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As vacinas contra a covid-19 de Cuba servem ao povo, não aos lucros

 

15/02/2021 14:01

(Natalie Maynor - CC BY 2.0)

Créditos da foto: (Natalie Maynor - CC BY 2.0)

 
A abordagem socialista de Cuba ao desenvolvimento de vacinas contra a covid-19 difere da abordagem das nações capitalistas do mundo. A produção de quatro vacinas por Cuba é baseada na ciência e dedicada a salvar as vidas de todos os cubanos e à solidariedade internacional.

A reportagem do NYT sobre os programas de vacina do mundo mostra 67 vacinas que avançaram para a testagem em humanos; 20 delas estão na fase final de testes ou os completaram. Os EUA, China, Canadá, Reino Unido, Alemanha, Coréia do Sul e Índia produziram muitas vacinas cada um; a maioria dos países produtores de vacinas estão oferecendo uma ou duas vacinas.

Cuba é o único produtor de vacinas na América Latina; não há nenhum na África. As únicas entidades estatais produzindo as vacinas mais importantes são as de Cuba e Rússia.

O Instituto Finlay de Vacinas de Cuba produziu duas vacinas contra a covid-19. Os testes para uma delas, chamada Sovereign I, focam na proteção de pessoas previamente infectadas pela covid-19. Os níveis de anticorpos de algumas dessas pessoas acabaram sendo baixos, e a vacina pode fornecer um estímulo quanto a isso.

A outra vacina, Sovereign II, está prestes a entrar na fase final de testes em humanos. Para uma proteção verificada, esses testes precisam de dezenas de milhares de pessoas, metade recebendo a vacina e a outra metade recebendo um placebo. A população de Cuba é relativamente pequena, 11 milhões de pessoas, muito pequena para conseguir a quantidade suficiente de pessoas infectadas no curto período de tempo exigido para testar o efeito protetivo da vacina. É por isso que a Sovereign II será testada no Irã.

100 milhões de doses da Sovereign II estão sendo preparadas, o suficiente para imunizar todos os 11 milhões de cubanos, começando em março ou abril. As 70 milhões de doses remanescentes vão para o Vietnã, Irã, Paquistão, Índia, Venezuela, Bolívia e Nicarágua. A Sovereign II “será a vacina da ALBA”, explicou a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, se referindo à aliança de solidariedade estabelecida em 2004 pelo presidente venezuelano Hugo Chávez e Fidel Castro de Cuba.

“A estratégia de Cuba de comercializar a vacina representa a combinação do que é bom para a humanidade e o impacto na saúde global. Não somos uma multinacional que prioriza o objetivo financeiro”, diz Vicente Vérez Bencomo, diretor do Instituto Finlay. A renda gerada pela venda de vacinas ao exterior e pela exportação de serviços médicos e remédios pagará pela educação, assistência médica e aposentadorias em Cuba.

O Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia de Cuba está desenvolvendo duas outras vacinas; uma, chamada “Mambisa” (que relembra uma combatente espanhola das guerras por liberação), é administrada por via nasal, assim como a vacina cubana contra a hepatite B. A outra vacina, chamada “Abdala” (personagem no poema de Jose Martí) é administrada de maneira intramuscular. As duas vacinas estão nas testagens iniciais.

Cuba estava preparada

A educação cubana enfatiza a ciência e a tecnologia. Nos anos 90, Cuba representava 11% dos(as) cientistas doutores(as) na América Latina. Cientistas cubanos(as) trabalham nas quase 50 instalações de pesquisa e produção biomédica que, juntas, forma a estatal Corporação BioCubaFarma, e que produz vacinas, remédios, testes médicos e equipamento médico. Produz 60% dos remédios usados em Cuba e 8 de 12 vacinas.

Cuba produziu anteriormente uma vacina pioneira que impede uma infecção mortal causada pelo tipo B meningocócico. Cuba desenvolveu uma vacina contra a hepatite B projetada geneticamente e uma vacina que oferece um tratamento paliativo para o câncer de pulmão. Uma vacina desenvolvida por Cuba oferece proteção contra infecção, particularmente a meningite infantil, causada pelo tipo B da bactéria hemófila influenza.

Na produção de vacinas, cientistas cubanos recorreram a tecnologias já conhecidas.

Para fornecer um adicional imunológico, o antígeno da vacina Sovereign II de Cuba é misturado com tétano, como foi feito com a vacina cubana contra a influenza hemófila. Como com outras vacinas, os cientistas usaram um segmento da proteína do vírus – aqui a do vírus covid-19 – para formar um antígeno para estimular anticorpos protetivos. Ao contrário, as vacinas da Moderna e Pfizer contêm toda a proteína viral, não um segmento. Essa proteína contém “instruções genéticas” que entram em células humanas, fazendo com que “aumentem as proteínas, que então são liberadas no corpo” onde acionam anticorpos.

Observadores sugerem que essa tecnologia inovadora dos EUA pode ser menos segura do que a usada nas vacinas cubanas. Sem a exigência de armazenamento frio, como as vacinas dos EUA, as vacinas cubanas são adequadas para regiões sem capacidades refrigeratórias adequadas.

O setor de produção biomédica cubano também criou remédios para tratar infecções pela covid-19. O Interferon, um agente antiviral desenvolvido em Cuba, produzido na China, e usado no mundo, impede que muitos pacientes infectados pela covid fiquem em estado grave. O remédio anti-inflamatório Jusvinza, usado para tratar doenças auto-imunes, e o anticorpo monoclonal Itolizumab, que modera respostas imunes exageradas, ambos são eficazes na redução de mortes por covid.

O outro jeito

A abordagem dos EUA na produção e distribuição das vacinas contra covid-19 é baseada nas iniciativas privadas, embora o governo dos EUA tenha entregado bilhões de dólares para empresas farmacêuticas produzirem vacinas gratuitas para os beneficiários. As empresas fizeram contratos com compradores estrangeiros.

De acordo com a forbes.com em novembro de 2020, “se a vacina da Moderna conseguir aprovação da FDA e conseguir doses suficientes, seu rendimento pode ser quase $35 bilhões maior ... do que ... nos últimos 12 meses”. Outra reportagem sugere que, “as empresas (Pfizer e Moderna) estão prestes a lucrar bilhões de dólares com suas vacinas contra a covid-19 esse ano e veremos mais lucros nos próximos anos”. As empresas “reivindicam direitos à vastas quantidades de propriedade intelectual”.

Com as corporações no comando, a distribuição das vacinas contra a covid-19 está enviesada. Em 27 de janeiro, “cerca de 67 milhões de doses foram enviadas, dessas, 93% foram fornecidas para somente 15 países”. Na América Latina, somente o Brasil, Argentina, México e Chile garantiram contratos de compra adequados para imunizar populações inteiras. Os contratos das empresas com nações africanas permitem a imunização de somente 30% dos africanos em 2021. Uma imunização significativa ainda não começou na região.

A divisão de riqueza determina a distribuição. Epidemiologistas da Universidade Duke reportam que, “enquanto países de alta renda representam somente 16% da população mundial, eles atualmente possuem 60% das vacinas contra covid-19 que foram compradas até agora”. Randy Alonso, jornalista cubano reporta que somente “27% da população total de países de renda média ou baixa podem ser vacinados esse ano”.

“O mundo está à beira de um fracasso moral catastrófico – e o preço desse fracasso será pago com vidas nos países mais pobres do mundo”, declarou o Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor da OMS, em 18 de janeiro. Ele alertou que, “alguns países e empresas continuam a priorizar acordos bilaterais, ignorando a COVAX, aumentando preços e tentando furar a fila”.

A OMS iniciou a colaboração de vacinação global COVAX para garantir o acesso de nações pobres às vacinas contra covid-19. As 190 nações que estão no acordo concordaram em obter vacinas por meio da COVAX. Nações ricas forneceriam fundos para a COVAX distribuir vacinas gratuitas a 90 nações pobres. A COVAX antecipa distribuir dois bilhões de doses, o suficiente para imunizar somente 25% das populações de nações pobres durante 2021.

Problemas incluem: nações ricas pedem vacinas por outros meios sem ser pela COVAX; elas compram mais vacinas do que precisam; os produtores estabelecem preços; e os preços são secretos, variáveis e muito altos.

A maioria dos outros países produzindo vacinas contra a covid-19 está em discrepância com Cuba através dos seus lucros e porque são complacentes com o bloqueio econômica dos EUA a Cuba. Direto ao assunto, o embargo estadunidense prejudica os esforços vacinais de Cuba, e eles estão em silêncio.

“Não temos em Cuba todos os materiais e fornecimentos que precisaremos para a escala de produção sem precedentes que vacinar uma população inteira exige”, disse Dagmar García-Rivera, diretora de pesquisa no Instituto Finlay. “Eles têm que ser comprados e, para isso, precisamos de financiamento. Isso acaba ficando infinitamente mais difícil por causa do embargo dos EUA...obter os reagentes necessários para pesquisa e os materiais para produção é o desafio que enfrentamos diariamente.”

Confrontando a pandemia, Cuba exibe atenção a detalhes que sugere um nível de cuidado e preocupação não encontrados em nenhum outro lugar. Por exemplo, o website pró-governo cubadebate.cu fornece uma atualização diária, detalhada, do impacto da infecção. Seu relatório em 27 de janeiro apresenta dados sobre cidades, províncias, a nação, e o mundo – e sobre as UTIs da nação. Os leitores podem ver que dos 43 pacientes na UTI naquele dia, 16 estavam em estado crítico, estáveis ou instáveis, e 27 em estado “grave”.

Todos os 43 casos são analisados, começando com: “cidadão cubano, 75 anos, de Alquízar, em Artemisa, que já sofria com hipertensão arterial e cardiopatia isquêmica que não possui febre, em ventilação mecânica, está hemodinamicamente estável ... com oxigenação aceitável, está melhorando radiologicamente com lesões inflamatórias na base direita do pulmão – reportado como crítico, mas estável”. Os casos de quatro cubanos que morreram nesse dia também são apresentados.

Lutar contra uma pandemia em Cuba, é compreensível, não é um assunto ocasional. Como não é a saúde do povo cubano.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Isabela Palhares

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