Pelo Mundo

As 10 funções da USAID, a mega agência ''humanitária'' da CIA

 

06/03/2019 16:29

 

 

Os caminhões de ajuda humanitária da USAID destinados à Venezuela continuam estacionados na fronteira com a Colômbia, enquanto Donald Trump, o homem que personifica a solidariedade, ameaça ao país sul-americano com um ataque militar: quer que milhares de venezuelanos que morrerão pelo impacto das bombas e balas o façam com o estômago cheio com os biscoitos que não foram vendidos nos mercados dos países desenvolvidos – talvez porque são feitos com sementes modificadas, ou por estarem a ponto de expirar a data de validade.

A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) foi criada em 1961, com a intenção de ampliar o Plano Marshall aos países estratégicos do mundo, canalizando suas políticas para 1) impedir que as forças comunistas – que se fortaleceram ao derrotar o fascismo na Segunda Guerra Mundial – tomassem o poder, e 2) abrir novos mercados às empresas estadunidenses. O vínculo entre a USAID e o Departamento de Segurança Pública, então dirigido pelo agente da CIA Byron Engle, vem se renovando ano após ano: em 2015, Barack Obama nomeou Gayle Smith, outrora diretora do Conselho de Segurança Nacional da Casa Blanca, como diretora da agência.

Segundo o WikiLeaks, entre os anos de 2004 e 2006, a USAID realizou diversas ações na Venezuela, e fez uma doação de 15 milhões de dólares a dezenas de organizações civis, com o fim de impulsar a estratégia do ex-embaixador de Washington na Venezuela, William Brownfield, baseada em provocar uma fratura interna no chavismo, e em organizar os setores descontentes com as reformas realizadas pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

As funções da USAID

1.
Escolher o país adequado para o projeto elaborado pelo Departamento de Estado – e, obviamente, não sempre o mais necessitado. Logo, a agência deve decidir em que setor será aplicar os recursos, embora os preferidos sejam sempre os de energia, educação, saúde, segurança e agricultura. Neste sentido, a organização costuma substituir a produção de cultivos orgânicos pelos comerciais. Depois, coloca os seus efetivos nos setores chave para subverter as economias locais. Às vezes, contrata valiosas pessoas solidárias nativas, para reduzir aqueles que deveriam militar nos partidos políticos e realizar mudanças fundamentais em meros gestores de caridade. No Iraque colonizado, a USAID injetou a economia neoliberal, impôs massivas privatizações, incluindo uma parte da indústria petrolífera, e obrigou a teocracia títere instalada a comprar grãos transgênicos da Monsanto. No Peru, nos Anos 90, a agencia doou 35 milhões de dólares à campanha de Alberto Fujimori, cujas medidas econômicas afundaram o país na miséria. A solução do protegido da USAID no país andino não foi reduzir a pobreza, e sim os pobres: Fujimori esterilizou de forma forçada a cerca de 300 mil mulheres.

2. Debilitar e até eliminar as instituições do país receptor, criando redes e entidades paralelas, promovendo a desnacionalização dos setores fundamentais em favor da gestão dos “empreendedores”. Obviamente, o interesse da burguesia dos Estados Unidos não está na autossuficiência de outros países, e sim sino no contrário disso.

3. Facilitar a tarefa da CIA de “plantar seus homens nas polícias dos países estratégicos de todo o mundo“, segundo o afirmado pelo ex-correspondente do New York Times, AJ Langguth. Aliás, o orçamento da USAID é, em parte, a verba oculta das agências de inteligência dos Estados Unidos.

4. Fortalecer o domínio dos Estados Unidos sobre as finanças mundiais. Na Índia, país que Washington considera como um contrapeso para a China, a USAID governa em coordenação com o ultradireitista Narendra Modi, e implantou a “digitalização da economia”, obrigando dezenas de milhões de pessoas de classes menos favorecidas do país a abandonar o pagamento em dinheiro e se adaptar ao dinheiro digital, com apenas um mês de prazo para se efetuar as trocas de cédulas nos grandes bancos, apesar de a maioria da população sequer possui uma conta bancária. E depois de tudo isso, o que a USAID conseguiu concretamente?

a) Servir aos interesses das tecnologias da informação (TI), aos provedores de serviços às companhias de cartões de crédito MasterCard e Visa, e à Fundação Gates, que prometeu doar um generoso cheque à ONU (Organização das Nações Unidas) em troca dessa mudança forçada.

b) Empobrecer as pequenas comunidades, acabando com as economias de muitos pequenos comerciantes e produtores, que não conseguiram trocar seu dinheiro.

c) Se apropriar dos dados dos usuários.

d) Ao reduzir o uso de cédulas a nível mundial, permite aos Estados Unidos fortalecer o dólar através do predomínio de suas empresas sobre as finanças internacionais.

e) Vigiar o comércio global: assim, Washington poderá sancionar companhias que trabalhem com o Irã, como a chinesa Huawei, por exemplo.

5. Capacitar as forças de repressão de um Estado, preparando-as para desmantelar a resistência da população. O homem de USAID no Uruguai nos Anos 60, Dan Mitrione dava cursos sobre a “complexa arte do interrogatório” e como deveria ser a tortura aos presos, utilizando mulheres e homens sem teto como cobaias humanas. A USAID, junto com os boinas verdes e a CIA, está envolvida na tortura, matança e desaparecimento de milhares de homens e mulheres progressistas guatemaltecos, ao treinar cerca de 30 mil policiais e soldados paramilitares para esta missão. No Brasil, o Departamento de Iniciativas de Transição, ligado à USAID e dedicado a desestabilizar os governos não alinhados, operou do mesmo modo. Uma de suas vítimas foi Dilma Rousseff, presa e torturada por ser uma estudante marxista.

6. Criar milhares de postos de trabalho para as ONG estadunidenses e dotá-las de enormes fundos públicos e privados a serviço dos interesses de doadores como Rockefeller, Soros, Gates, Ford e Omidyar, enquanto abre os mercados às corporações norte-americanas. A própria USAID assegura devolver ao seu país cerca de 80% do dinheiro investido nesta organização. Após transformar o Iraque em escombro em 2003, graças às mentiras das armas de destruição em massa que nunca se comprovaram, uma das empresas apoiadoras da USAID, a CAII (Creative Associates International Inc.), ganhou um contrato pelo valor de 157 milhões de dólares, destinados a comprar lousas e giz para os colégios previamente destruídos pelos mísseis estadunidenses. Outra empresa, a IRD (International Relief and Development), recebeu 2,4 bilhões de dólares em outro contrato semelhante, assim como a Halliburton y Bechtel, e tantas outras. Para o Afeganistão – o principal receptor das ajudas dos Estados Unidos, e onde aterrissaram centenas de ONGs ocidentais “especialistas em gênero” para “salvar as mulheres” –, a USAID destinou 216 milhões de dólares só em 2018 para empoderar 75 mil mulheres: segundo o Inspetor Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão, somente umas 50 foram “salvas”, e o dinheiro dos contribuintes se esfumou. Aconteceu algo parecido com outros 89,7 milhões de dólares. O diretor da agência, Arnold Fields, foi forçado a deixar o cargo após pressão do Congresso. A “Democratização do Afeganistão” dirigida por Bush-Cheney contou com 300 mil soldados da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e dezenas de milhares de empresas ligadas ao Pentágono, que além de acabar com a vida de cerca de um milhão de afegãos e provocar a fuga de milhões de famílias de seus lares, também significou apagar dos livros a memória histórica desta nação: poucos recordam o que foi a República Democrático do Afeganistão (1978-1992), dirigida pelos comunistas, que eliminou a usura, o cultivo de ópio, legalizou os sindicatos, estabeleceu uma lei de salário mínimo, o convênio coletivo, a igualdade entre o homem e a mulher – que permitiu pela primeira vez que 40% dos médicos fossem mulheres, assim como o 60% do professorado da Universidade de Cabul –, que declarou gratuita e universal a educação, assim como a saúde, duplicando as camas nos hospitais. Segundo a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA, por sua sigla em inglês), o número de civis mortos ou feridos nos ataques da OTAN em 2017 aumentou 50% em comparação com 2016, e dois terços do total eram mulheres e crianças. Hoje, nas escolas da USAID, não se ensina os valores da coletividade, e sim o do individualismo mais perverso, o do “salve-se quem puder”.

7. Soterrar a resistência ao imperialismo e às ditaduras aliadas, nos países em tensão, enfrentando o problema da fome com esmolas e soluções paliativas, impedindo que a população se organize para exigir justiça social. No Egito, tanto no período do regime de Hosni Mubarak quanto nos tempos atuais, sob o despotismo do general Abdul Fatah al-Sisi, Washington obriga o Cairo a comprar armas, enquanto milhares de pessoas vivem nos cemitérios, e depois envia a USAID para distribuir pão nos bairros que se levantaram durante a deturpada Primavera Árabe de 2011, acabando com a resistência. É o mesmo que se faz no Haiti: nos bairros onde os trabalhadores organizaram “cozinhas públicas” para reclamar por justiça, a organização entrega míseras bolsas de comida, forjando lealdades: “todos beijam as mãos daqueles que lhes dão comer”, pensam.

8. Provocar protestos populares contra os governos que os Estados Unidos repudiam, com a justificativa de “promover a democracia”. A USAID já foi expulsa da Rússia e dos países da ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América): Bolívia, Cuba, Dominica, Nicarágua e Venezuela – o Equador também havia expulsado a agência, mas após deixar a aliança aceitou de volta a sua presença. Em Burkina Faso, o presidente Thomas Sankara, o Che Guevara africano, foi derrubado por um golpe de Estado patrocinado pela França, e assassinado em 1987, como castigo por suas grandes medidas em favor da autossuficiência da nação. A Líbia, que há poucos anos era um dos países mais desenvolvidos da África, é hoje um país fantasma, o melhor exemplo do tipo de “liberação” que a USAID espalha pelo mundo.

9. Criar seus próprios meios de comunicação, aparentemente despolitizados (esportivos, musicais, etc.) enviando mensagens subliminares em benefício da economia de mercado, do consumismo, da falta de solidariedade, etc. Em 2010, a USAID, através do Departamento de Iniciativas de Transição, introduziu em Cuba um sistema de mensagens de texto similar ao Twitter, chamado ZunZuneo. Enquanto reunia dados pessoais de centenas de milhares de usuários através de seus celulares, o serviço tentava organizar as dissidências na rede, e também nas ruas. A CAII, empresa que costuma trabalhar com a USAID, também atuou, patrocinando alguns rapers para tentar ganhar o apoio dos jovens a favor da bandeira do fim do socialismo na ilha.

10. Receber mais benefícios para promoção da guerra: em março de 2017, os Estados Unidos bombardearam “por engano” um edifício em Mossul, matando a 105 iraquianos civis. Curiosamente, dois dias antes, a USAID apresentado seu pedido de novo orçamento para a “reconstrução do Iraque”. Mercadores que vivem da dinâmica de “guerra e reconstrução”? Bombeiros pirómanos? Tudo que se pareça àquela cena do filme O Garoto, em que o vagabundo de Chaplin incentiva seu filho a quebrar os cristais da vizinhança para lucrar instalando vidros novos, é pura coincidência!

Se a guerra e a pobreza não fossem tão rentáveis, seriam proibidas por lei.

*Publicado originalmente em publico.es | Tradução de Victor Farinelli

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