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Arma não tão secreta de Israel na luta contra os coronavírus: os espiões do Mossad

A agência de inteligência israelense desempenhou um papel maior que o normal na aquisição de equipamento médico e conhecimento necessários na pandemia

14/04/2020 15:31

Judeus ultraortodoxos em Bnei Brak, Israel, na semana passada. (Jack Guez/Agence France-Presse/Getty Images)

Créditos da foto: Judeus ultraortodoxos em Bnei Brak, Israel, na semana passada. (Jack Guez/Agence France-Presse/Getty Images)

 

TEL AVIV, Israel - Quando se descobriu que o ministro da Saúde de Israel estava infectado com o coronavírus, no início deste mês, todos os funcionários de alto nível em contato próximo com ele foram colocados em quarentena, incluindo um que se destacou: o diretor do Mossad, o famoso serviço de espionagem israelense.

Os oficiais do Mossad, principalmente associados a operações secretas no exterior em nome da proteção de Israel, normalmente não estão no ramo da saúde pública.

Os israelenses ficaram imediatamente intrigados.

Por que o diretor do Mossad, Yossi Cohen, uma figura amplamente respeitada no país, esteve numa mesma sala que o ministro da Saúde, Yaakov Litzman?

A poderosa agência de Cohen, ao que parece, esteve profundamente envolvida na luta de Israel contra o vírus e tem sido um dos ativos mais valiosos do país na aquisição de equipamentos médicos e tecnologia de fabricação no exterior, segundo autoridades de segurança e medicina israelenses.

Com países em todo o mundo competindo ferozmente por suprimentos limitados durante a pandemia, eles estão recorrendo a qualquer ajuda disponível e flexionando seus músculos sem remorso.

E com o Mossad determinado que o Irã - lutando com sua própria crise de coronavírus - não representa mais uma ameaça imediata à segurança, a agência poderia se dar ao luxo de mergulhar na emergência de saúde, segundo várias pessoas conhecedoras de suas operações.

As previsões iniciais para o número de contaminados pelo vírus em Israel foram terríveis, embora até agora tenham se mostrado pessimistas demais. Com quase 11.000 casos do vírus agora confirmados e 103 mortes, Israel não está entre os países mais atingidos do mundo.

"A taxa de expansão máxima foi ultrapassada há cerca de duas semanas e provavelmente declinará quase completamente em duas semanas", disse um artigo publicado no domingo pelo professor Isaac Ben Israel, da Universidade de Tel Aviv.

Mas no início de fevereiro, as autoridades do Sheba Medical Center, o maior hospital de Israel, perceberam que precisavam de mais respiradores e outros equipamentos. Nessa época, o professor Yitshak Kreiss, diretor geral do hospital, se reuniu com Cohen, chefe do Mossad, em um evento privado envolvendo um amigo em comum - o que não é incomum em um pequeno país onde figuras seniores costumam se mover nos mesmos círculos sociais.

Até então, Cohen já havia começado a avaliar como o Mossad poderia ajudar o sistema de saúde israelense. O professor Kreiss disse que enumerou as necessidades mais urgentes de equipamentos para Cohen, que obteve mais listas do Ministério da Saúde, e o Mossad começou a ativar sua rede internacional para encontrar os itens necessários.

No início de março, foi criado um centro de comando e controle para lidar com a distribuição de equipamentos médicos por todo o país, com Cohen à frente e com sede em Sheba. Havia representantes do Mossad, a divisão de compras do Ministério da Defesa e a altamente secreta Unidade 81 da inteligência militar, que lida com o desenvolvimento de equipamentos avançados de espionagem.

O professor Kreiss, ex-general de brigada do exército e ex-cirurgião geral do Exército, disse que o Mossad foi fundamental para ajudar sua instituição a garantir equipamentos médicos vitais e conhecimentos essenciais do exterior.

"Somente em Israel o hospital de Sheba poderia ter pedido a ajuda do Mossad", disse ele em entrevista. “Você pode imaginar o Hospital Mount Sinai indo para a CIA pedir ajuda?" ele acrescentou, referindo-se ao centro médico de Nova York.

O professor Kreiss se recusou a dizer com precisão como os oficiais do Mossad haviam ajudado as instituições médicas israelenses ou de onde vinha o equipamento importado. Mas, de acordo com seis autoridades israelenses, no cargo ou já afastadas, com conhecimento das operações do Mossad, a agência usou contatos internacionais para evitar escassez que poderia ter afetado o sistema de saúde de Israel.

As seis pessoas, que falaram sob condição de anonimato porque as atividades do Mossad são classificadas, disseram que os contatos da agência de espionagem se mostraram inestimáveis para permitir que Israel adquirisse respiradores e material de teste que o Ministério da Saúde de Litzman não conseguiu garantir. Apesar desses esforços, no entanto, ainda há uma falta de capacidade de teste em Israel.

Essas pessoas não confirmaram relatos da mídia não israelense de que alguns dos itens foram adquiridos de países árabes vizinhos sem relações diplomáticas oficiais com Israel.

Mas pelo menos um alto funcionário do Mossad reconheceu em uma entrevista com Ilana Dayan, apresentadora do "Uvda", ou "Fato", a revista de TV do Canal 12 de Israel, que em alguns casos, a agência adquiriu itens já encomendados por outros países.

No final da primeira semana de abril, disseram as pessoas com conhecimento das operações, Cohen estava confiante de que os agentes do Mossad haviam garantido que Israel teria respiradores suficientes para lidar com as piores previsões.

Se Litzman, cuja atitude inicialmente descuidada com relação ao vírus foi fortemente criticada, simboliza algumas deficiências da resposta do governo, para muitos israelenses o Mossad representa o contrário. A notícia de sua assistência no combate à pandemia reforçou a imagem do Mossad como uma das instituições governamentais mais admiradas do país.

Não havia tempo a perder, lembrou o professor Kreiss, elogiando o que ele descreveu como a determinação de propósito demonstrada pelos agentes do Mossad. "Parte do ethos deles é executar a tarefa a qualquer preço", disse ele.

Esse espírito ajudou a construir a reputação do Mossad.

É mais conhecido pela captura do fugitivo nazista Adolph Eichmann em 1960, sua resposta letal após o massacre de atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique de 1972 e o roubo de registros nucleares secretos do Irã em 2018, que os israelenses consideram seu adversário mais perigoso.

A agência também teve algumas falhas de alto nível, entre elas a tentativa de assassinato em 1997 contra Khaled Meshal, uma figura importante no Hamas.

Até certo ponto, a intervenção do Mossad na pandemia é um forte embaraço para as autoridades do Ministério da Saúde, que normalmente falam livremente com a mídia, mas se recusaram a comentar sobre qualquer aspecto do papel do serviço de espionagem.

O fato de o sistema de saúde do país ter que recorrer ao o Mossad é evidência de que ele não havia se preparado para responder ao tipo de ameaça representada pelo coronavírus, de acordo com uma figura de alto escalão do sistema de saúde israelense, que pediu anonimato porque estava criticando o direção do ministério.

O primeiro carregamento adquirido no exterior pelo Mossad chegou a Israel em um voo especial em 19 de março: 100.000 kits de teste de coronavírus, disse um funcionário do escritório do primeiro-ministro.

Os envios subsequentes incluíram mais kits de teste, 1,5 milhão de máscaras cirúrgicas, dezenas de milhares de máscaras N-95, macacão de proteção para equipes de primeiros socorros, óculos de proteção e uma variedade de medicamentos, de acordo com um oficial de alto nível conhecedor da operação do Mossad.

O Mossad também ajudou a obter tecnologia de fora de Israel que permitiu a muitos laboratórios israelenses realizar testes de coronavírus. Os funcionários da Mossad também garantiram o conhecimento necessário para produzir respiradores em Israel.

Usando o conhecimento tecnológico trazido pelo Mossad, as linhas de produção que podem produzir 25 milhões de máscaras de proteção por mês estão gradualmente sendo montadas, disse um oficial de segurança de alto escalão.

Segundo um alto funcionário israelense, o Mossad sabia que precisava agir com urgência, com a expectativa de que a demanda por esses equipamentos aumentaria e com o entendimento de que os países se recusariam a exportar produtos médicos essenciais.

Os esforços do Mossad foram mais fáceis em países não democráticos, onde as agências de inteligência têm mais influência sobre os governantes, disse esta autoridade. Os esforços foram baseados em familiaridade prévia e confiança mútua entre o Mossad e essas agências.

Em alguns casos, disse o funcionário, Cohen contatou pessoalmente seus colegas. Esses contatos foram muitas vezes suficientes para agilizar a compra dos produtos. Em outros casos, disse o funcionário, Cohen falou diretamente com os governantes de determinados países, que ele se recusou a identificar.

Quando outros países começaram a procurar o mesmo equipamento, a competição se intensificou, e a batalha nem sempre foi travada de maneira justa. Embora nenhuma das pessoas com conhecimento das operações do Mossad reconhecesse explicitamente que a agência pode ter jogado sujo, elas não descartaram a possibilidade.

Um destinatário das importações do Mossad disse que algumas vieram da China, onde o Ministério da Defesa de Israel também ajudou a assegurar equipamentos médicos por meio de uma rede geralmente usada para comprar armas.

O Mossad investiu pesadamente na última década no desenvolvimento de relações com estados do Oriente Médio e Ásia que permanecem hostis a Israel, pelo menos oficialmente.

Houve uma série de relatos de que Cohen se reuniu frequentemente com governantes e chefes de espionagem dos Emirados Árabes Unidos, Egito, Arábia Saudita, Jordânia e Catar. Em 2018, Cohen organizou uma reunião pública incomum entre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, de Israel, e o sultão Qaboos, de Omã, que morreu em janeiro.

Nem todas as operações com coronavírus do Mossad foram bem-sucedidas.

Uma das pessoas conhecedoras das falhas disse que os emissários do Mossad haviam sido malsucedidos pelo menos uma vez na Alemanha, onde funcionários do governo apreenderam mercadorias que os israelenses estavam prestes a enviar, de uma fábrica, para casa. Em outra ocasião, uma carga de desinfetante na Índia foi retida pelos funcionários da alfândega e o Mossad abandonou a remessa.

No entanto, o Mossad quase certamente será lembrado por ter vindo em socorro do país em uma batalha incomum contra um inimigo invisível.

*Publicado originalmente em 'New York Times' | Tradução de César Locatelli

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