Pelo Mundo

Argentina pode nos dar o primeiro respiro contra a direita neofascista

 

12/08/2019 13:49

(El Desconcierto)

Créditos da foto: (El Desconcierto)

 
O avanço da ultradireita a nível mundial é um fato, com consequências evidentes: sociedades que retrocederam em matérias de direitos civis, direitos humanos e em todos os tidos de discriminações. Se percebe um aumento da desigualdade e, ainda pior em termos de desemprego, embora o combate a esse problema tenha sido a grande promessa deste tipo de governo.

A América Latina vem presenciando como reaparecem todos esses elementos, impulsados pela tendência lançada nos Estados Unidos com a vitória de Donald Trump, que inspirou a vitória de outros políticos de viés parecido na região e no mundo.

É inegável que o discurso e as acusações de corrupção nos governos progressistas, junto com a crise venezuelana, ajudaram esses movimentos simpáticos ao neofascismo, ao dar os argumentos para convencer a população a votar e tomar posturas contrárias às suas próprias liberdades, gerando uma espécie de “síndrome de Estocolmo”, como uma doença social.

Porque se o que determina o voto do cidadão é ano era a corrupção, é inexplicável que políticos como o chileno Sebastián Piñera ou o argentino Mauricio Macri chegassem ao poder através de uma eleição popular, e que os eleitorados desses dois países acreditassem realmente que eles seriam os combatentes de um problema do qual eles se beneficiaram e pelo qual construíram suas fortunas.

Tendo em vista esta cidadania com pensamento e decisões moldadas, levada a se autoflagelar eleitoralmente, onde os grupos mais extremos da direita começam a aproveitar eleitoralmente essa situação, as mudanças de tendência nas eleições latino-americanas passam a não ser algo banal, mesmo que seja uma simples eleição primária. E cabe às forças progressistas e democráticas organizadas internacionalmente a missão de se envolver e demonstrar seu apoio para frenar os retrocessos que estamos vivendo.

Hoje, com todos os erros e acertos que cometeu no passado, o kirchnerismo voltou a vencer na Argentina. Desta vez, como Cristina Fernández de Kirchner como candidata à vice-presidenta, mas liderando uma aliança ampla, que reuniu vários setores da sociedade contra os resultados econômicos do macrismo. Quem encabeça esta união é Alberto Fernández, que foi o chefe de gabinete de Néstor Kirchner em um dos mais difíceis momentos econômicos vividos pela Argentina, e que se assemelha à crise atual enfrentada pelo país.

Este resultado das primárias, se forem confirmados no primeiro turno e levarem o kirchnerismo de volta ao poder, poderiam ter o poder de não somente tirar a Argentina da situação de crise profunda como também daria um novo ar para a região, onde somente Evo Morales e López Obrador se mostram como focos de resistência.

Porém, essas mudanças não podem ser somente um simbolismo para impulsar um respiro para as esquerdas, mas também um apoio em matéria de acordos sociais e econômicos. É necessário que um país com grande população, como a de Argentina, volta a ter uma gestão progressista que entregue bons resultados de forma indiscutível, para que possa apoiar diretamente os processos que começarão os demais países, no ano seguinte.

No resto do continente existem movimentos em favor dos acordos sociais entre diferentes setores da esquerda. A Argentina atual é o grande exemplo: os diferentes grupos antimacristas se uniram em favor de uma mudança de governo e de um pacto social que permita ao país sair da crise. Essa forma de se organizar teve um efeito de demonstração que poderia se repetir futuramente no Brasil, no Equador e outros países.

A coisa é mais preocupante no Chile, onde personagens da esquerda e da Frente Ampla insistem na teoria de apontar com o dedo aos anteriores governos progressistas acossados pelos casos de corrução, como isso não fosse um problema sistêmico e sim restrito a um setor, e continuem apelando a uma suposta “reflexão” que deveriam fazer os demais, já que, no caso específico da Argentina, a cidadania não pode continuar esperando, a crise social é maior grande que a vivida em 2001 e requer transformações agora.

É bem verdade que um resultado nos Estados Unidos, como uma hipotética não reeleição de Donald Trump em 2020 (e, quem sabe, perdendo para alguma das opções mais progressista do Partido Democrata, como são Bernie Sanders e Elizabeth Warren), teria mais poder de impulsar as mudanças de ares político. Contudo, se espera que a dupla Alberto Fernández e Cristina Fernández de Kirchner já sejam um primeiro respiro social para a América Latina, o primeiro sinal de um final relâmpago da direita fascista no poder, e que faça a região avançar novamente, destruindo as desigualdades sociais e recuperando os direitos perdidos.

*Publicado originalmente em pressenza.com | Tradução de Victor Farinelli



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