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Após vencer as eleições, Pedro Castillo luta para ter seu mandato reconhecido

Figuras como o escritor Mario Vargas Llosa acusaram o candidato progressista de ser ''uma ameaça à democracia'', no entanto, é a direita que insiste em buscar mecanismos para desconhecer o resultado das urnas

18/06/2021 11:46

(AFP/Arquivos)

Créditos da foto: (AFP/Arquivos)

 
Nesta terça-feira (15/06), após nove dias de apuração, o ONPE (sigla em espanhol do Escritório Nacional de Processos Eleitorais do Peru) anunciou que foram contabilizadas 100% das urnas utilizadas no segundo turno das eleições presidenciais, e que o resultado foi uma vitória do candidato do partido progressista Peru Livre, Pedro Castillo, com 8,83 milhões de votos (50,12%) contra 8,79 milhões (49,87%) de Keiko Fujimori, candidata do partido conservador Força Popular.


De acordo com as leis eleitorais peruanas, a diferença de pouco mais de 44 mil votos seria suficiente para oficializar que Castillo é o novo presidente eleito do Peru. Na verdade, essa vantagem é quase igual e até um pouco maior do que os 41 mil votos que deram a Pedro Pablo Kuczynki a vitória sobre a própria Keiko Fujimori no segundo turno de 2016.

Há cinco anos, a vitória por tão pequena diferença foi aceita sem maiores questionamentos, mas era outro contexto. A principal diferença é que o vencedor daquele então foi um economista e banqueiro, um aliado do neoliberalismo. Desta vez, venceu um professor de escola básica com um discurso socialista, que prega o rompimento com o modelo econômico que se mantém no país nas últimas décadas. Logo, a reação é outra.

Assim como em 2016, Keiko Fujimori exerceu o seu direito de denunciar uma possível fraude na apuração. Porém, daquela vez as queixas não impediram a imprensa peruana de declarar Kuczynski vencedor das eleições, enquanto se esperava que o JNE (Jurado Nacional de Eleições) avaliasse as acusações, que terminaram sendo arquivadas.

Agora, pelo contrário, nenhum dos principais meios de comunicação ousa aceitar que Castillo é o vencedor do pleito, apesar de sua vantagem ser maior (não muito maior, mas maior) do que a de Kuczynski. Nem mesmo com várias autoridades do país, incluindo o próprio presidente Francisco Sagasti, afirmando que não há indícios de fraude nas eleições.

Por exemplo, o jornal El Comercio, um dos mais importantes de Lima, noticiou o fim da votação sem admitir que Castillo é o presidente eleito. Preferiu dizer que o socialista “está vantagem após o final da contagem do ONPE”, e também “acusa” de “se proclamar presidente eleito”, como se não fosse isso o que fazem todos os candidatos, quando sua vantagem nas urnas é irreversível.

Vargallosismo

Talvez o exemplo mais curioso de reação aos resultados seja o do escritor Mario Vargas Llosa. Durante a campanha, o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2010 surpreendeu muita gente ao anunciar seu apoio à candidatura de Keiko Fujimori.

Tal gesto pôs fim a uma rivalidade de 30 anos, marcada por perseguições políticas: em 1989, Vargas Llosa foi derrotado nas urnas por Alberto Fujimori, que, após o autogolpe de 1992, passou a ameaçar seus opositores, incluindo o romancista, que teve de fugir para Espanha.

Diante do que chamou de “ameaça de o Peru se tornar Venezuela”, o ganhador do Prêmio Nobel decidiu esquecer o autoritarismo ao qual ele próprio esteve sujeito e preferiu apoiar a candidata da direita. Até seu filho, Álvaro Vargas Llosa, conhecido colunista de extrema direita e crítico de Fujimori como seu pai, chegou a participar do ato de encerramento da campanha de Keiko em Lima.

Além disso, em 2016, quando apoiou Pedro Pablo Kuczynski (que renunciou ao cargo dois anos após a posse, quando foi descoberto o seu envolvimento em atos de corrupção), Vargas Llosa pediu confiança na democracia e no sistema eleitoral peruano, e que fosse reconhecida a vitória de seu candidato contra “a filha de um dos piores ditadores da história do Peru”, apesar da pequena diferença de votos que o favorecia.

Neste 2021, a retórica vargallosiana é muito diferente, não só por ter apoiado aquela “filha de um dos piores ditadores da história do Peru”, mas porque, vendo que sua candidata não venceu, ele não acredita mais que o sistema peruano eleitoral é tão bom. Na verdade, defende que o JNE “deve intervir neste caso, pois é a autoridade máxima para apurar se houve fraude”.

Talvez por isso, o ex-presidente boliviano Evo Morales resolveu indicar Mario Vargas Llosa como “o grande perdedor da eleição que definiu a vitória do irmão Pedro Castillo”, em um tuíte publicado há poucos dias.


Pressão sobre a justiça eleitoral

De qualquer forma, segundo a imprensa peruana, o processo de avaliação das denúncias de Keiko Fujimori pelo JNE pode levar até três semanas. Enquanto isso, a candidata e outros grupos de direita convocam marchas com a intenção de pressionar o Poder Judiciário a emitir uma decisão favorável à sua causa.

Porém, Fujimori garante que respeitará a resolução do JNE caso sua reclamação seja rejeitada, e prometeu que não levará a denúncia aos organismos internacionais.

Por sua vez, o partido Peru Libre rejeitou as acusações de Fujimori, através de um tuíte no qual afirma que seu setor “nunca recorreu à fraude eleitoral, pelo contrário, sempre foi vítima delas, e apesar de tudo, sempre soubemos enfrentar e superar esses problemas”.


Se nada mudar nas próximas semanas e os resultados forem confirmados pelo JNE, Pedro Castillo deve assumir a Presidência do Peru no dia 28 de julho.



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