Pelo Mundo

As decisões finais do Papa Bento XVI

01/03/2013 00:00

L'Osservatore Romano

Créditos da foto: L'Osservatore Romano
Cidade do Vaticano – Digno de Fellini, de Nani Moretti e do Copola mais inspirado. Os diretores do Vaticano prepararam o ato final do mandato de Bento XVI com imagens bem cuidadas e planos perfeitos. O papa perdeu a capa que cobria seus ombros (esclavatina), o anel do Pescador, a faixa com seu escudo de armas (fascia), as sandálias vermelhas do pescador que simbolizam o sangue de Cristo e lembram os mártires católicos e o título de papa. O mundo cristão perdeu seu chefe católico na última jornada de um papado agitado e polêmico ao qual o Vaticano colocou um ponto final com uma encenação cuidadosa.

Desta vez, Bento XVI não esteve de corpo presente na Praça de São Pedro. Os fieis o viram, choraram, gritaram seu nome e o aplaudiram desde cinco telas gigantes colocadas em vários pontos da praça. Após as despedidas tradicionais com os hierarcas vaticanos, Bento XVI partiu em um helicóptero até Castel Gandolfo, a 20 quilômetros de Roma. O aparelho sobrevoou a praça e a capital italiana e às oito da noite a Guarda Suíça fechou a porta principal e o Vaticano ficou órfão de papa. Mas Bento XVI reserva ainda algumas surpresas além da sequência cinematográfica elaborada pelo Vaticano e filmada desde vários helicópteros que voavam sobre a Praça São Pedro. Tudo parecia perfeito, pensado por um arquiteto de multidões encantador, desenhado milímetro por milímetro para que as imagens fossem alimentando a sincera e profunda emoção das pessoas reunidas na praça. Dezessete dias cinematográficos para tapar o grande furo: tudo foi perfeito, tudo, menos a renúncia em si.

Pedra enorme e irremovível no caminho da igreja. “Já não sou mais papa. Sou apenas um peregrino na última etapa de sua caminhada nesta terra”, disse Joseph Ratzinger desde a janela de Castel Gandolfo. As coisas são vistas de distintas maneiras conforme se acredita ou não nos martírios da cruz e na santíssima trindade. Alguns pensarão que Ratzinger é um pastor santo devorado pelos lobos que o rodeiam, outros, que o papa derrotado que ontem abandonou seu trono é um farsante reacionário, um cúmplice de toda a corrupção e pederastia que corrói há anos a igreja.

Nada é tão simples. Poderiam se fazer dois livros com uma investigação jornalística e cada um deles aportaria provas robustas sobre a veracidade de uma ou outra tese. O Joseph Ratzinger de antes, o implacável perseguidor dos representantes mais inteligentes da Teologia da Libertação. E o Ratzinger de agora, o homem que assinou dois decretos para sanear o banco do Vaticano, que condenou, excomungou ou forçou a renúncia de padres cúmplices dom os atos de pederastia, o que, nas últimas semanas, removeu de seus cargos dezenas de lideranças com as batinas manchadas de vergonha. E esse mesmo papa é o que suspendeu a excomunhão dos bispos tradicionalistas e reacionários do Monsenhor Lefevbre e anunciou sua renúncia em latim. Muitas coisas diferentes, boas e más.

Se fosse tão fácil decidiu por uma ou outra coisa não teria ficado esse silêncio gelado e solitário que envolveu a Praça São Pedro quando as telas que retransmitiam a cerimônia se apagaram, essa sensação de que nesta renúncia havia algo profundo e surpreendente, escandaloso e doloroso até as lágrimas para quem tem fé, uma ruptura do destino que nenhuma interpretação pode abarcar. Encarnado na renúncia de Bento XVI, o Vaticano ofereceu ao universo cristão um dos episódios mais sórdidos que se conhecem. Não há, em Roma, um livro que não fale de decadência, sexo, corrupção, manipulações, disputas rasteiras, que não evoque, por outro lado, a figura de um papa que quis mover algumas peças e terminou por derrubar o tabuleiro.

Em cada página desta grande narração moderna há um detalhe polêmico, começando pelo principal, o ato que ativou o relógio da renúncia, ou seja, os documentos roubados do papa. Ninguém sensato pode acreditar que um mordomo seja capaz de fotocopiar 2.600 folhas de documentos secretos retirados da própria habitação do papa sem que os guardas do menor e mais vigiado Estado do planeta se dessem conta. Mistérios mais profundos que os da própria cruz.

Isso era repetido pelos homens e mulheres ainda habitados pela fé, as freiras que trabalham com os pobres, os que, em nome de Deus, dão sua vida pelo próximo: “por que ele se foi realmente? Qual o segredo final desta imensa derrota?”. A debilidade, os escândalos, as lutas pelo poder, o cansaço. Cada pessoa tem uma teoria, uma vela para iluminar a breve verdade. Ratzinger e a Igreja Católica ainda são perseguidos pela sombra de João Paulo II, o papa anterior que desenhou com uma habilidade de bruxo o desastre de hoje. A tal ponto que Bento XVI é como um homem invisível nos arredores do Vaticano. Nos quiosques de bugigangas e recordações há mais fotos e imagens de João Paulo II que do papa que foi embora ontem.

Tapado pela sombra do predecessor, Bento XVI existiu plenamente junto com os escândalos e sua renúncia: a visibilidade extrema do que se vai. E agora vem o conclave para mudar de época e de igreja, ou só de fachada. Bento XVI publicou um decreto por meio do qual autoriza os cardeais eleitores a antecipar a reunião para escolher um novo caminho. As nódoas de antes estarão presentes: muitos dos cardeais acusados de encobrir a pedofilia estarão presentes. Os cardeais têm entre 15 e 20 dias para designar seu sucessor. Segundo a vontade de Ratzinger, serão necessários pelo menos dois terços dos votantes para escolher o próximo papa. O mais denso destes meses permanecerá secreto.

O papa decidiu que o informe realizado por uma comissão de três cardeais sobre os escândalos que açoitaram o Vaticano nos últimos meses permanecerá sob sete chaves: só poderá ser conhecido por seu sucessor. Por via das dúvidas, Ratzinger se adiantou à modernidade e proibiu que os cardeais reunidos no conclave vazem informações por meio do Twitter ou outros canais. De todo modo, é muito tarde: já saíram de seus espaços privados milhares de documentos. Em um par de meses haverá dois papas no Vaticano: o novo e o que se foi, que viverá em um convento da cidade papal. Ao invés do “cardeal Ratzinger”, como quer a tradição uma vez que não se é mais papa, seguirá sendo chamado de “Bento XVI”. Em resumo, haverá dois sumos pontífices. Talvez um seja inimigo do outro, ou um cópia do outro, ou somente sua marionete.

Tradução: Katarina Peixoto

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