Pelo Mundo

As escaramuças políticas por trás dos protestos na Colômbia

 

14/09/2020 15:40

 

 
Os protestos em repúdio à morte do advogado Javier Ordóñez por abusos policiais, que estão ocorrendo em Bogotá, já começaram a ser observados em outras partes do país, gerando uma crise que já produziu 10 vítimas em menos de uma semana, além de uma crescente onda de abusos policiais. Politicamente, o momento passa, acima de tudo, pelas três figuras centrais da política colombiana, que ainda estão definindo a forma como seus setores vão reagir ao que está acontecendo.

Eles são o presidente Iván Duque (extrema direita), o principal senador da oposição, Gustavo Petro (esquerda) e a prefeita de Bogotá, Claudia López (centro). Está última é a figura decisiva, já que em suas mãos estão as decisões que orientam os acontecimentos na capital. No caso do legislador, há uma tentativa de capitalizar o descontentamento. Por sua parte, o mandatário e seu setor acusam as forças de oposição, principalmente as de esquerda, de serem as principais promotoras das reivindicações, que já se espalharam por cidades como Medellín, Barranquilla e Cali.

As ruas continuam ardendo

No segundo dia de protestos, as manifestações foram sentidas em outras cidades do país, não só na capital Bogotá. Muitas acabaram em confrontos com a polícia, segundo autoridades e usuários das redes sociais.

A prefeita Claudia López tenta se equilibrar entre atuar como uma presidenta, ser empática aos que responsabilizam a polícia pelas mortes, mas, ao mesmo tempo, ser também a chefa da instituição que está sendo acusada, e ter que comandá-la para superar essa crise.

Por sua parte, Petro convida as pessoas a se manifestarem contra uma “ditadura cínica”, em referência ao governo de Duque.

Por sua parte, o presidente alimenta a indignação ao defender cegamente a Força Pública e insistir em seu discurso de que os assassinos são apenas “maçãs podres”, embora haja cada vez mais vídeos mostrando abusos.

O que eles fazem não tem apenas efeitos imediatos no protesto, mas também é importante porque afeta a polarização que o país vive há anos, e que provavelmente acabará definindo a corrida presidencial em 2022.

Duque joga gasolina na fogueira

Diante da morte de Javier Ordóñez em Bogotá, após o abuso de alguns policiais que o submeteram a armas de choque elétrico, o presidente Iván Duque colocou seus funcionários em contato permanente com a Prefeitura de Bogotá. Entre eles, o ministro da Defesa, Carlos Holmes Trujillo, o vice-ministro do Interior, Daniel Palacio, e o diretor administrativo presidencial, Diego Molano. Todos com a missão de defender polícia.

Seu discurso é repetitivo: admite os abusos, mas diz que se tratam de exceções na instituição, apenas “maçãs podres”.

Nas redes sociais, esse relato nada mais faz do que estimular a publicação de mais e mais novos vídeos, nos quais se vê cada vez mais abusos policiais vistos contra manifestantes e cidadãos, deixando claro que não são casos isolados.

Como representantes do uribismo (setor liderado por Álvaro Uribe, padrinho político do presidente), Duque e seu governo apostam na defesa da instituição policial, em uma estratégia de segurança que prioriza a ordem do Estado como fórmula para responder à sensação de caos gerada pelos protestos e atos de vandalismo.

Mas, a julgar pelos comentários nas redes e pela raiva que é vista nas ruas, sua posição está adicionando mais combustível à indignação, pelo menos entre um setor da cidadania.

Além disso, Duque tem permanecido calado diante dos pedidos de reforma da polícia, vindos não só da oposição como também da prefeita de Bogotá, Claudia López, e de entidades como a Ouvidoria (liderada por um aliado do governo) e o Ministério Público.

Reforma da polícia, sem ambiente político

No Congresso, os senadores Iván Cepeda (centro-esquerda), Antonio Sanguino (ambientalista) e a deputada Maria José Pizarro (esquerda feminista) apresentaram um projeto de lei que visa, entre outras coisas, que as polícias não usem armas como pistolas de choque nos protestos.

Na próxima semana, Cepeda protocolará mais dois projetos: um para que a polícia esteja sob o comando do Ministério do Interior, e não mais das prefeituras, e outro para que os atos das polícias não sejam julgados pela Justiça Militar, mas sim pela Justiça comum. Ambas são reformas que apontam ao cerne da questão, e que exigiriam pelo menos um ano para serem debatidas e votadas, pois seriam alterações à Constituição. Embora haja tempo para processá-las neste mandato, ao menos por enquanto não há maiorias para aprová-las. Tanto Cepeda quanto Pizarro admitiram que “não há vontade política” de reformar as Forças Militares, com um Congresso maioritariamente apoiador do governo, e que o mais provável é que os projetos sejam arquivados.

“Não tenho ilusões sobre este governo. Vamos insistir, mas a verdade é que, para que essa mudança aconteça, temos que esperar dois anos, por um novo governo, porque eles têm maioria no Congresso”, explicou Cepeda.

Nas duas intervenções públicas que fez a respeito dos protestos e dos excessos policiais, o presidente Duque pediu que se evitasse a estigmatização da polícia: “em hipótese alguma podemos aceitar como país que se estigmatize os policiais, que chamem de assassinos aqueles que devem cuidar dos cidadãos”, disse ele.

O ministro da Defesa, Carlos Trujillo, usou tom semelhante: “pedimos a não estigmatização da instituição policial, que é amada pelos colombianos, e que não culpem injustamente todos os seus membros por condutas cometidas por alguns”.

Situação que confirma que o governo de Duque mantém um desligamento com as ruas, como aconteceu na greve de 21 de novembro do ano passado, em que parte dos motivos dos protestos foi o desacordo com as políticas do presidente.

“É uma grande oportunidade perdida que ele não tenha dito que existem problemas graves com a polícia, que muitos reconhecem. Duque perdeu a possibilidade de mostrar que ouve as pessoas”, disse o analista político Sergio Guzmán.

Duque, seus ministros e outras autoridades abordaram diretamente a situação, instalando um Posto de Comando Unificado, realizando reuniões com a prefeita López, anunciando mais força policial na capital e exigindo que o Ministério Público resolva rapidamente o caso do assassinato de Ordóñez.

Porém, para os analistas consultados, não houve sinais de empatia direta com a rua em tempos de crise. “A desconexão de Duque é clara, ele não está do lado do povo”, acrescentou o sociólogo Carlos Suárez.

Prova disso é que o presidente deixou de mencionar o nome de Javier Ordóñez na quarta-feira (9/9), quando as imagens de como ele foi atacado pela polícia já eram virais. “Vimos acontecimentos dolorosos hoje, mas também a atitude correta do comando policial e do Ministro da Defesa, para levar adiante as investigações”, afirmou Duque, justo na celebração do Dia dos Direitos Humanos.

Na quinta-feira (10/9), ao meio-dia – quase 36 horas após a morte de Ordóñez, e quando a indignação já era evidente –, ele mencionou o caso duas vezes, ao pedir as investigações fossem rápidas. Há de se acrescentar, também, que embora a morte de Ordóñez tenha sido o que levou as pessoas às ruas, a agitação social que começou em novembro do ano passado só saiu das ruas por causa da pandemia, que desativou temporariamente o protesto. Ademais, nesse período, as desigualdades sociais no país só aumentaram, e que o país já registra quase 20% de desemprego.

“O governo teve muitas oportunidades de mostrar que escuta e que pode mudar a vida das pessoas. A greve foi uma delas, mas demora muito para tomar decisões”, disse o cientista político Sergio Guzmán.

Já há mobilizações sociais convocadas para o dia 21 de setembro, programadas na capital e outras cidades, com várias organizações estudantis de universidades privadas e públicas prometendo reativar a mobilização ao nível do ano passado.

Um cenário propício ao capital político procurado pelo máximo adversário do presidente e do uribismo: Gustavo Petro.

Petro busca capitalizar um protesto que não é seu

Nas últimas 48 horas de manifestações, o principal senador da oposição, e adversário de López e Duque, se dedicou a usar sua conta no Twitter para reativar o protesto social e pedir a renúncia da liderança militar, afirmando que a demissão de policiais no protesto é “uma ordem nacional”.

Essas ações virtuais foram rejeitadas diretamente pelo uribismo.

Sem mencionar diretamente o presidente Duque ou o ministro Trujillo, o governo rechaçou “os apelos da oposição para buscar ganhos políticos nos protestos”.

Apesar dos apelos de Petro, a verdade é que não foi ele que levou as pessoas às ruas, como já não havia sido em novembro. Seis lideranças estiveram envolvidas na organização das últimas manifestações, entre elas universitários e sindicalistas, embora elas mesmas tenham admitido que a grande maioria dos participantes compareceram espontaneamente, através de mensagens em cadeias de WhatsApp, e que suas organizações foram minoritárias nos protestos.

Mesmo assim, não é menos verdade que Petro pode capitalizar apoio, pensando em 2022, se consegue mostrar seu projeto presidencial é o mais sintonizado com as demandas das ruas. Sua estratégia consiste em ser a cara do voto indignado e radicalizado, reforçando as críticas ao centro e ao uribismo (extrema-direita).

A rua é o palco preferido de Petro, sua campanha em 2018 mostrou isso, mas é diferente tentar usar as ruas fora de um período eleitoral.

“Se voltamos à normalidade, os tempos políticos podem levar a uma situação que parecerá como uma continuação da campanha que Gustavo Petro havia iniciado em 2018”, disse o analista Carlos Suárez.

Para a deputada Maria José Pizarro, da esquerda feminista, a ideia é não capitalizar politicamente o protesto. Em sua opinião, o que move as marchas tem a ver com a insuficiência de medidas do governo em questões econômicas, educacionais e ambientais, entre outras.

“Os responsáveis %u20B%u20Bpelos protestos são os que governam. Quem está no governo? Quem tomou medidas insuficientes? Quem não conseguiu implementar uma renda básica ou a gratuidade nas mensalidades?”, questionou a legisladora.

Ela também recorda os 55 massacres que ocorreram no país este ano, e a incapacidade do governo de implementar o Processo de Paz, que não está progredindo como deveria, além dos relatos de abusos e estupros policiais no Exército, que também são visíveis.

Todas são causas que Petro comenta constantemente em suas redes, em seus discursos no Congresso, e por isso ele tenta agora utilizar essas bandeiras como parte de sua campanha pela presidência, mas também de sua oposição à prefeita Claudia López, a quem acusou de “passividade” diante de “um massacre de Duque contra o povo de Bogotá”.

Já a prefeita de Bogotá preferiu não responder diretamente. Sua reação aos protestos, além de ações governamentais como liderar os conselhos de segurança e o comando policial, consiste em acompanhar as famílias das vítimas e feridos, pedir aos cidadãos para que fiquem em suas casas a partir das 19h, e acusar o governo de Duque e a polícia do ocorrido, numa tentativa de mostrar equilíbrio.

López na tarefa de equilibrista na corda bamba

A prefeita de Bogotá, Claudia López, está em uma posição incômoda, não só pelo tremendo desafio que enfrenta, mas também porque passou de ser uma das figuras políticas que apoiavam a greve nacional do ano passado, a ser a líder municipal que tem a responsabilidade de comandar a polícia, principal alvo dos protestos de agora, e uma instituição que reprimiu essas vozes de protesto – e que parece não se submeter a ela.

Por outro lado, ela se mostrou uma presidente empática diante da dor e da indignação dos cidadãos, distanciando-se do presidente Iván Duque.

A prefeita não só reconheceu que houve abuso policial, mas também acompanhou pessoalmente a denúncia no Ministério público, em função das sete pessoas que morreram nos protestos, por armas de fogo usadas pela polícia, e também das 58 feridas pelo mesmo motivo.

Ela descreveu as ações de alguns membros da polícia como um “ataque” e um “massacre” contra cidadãos de Bogotá. A posição foi rejeitada pelo presidente Duque, que pediu a ela que criticasse “os vândalos, e não a polícia”.

López acrescentou que seu governo vai prestar assistência jurídica e psicossocial às famílias das vítimas, e que fará todo o possível para que esses casos não fiquem impunes.

Além disso, pediu a Duque e aos parlamentares que fizessem uma reforma estrutural da polícia, para que mudassem os protocolos, e que casos como os de Javier Ordóñez e Dylan Cruz (assassinado durante os protestos no ano passado) não fossem julgados pela Justiça Militar, e sim por um tribunal civil.

Esse pedido está em sintonia com o que a cidadania exige nas ruas.

Por outro lado, como prefeita, Claudia López é a chefa da polícia que acusa, e a política encarregada de suas orientações em um protesto.

Apesar da denúncia que fez, ela também tentou mostrar empatia com a instituição: por exemplo, visitou alguns dos 147 policiais feridos nos protestos.

Seu cargo já está lhe rendendo algumas críticas, devido às que ela mesma fez no passado ao seu antecessor, Enrique Peñalosa, também devido aos abusos cometidos pelas polícias quando ele as chefiava e ordenava repressão aos protestos.

Embora tenha tentado implementar um protocolo baseado no diálogo, para que os protestos não terminem em excessos, é claro que essa aposta não está dando certo em Bogotá.

Ao menos 50 delegacias foram incendiadas na primeira noite de manifestações, na quarta-feira (9/9). No dia seguinte, ela pediu às pessoas voltassem para casa às 19h, sem toque de recolher. Houve protestos mesmo assim, e mais abusos policiais em várias regiões da cidade.

Esses eventos deram a Petro argumentos para criticá-la.

O analista Carlos Suárez disse que Petro não vai perder nenhuma oportunidade de tentar desacreditar Claudia López, porque ela é quem representa o centro, que será seu maior adversário nas eleições de 2022.

Por enquanto, ela reage como Duque, sem responder nem mencionar nada a respeito das consequências eleitorais disso. A partir das suas redes, López fala constantemente com os cidadãos, atribuindo as responsabilidades diretamente ao governo nacional.

*Publicado originalmente 'La Silla Vacía' | Tradução de Victor Farinelli



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