Pelo Mundo

Aprovado plano da Amazon de lançar 3.236 satélites

A comunidade de astronomia continua preocupada com o modo que mais 3.236 satélites afetarão observações da Terra

04/08/2020 13:42

Satélite de comunicação na órbita da Terra (Getty Images)

Créditos da foto: Satélite de comunicação na órbita da Terra (Getty Images)

 
Os astrônomos já estavam preocupados com o plano da SpaceX de colocar 25.000 satélites em órbita. E a partir de 30 de julho, há mais uma razão para os astrônomos acreditarem que a astronomia observacional a partir do solo está prestes a se tornar muito mais difícil: o projeto Kuiper da Amazon.

Na sexta-feira, surgiram notícias de que a Comissão Federal de Comunicações [FCC] aprovou os planos da Amazon para sua ambiciosa constelação de Kuiper, que inclui o envio de 3.236 satélites para três diferentes altitudes em órbita.

A aprovação da FCC é um grande passo regulatório e dá à Amazon permissão para avançar com o lançamento quando estiverem prontos. Os satélites são parte do esforço da Amazon para fornecer internet por satélite para todos nos Estados Unidos, um esforço que tem sido apresentado como sendo uma missão de caridade e orientada para a comunidade.

"Esse investimento criará empregos e infraestrutura em todo os Estados Unidos, construirá e escalará nossa rede terrestre, acelerará os testes e a fabricação de satélites e nos permitirá entregar um terminal de clientes com preço acessível e que permitirá conexões de banda larga às comunidades por todo o mundo", afirmou a Amazon em uma publicação no blog.

Mas muitos astrônomos que dependem de um céu claro da Terra para observar o universo, estão se perguntando a que custo? De fato, quanto mais satélites na órbita da Terra, mais difícil será para os astrônomos fazerem observações precisas e sem obstruções. Alexandre Lazarian, professor de Astronomia da Universidade de Wisconsin - Madison, disse ao site Salon que acredita que o caso dos satélites comerciais da Amazon "é um dos muitos que dificultam nossa exploração do universo".

"Acredito que alguns aspectos do progresso da civilização dificultam o trabalho dos observadores", disse Lazarian. "Isso inclui poluição de luz, ruído de rádio e também satélites."

Por outro lado, Lazarian disse que o progresso tecnológico está abrindo novos horizontes para a astronomia.

Avi Loeb, presidente do departamento de astronomia de Harvard, disse ao Salon por e-mail que os astrônomos há muito escapam da poluição luminosa por seus telescópios longe das cidades. No entanto, novos satélites de comunicação como os da Amazon "refletirão a luz solar e criarão uma cidade de luzes no céu da qual nenhum telescópio na Terra pode escapar".

"O maior impacto será nos telescópios que pesquisam grandes áreas do céu de forma rotineira, como o Observatório Vera Rubin, que verá sua primeira luz no próximo ano e está planejado para realizar a extensa pesquisa do LSST [o Large Synoptic Survey Telescope será um telescópio de 8,4 metros capaz de mapear todo o céu visível], cobrindo o céu do sul a cada poucos dias em busca de eventos transitórios", disse Loeb ao Salon. “As constelações de satélite deixarão marcas brilhantes nos detectores CCD [Dispositivo de Carga Acoplada, sensor conhecido pela sigla em inglês CCD] do observatório, dificultando a separação de fontes astronômicas reais de sua luz contaminante brilhante."

Em maio, o Observatório Vera Rubin divulgou uma declaração de preocupação com o lançamento de satélites da SpaceX e os planos de outras empresas como a Amazon.

"A comunidade científica do Observatório Vera C. Rubin está preocupada com a crescente implantação de constelações de comunicações via satélite que, se não forem controladas, podem comprometer as descobertas esperadas do Observatório Rubin quando as operações científicas começarem em 2022", dizia o comunicado. "Como o Observatório Rubin é impactado exclusivamente por essas constelações de satélites, sua equipe científica está assumindo um papel ativo na busca de estratégias de mitigação para reduzir o impacto dos satélites na ciência do Observatório Rubin."

De fato, tais esforços para enviar satélites baseados na internet já começaram. No final de maio de 2019, a SpaceX lançou os primeiros 60 de seus 42.000 satélites de comunicação para a planejada constelação Starlink. Desde então, a empresa de Elon Musk lançou vários outros grupos de 60 satélites. Embora os satélites não sejam necessariamente um novo problema para os astrônomos, o brilho dos satélites lançados pela SpaceX tem sido uma grande preocupação para os astrônomos.

Em janeiro de 2020, um estudo publicado na revista Astronomy - Astrophysics analisou o impacto potencial de satélites comerciais como os da SpaceX e da Amazon e descobriu que grandes telescópios provavelmente serão "moderadamente afetados".

"Os resultados sugerem que grandes telescópios como o VLT do ESO e o próximo ELT serão apenas moderadamente afetados, embora alguns casos científicos possam exigir a implementação de medidas de mitigação, como agendamento das observações ou interrupção das exposições para permitir que um satélite cruze o campo de visão", concluiu o estudo.

A Amazon disse que investirá mais de US$ 10 bilhões no Projeto Kuiper no comunicado da empresa. Embora ainda não existam datas específicas de lançamento, sob a aprovação da FCC, a empresa deve lançar metade da constelação até 2026 para manter sua licença da FCC, e os satélites restantes até 2029.

*Publicado originalmente em 'Salon' | Tradução de César Locatelli



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