do Tribunal Eleitoral Regional de Potosí, as ações violentas contra fiscais eleitorais nas regiões de Tarija, Chuquisaca, Oruro e La Paz e o vandalismo contra uma estátua do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez na cidade amazônica de Riberalta, confirmam as especulações sobre a existência de um plano golpista dos Estados Unidos contra a Bolívia.
 
A Central Operária Boliviana (COB) e a Coordenadora Nacional pela Mudança (Conalcam) resolveram declarar estado de emergência e convocaram a uma mobilização pacífica nacional em defesa da democracia, para enfrentar as ações violentas, racistas e antidemocráticas com as que os grupos de extrema-direita tentam convulsionar o país.
 
Tal como havia sido denunciado, o plano previa a declaração de uma suposta fraude e a desestabilização do país, caso o presidente Evo Morales vencesse novamente as eleições, como aconteceu neste domingo (20/10). A estratégia também consiste em tentar impor um governo paralelo.
 
Primeiro tentaram incendiar o país com uma greve geral indefinida, antes do dia das eleições, além de outras operações encobertas, campanha de descrédito e desinformação, entre outras formas de sabotagem, para gerar violência e deslegitimar o processo eleitoral no país.
 
No domingo, durante a apuração, os meios hegemônicos de comunicação e desinformação tentaram criar o imaginário coletivo de uma eventual fraude, que impediria um segundo turno eleitoral, na qual a oposição supunha que venceria de forma tranquila.
 
Estas eleições foram as mais complexas e difíceis para o líder indígena e seu processo de mudanças, devido a uma combinação de situações internas e externas, como a correlação de forças na América Latina, particularmente na região sul-americana.
 
Externamente, existe uma contra ofensiva de Washington para derrubar os governos progressistas e de esquerda da região, quando os povos se levantam contra as medidas neoliberais dos governos de direita da Argentina, Peru, Equador e Chile.
 
Funcionários do Departamento de Estado norte-americano credenciados na Bolívia como Mariane Scott e Rolf Olson, mantiveram reuniões com altos funcionários diplomáticos de países como Brasil, Argentina, Paraguai, Colômbia, Equador e Chile, além de nações europeias como Espanha e Reino Unido, para que estas colaborassem com a organização das ações golpistas contra o governo boliviano, e escreveram o script para que esses países fizessem as denúncias de fraude nas eleições, para que fosse mais aceitável para a opinião pública internacional do que se estas viessem diretamente do governo dos Estados Unidos ou da Organização dos Estados Americanos (OEA).
 
Horas antes do início da jornada eleitoral, o presidente Morales disse ter provas de que alguns grupos de dirigentes cívicos e ex-militares preparavam um golpe de Estado: “é o mesmo paramilitarismo daqueles tempos das ditaduras”, afirmou, no encerramento de sua campanha, na cidade de Potosí, em meio a enfrentamentos entre seus seguidores e cidadãos que participavam da manifestação em repúdio ao processo de industrialização do lítio.
 
Os Estados Unidos, através de diferentes meios e figuras, ativaram seu quarto plano diferente para desestabilizar o governo, e assim bloquear o projeto político do Movimento ao Socialismo (MAS) de Evo, e interromper o processo de mudanças, o que deixaria em evidência a profunda debilidade da oposição local, que busca obter fora do país a força que não consegue demonstrar internamente.
 
Uma das metas do plano desenhado pelos Estados Unidos é a de fragmentar as instituições armadas do Estado, principalmente a Polícia Nacional e as Forças Armadas.
 
Outra fase do plano tem a ver com as estratégias após a posse de Evo, caso consigam resultados favoráveis na etapa atual de desestabilização social. Se proclamaria um governo paralelo cívico-militar, impulsado por uma fração das Forças Armadas, comandada pelo líder opositor Waldo Albarracin, que deverá convocar a novas eleições em 90 dias, sem contemplar a participação do MAS.
 
Para essa etapa, o governo Washington vem preparando secretamente o político e candidato presidencial Oscar Ortiz, que foi um dos grandes fiascos deste domingo, ao obter pouco mais de 4% dos votos. Por isso mesmo, ele se absteve de apoiar as denúncias de fraude, junto com o principal candidato opositor, Carlos Mesa.
 
Para interferir na campanha, o governo de Trump chegou a investir cerca de 100 mil dólares na empresa consultora CLS Estrategies, sediada em Washington, que conta com a maior base de dados de bolivianos dentro e fora do país. Dificilmente a CLS poderá impor no imaginário coletivo a figura de um candidato que não caiu bem na cidadania.
 
Os informes de inteligência mostram também que um escritório em La Paz ligado à CIA tomou o controle das redes de whatsapp no país, conectando com grupos de análises política, difundindo informações falsas e condicionando os debates de acordo aos seus interesses políticos.
 
No dia 15 de outubro, Evo Morales denunciou que um veículo da Embaixada dos Estados Unidos oferecia aos moradores da região pobre de Los Yungas a construção de obras nessa zona em troca de não votarem no MAS nestas eleições, e apresentou essa queixa diretamente ao encarregado de negócios dos Estados Unidos, Bruce Williamson, que se declarou surpreso e se comprometeu a não intervir em temas eleitorais.
 
No Facebook, o ataque foi através da viralização de um vídeo em que o suposto diácono Jorge Sonnante afirma que o presidente Evo Morales guarda 420 milhões de euros em uma conta do Banco do Vaticano. “Que demostrem então que tenho dinheiro no Vaticano, mostrem as provas”, insistiu o presidente, que assegurou que esta informação é parte da guerra suja.
 
Todas essas ações de desestabilização impulsados pela oligarquia boliviana, com o fim de acabar com o processo de mudanças promovido pelo líder indígena Evo Morales, contam com o apoio imperial e são observadas desde 2005. As principais tentativas de derrubar Morales aconteceram no período entre 2006 e 2009; embora também há casos registrados em dezembro de 2015, em fevereiro de 2016 e em janeiro de 2018.
 
O plano subversivo
 
Hoje os principais operadores do plano subversivo são os políticos bolivianos Gonzalo Sánchez de Lozada, Manfred Reyes Villa, Mario Cossio e Carlos Sánchez Berzain, casualmente, todos eles residentes nos Estados Unidos. Quem articula as ações na Bolívia são os líderes da Coordenadora Nacional Militar, composta por militares reformados como o general Rumberto Siles e os coronéis Julio Maldonado, Oscar Pacello e Carlos Calderón.
 
O plano está coordenado com altos dirigentes da oposição boliviana, principalmente Waldo Albarracin que preside a Confederação Nacional Democrática (Conade), Jaime Antonio Alarcón Díaz presidente do Comitê Cívico de La Paz, Jorge “Tuto” Quiroga ex-presidente de Bolívia, Juan Carlos Rivero, Rolando Villena, ex-defensor do povo e Samuel Doria Medina do partido Unidade Nacional.
 
Apesar de que grande parte do financiamento já se encontrava em território boliviano, com o apoio de embaixadas credenciadas na Bolívia e junto a igrejas evangélicas, que servem de fachadas do governo estadunidense para que esse não apareça diretamente envolvido nessas manobras de intromissão política, o plano não chegou a se concretizar totalmente antes das eleições.
 
De acordo com o informe de inteligência (ver o site estadunidense https://bbackdoors.wordpress.com/), a estratégia nas redes sociais e a campanha de fake news é liderada por Raúl Reyes Rivero, coordenador das ações da Plataforma Democrática e dos Comitês Cívicos, que trabalha nos trabalhos para a derrubada do presidente. Entre seus principais contatos estão os de Jhanisse Vaca Daza, Omar Duran e Frank Sousek Medrano, empregados do Fundo Interamericano de Desenvolvimento.
 
O ex-presidente Jorge Quiroga foi encarregado de buscar apoio dos organismos regionais e internacionais como a Organização dos Estados Americanos, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a União Europeia, com o fim de deslegitimar a vitória eleitoral de Evo Morales, declará-la inconstitucional e tentar uma intervenção internacional na Bolívia.
 
A segunda fase do plano original consistia em estabelecer um estado de crise social, com manifestações, inclusive violentas, greves, bloqueio de estradas e uma série de medidas que deveriam ser realizadas entre junho e a data das eleições.
 
Juan Flores, presidente do Comitê Cívico de Cochabamba, junto com coronel reformado Oscar Pacello, são os operadores políticos de figuras opositoras também destacáveis, como Carlos Sánchez Berzain e Manfred Reyes Villa na Bolívia. Todos eles são encarregados de buscar um ponto de convergência entre os Comitês Cívicos e militares e as polícias da reserva, para promover a violência e a convulsão social na Bolívia, que serviriam para desestabilizar o país e apoiar as denúncias de uma fraude eleitoral
 
As avaliações do governo dos Estados Unidos sintonizavam com a da maioria dos institutos de pesquisas, apontando que o presidente Evo Morales terminaria vencendo as eleições no primeiro turno, e por isso a embaixada dos Estados Unidos revolveu reforçar as condições objetivas e subjetivas para a declaração de uma fraude eleitoral:
 
A etapa pós-eleitoral
 
O passo seguinte do Departamento de Estado foi a contratação do cidadão estadunidense-israelense Eli Birnbaum, quem em 1998 foi assessor do primeiro-ministro israelense Benjamín Netanyahu, e depois seu chefe de Gabinete, e que também se associou com Arthur Finkelstein, desenhador de campanhas para políticos republicanos.
 
Ele foi o homem escolhidos para comandar as ações de desestabilização na Bolívia e de respaldo à figura de Oscar Ortiz. A ideia era convulsionar o país política e socialmente após as eleições. Em 2017, ele comandou a campanha de Marta Lucía Ramírez à vice-presidência da Colômbia, baseada em fake news para influenciar os eleitores.
 
Birnbaum é especialista em manipulação de pesquisas, desenho de campanhas para atacar a imagem de políticos rivais, manipulação de redes sociais e meios para promover choques sociais, estruturação de coalizões políticas, além do trabalho de erosão social, cultural e política em campanhas eleitorais
 
Sua tarefa é a de trabalhar com as redes da União Juvenil de Santa Cruz de la Sierra, com a função de desacreditar o presidente, e também com Jhanisse Vaca Daza, executiva da ONG Standing Rivers (financiada pela entidade estadunidense Fundação para a Liberdade e Camaradagem para com os Direitos Humanos), que usa sua plataforma para disseminar permanentemente informações adulteradas e falsa, com o fim de gerar reação contra as políticas estatais.
 
Sem dúvida que há alguns temas que não foram devidamente satisfeitos por parte do governo, e nesse contexto, nos próximos cinco anos, o grande desafio é o da industrialização: não se pode seguir vendendo matéria-prima, e é preciso que haja uma transformação na estrutura, para que o país possa dar valor agregado, como já foi feito no caso do gás.
 
A Bolívia é um dos países que possui as maiores reservas de lítio no mundo, e essa riqueza deve ser usada para projetar ao povoo a um maior desenvolvimento. E para se apropriar dessas riquezas da Bolívia, os Estados Unidos projeta o fim do Estado plurinacional e governo popular encabeçado por Evo Morales.
 
 
 
Álvaro Verzi Rangel é sociólogo venezuelano, codiretor do Observatório de Comunicação e Democracia, e também do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
 
*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli



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