Pelo Mundo

Aqui está o que pode ser perdido se Trump bombardear os tesouros culturais do Irã

O presidente dos EUA alertou o Irã de que ele destruirá seus ''locais culturais''. Aqui está o nosso guia para as joias do país, das cidadelas no topo da colina ao mausoléu com ''globos como os de discoteca''

08/01/2020 13:09

Parte interna da mesquita Sheik Loftallah, em Isfahan, Irã. É um patrimônio mundial da UNESCO (BornaMir/Getty Images/iStockphoto)

Créditos da foto: Parte interna da mesquita Sheik Loftallah, em Isfahan, Irã. É um patrimônio mundial da UNESCO (BornaMir/Getty Images/iStockphoto)

 
Se realizada, a ameaça de Donald Trump de atacar "locais culturais" no Irã o colocaria em um eixo do mal arquitetônico ao lado do Talibã e do Isis, os quais causaram formas semelhantes de destruição neste século. O Talibã dinamizou os Budas de Bamiyan do século VI no Afeganistão em 2001. O Estado Islâmico destruiu mesquitas, santuários e outras estruturas no Iraque e na Síria desde 2014, algumas na antiga cidade de Palmira. Não são, você deve ter imaginado, companhias às quais o presidente dos EUA gostaria de ser associado.

Trump sabe o que seria perdido? Provavelmente não - mas ele dificilmente seria o único. O fato de o país raramente ser visitado por turistas ocidentais não se deve à falta de atrações. Com uma civilização que remonta a 5.000 anos e mais de 20 locais de patrimônio mundial da Unesco, o patrimônio cultural do Irã é rico e único, especialmente sua arquitetura religiosa, que exibe um domínio da geometria, design abstrato e engenharia pré-industrial praticamente sem paralelo na civilização. Esta não é apenas a herança cultural do Irã, é da humanidade.

Persépolis


Persépolis era a capital cerimonial do império Aquemênida [também chamado de Primeiro Império Persa] e um dos maiores sítios arqueológicos do mundo (Alireza Hosseinzadeh/Getty Images/iStockphoto).

A joia da coroa arqueológica do Irã: um complexo monumental que remonta ao século VI AC, projetado para impressionar - com um vasto terraço elevado, grandes escadarias, palácios e templos de mármore. A cidade foi saqueada por inúmeros visitantes, começando por Alexandre, o Grande, mas ainda resta muito a ser eliminado por Trump, incluindo algumas estátuas incrivelmente bem preservadas e baixos relevos de touros, leões, criaturas míticas e cidadãos do multicultural império Aquemênida.

Mesquita do Shah Cheragh, Shiraz


Mesquita de Shah Cheragh, Shiraz, Irã (Feng Wei Photography/Getty Images).

O nome se traduz como "Rei da Luz" e por boas razões. De aparência relativamente típica do lado de fora, o interior deste mausoléu é totalmente coberto por complexos desenhos geométricos de mosaicos espelhados, criando um show de luzes cósmico e sobrenatural. É um local sombrio de peregrinação, mas o efeito foi comparado a estar dentro de um gigante globo de discoteca islâmico. Exatamente o tipo de coisa que um hoteleiro com tendência a coisas brilhantes pode apreciar.

Catedral de Vank


Interior da cúpula da Catedral de Vank, Isfahan, Irã (James Strachan/Getty Images/Robert Harding World Imagery).


O Irã tem uma longa história cristã, particularmente associada à Armênia em sua fronteira noroeste. Três das igrejas mais antigas da região são patrimônio mundial da Unesco. A Catedral de Vank, perto de Isfahan, foi construída por armênios que foram conduzidos para lá pelo Xá Abbas I da Pérsia, durante as guerras otomanas no século XVII. O interior é uma exuberante colcha de retalhos cheia de afrescos e esculturas douradas.

Pontes de Isfahan


Ponte Si-o-Se-Pol (ponte de 33 arcos) sobre o rio Zayanderud em Isfahan (Atta Kenare/AFP via Getty Images).

Os visitantes ocidentais ficaram maravilhados com a beleza e sofisticação das longas pontes cobertas da antiga capital do Irã, construídas principalmente durante o século XVII. São notáveis obras de engenharia, mas também de pura funcionalidade. A imponente ponte Khaju de 130 metros de comprimento, por exemplo, serviu como barragem e comporta para controlar o rio Zayanderud, bem como uma maneira de atravessá-lo, enquanto seu corredor central era um espaço público sombreado ostentando uma casa de chá.

Mesquita Sheik Lotfallah em Isfahan


Mesquita Sheik Lotfallah em Isfahan (Leonid Andronov/Getty Images/iStockphoto).

Não é a maior mesquita da cidade, mas uma das mais admiravelmente ornamentadas, pois foi construída para a corte real e não para o público em geral. Seu interior contém alguns dos melhores trabalhos manuais encontrados em qualquer lugar do mundo, especialmente a cúpula com seus padrões geométricos insondáveis e complexos, que se assemelham à cauda de um pavão – prova de incontáveis milhões de horas de cuidados e trabalho.

Santuário Imam Reza, Mashhad

Esta é a maior mesquita do mundo, um dos locais mais sagrados da cidade mais sagrada do Irã, com mais de 25 milhões de visitantes por ano. A destruição desse complexo de mesquitas seria imperdoável para muitos muçulmanos por todo mundo. Além da tumba do imã Reza, do oitavo imã xiita e de várias outras figuras religiosas, o complexo abriga mesquitas, pátios, uma escola (madrasa) e um museu contendo artefatos históricos de valor inestimável.

Pasárgada

A primeira capital do império Aquemênida, construída por Ciro, o Grande, em um estilo característico, com palácios em colunas espetaculares e outros edifícios dispostos em grandes jardins divididos por cursos de água. Esse influente estilo de jardim persa foi um protótipo para o design asiático, a inspiração para o Taj Mahal da Índia e Alhambra da Espanha. Há apenas partes remanescentes dos prédios, embora uma estrutura sobrevivente seja o suposto túmulo do próprio Ciro.

A tumba do profeta Daniel


A tumba do profeta Daniel, Susa, Irã (Dea/Archivio J Lange/De Agostini via Getty Images).

Mesmo que ele não tenha de fato lido seu suposto livro favorito - A Bíblia -, Trump provavelmente está familiarizado com Daniel, também conhecido como o cara dos leões. Ele pode se surpreender ao descobrir que Daniel - um profeta tanto no Islã, quanto no cristianismo - deve estar enterrado na antiga cidade iraniana de Susa. A tumba de Daniel, com sua cúpula cônica característica, foi registrada pela primeira vez no século XII e ainda é um local de peregrinação popular.

A Cidadela de Bam

O maior edifício de adobe do mundo, que remonta ao século VI AC. É mais uma cidade no topo de uma colina do que uma única estrutura, espalhada por 180.000 metros quadrados, com uma fortaleza central cercada por ruas, casas e bazares, todos cercados por paredes com sete metros de altura. Bam foi amplamente destruída por um terremoto em 2003, mas a reconstrução está em andamento desde então.

Torre de Gonbad-e Kavus


Torre de Gonbad-e Kavus 8 em Golestan, Irã (Image Professionals GmbH/Alamy Stock Photo).

Outro exemplo da excelência iraniana antiga em engenharia e estilo. Esta torre funerária de 50 metros de altura remonta ao início do século 11 e, um milênio depois, ainda é aparentemente a torre de tijolos mais alta do mundo. O design é maravilhosamente austero, uma estrela de 10 pontas no plano, com um teto cônico, completamente simples, exceto por duas faixas de caligrafia na parte inferior e na parte superior.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de César Locatelli

Conteúdo Relacionado

Carta Maior é o Portal da Esquerda brasileira e referência de informação de qualidade na internet. O que veicula é fruto de uma consciência e visão coletiva de mundo assumida, o que faculta ao leitor formar sua própria opinião.