Pelo Mundo

As vozes da ocupação da (C)omissão Nacional de Direitos Humanos do México

Os escritórios do CNDH, no Centro Histórico da capital mexicana, nunca haviam honrado melhor seu papel. Dezenas de mulheres cansadas da violência e da injustiça asseguraram-se de que assim fosse, ao tomar o prédio em apoio às vítimas. Estas são suas vozes

21/09/2020 12:08

(Reuters)

Créditos da foto: (Reuters)

 
No dia 4 de setembro, grupos feministas e mães de vítimas ocuparam o edifício da CNDH (Comissão Nacional de Direitos Humanos do México), no Centro Histórico da Cidade do México – hoje, rebatizada como Casa Refugio “Ni Una Menos”.

Já se passaram vários dias desde que Silvia Castillo e Marcela Alemán se amarraram a suas cadeiras durante uma reunião com autoridades, na qual não recebiam o apoio que buscavam para resolver os casos de suas filhas. A de Silvia foi assassinada em 2013 e a de Marcela foi estuprada quando tinha quatro anos. Em seguida, veio María Icela Valdez, mãe de Roberto, desaparecido em 2014. Há pouco mais de um ano, María se ajoelhou diante do presidente Andrés Manuel López Obrador, num gesto desesperado, porque, além do cansaço físico e emocional da busca seu filho havia recebido ameaças das autoridades da região de Reynosa Tamaulipas, onde seu filho foi visto pela última vez.

No início deste “mês da independência” no México, mulheres indignadas com a falta de respostas contactaram grupos feministas da capital e, naquela sexta-feira 4 de setembro, pela manhã, invadiram o edifício do CNDH e anunciaram que iriam converter as instalações em refúgio para vítimas.

Uma semana e meia depois, ao contrário do silêncio que as ruas costumam escutar nos dias após uma marcha, esse ato de protesto não só continuou como se espalhou como uma faísca no meio de uma floresta seca, alcançando várias outras cidades.

Apesar disso, na rua República de Cuba, onde tudo começou, o dia 10 de setembro, seis após o início da ocupação, foi marcado pelo sentimento de paz. Era possível ouvir o riso de mulheres abrigadas atrás de portas e paredes pintadas com as frases “nem uma a menos” e “vivas nos queremos”. Risadas que poderiam ser mais adequadas em uma festa do pijama com amigas, mas talvez não em um edifício institucional. Um gesto que representa a raiva e o desespero de milhares de vítimas que não receberam justiça, em um país atormentado pela violência e pela impunidade.

Por que elas estão rindo? Será porque tiveram sucesso em seu objetivo, e não podem acreditar? Ou porque rir é o mecanismo de defesa que as pessoas usam para enfrentar a incerteza e a dor?

Por fora, a área de protesto parecia “limpa”, já que nem os prédios próximos ao antigo CNDH tinham sequer uma mancha, nem o asfalto ou as calçadas dos prédios ao redor. Mas olhando diretamente para o refúgio, uma das primeiras coisas que chama a atenção é uma placa com a bela frase de Benito Juárez: “respeito pelos direitos dos outros é paz”. Porém, embaixo da placa, alguém deixou uma pergunta em tinta preta: “Que respeito?”. Do lado, está outra frase: “a justiça está crucificada nos altares da capital”. E assim, demanda após demanda, tem se refletido, em diferentes cores de pintura agressiva, em toda a fachada.

Sinais diferentes também estão pendurados nas varandas. “Ninguém vai mexer mais com as meninas”. “Feminicídio México”. “Onde estão as minhas amigas?”. Mas nem tudo são frases, também é possível ver rostos nas fotos de centenas de pessoas desaparecidas, cujos ficaram engavetados em um arquivo dentro de um prédio, juntando poeira.

Pouco antes do meio-dia, a rua começa a se encher com a presença de repórteres e aliados, que chegam para entregar alimentos, mas cada vez mais vítimas também chegam, em busca de refúgio. Elas vão para a tenda montada em frente ao prédio, onde mulheres ativistas recebem doações e vendem bonés, garrafas térmicas e canecas para arrecadar fundos para seu novo espaço. A maioria delas tem o rosto totalmente coberto, com máscaras e óculos escuros. Elas também usam bandanas roxas, representativas do movimento feminista, e lenços verdes, que sinalizam seu apoio à legalização do aborto.

Entre as principais porta-vozes da ocupação está Yesenia Zamudio, que comanda a Frente Ni Una Menos. Ela é a mãe de Marichuy Jaimes, assassinada em 2016. Também está Erika Martinez, que há três anos luta pela filha, que foi abusada sexualmente quando tinha 7 anos – ela sai do prédio todos os dias para falar sobre isso com a mídia.

Enquanto Érika fala sobre como foram os últimos dias para ela, as lágrimas escapam de seus olhos, e o que ela diz é surpreendente. “Para mim, tudo isso que está acontecendo na minha vida não tem nome. Estou super animada, muito feliz. Essas lágrimas não são mais de dor, são de alegria”.

Quando perguntei o que ele achava que era necessário no país para impedir que esse tipo de injustiça acontecesse, ele respondeu: “levantar a voz. Se eu soubesse há três anos que fazer isso iria funcionar, eu teria feito no mesmo dia em que minha filha foi abusada”.

Essas mulheres estão ali em busca de justiça, não só para elas mesmas, mas para todas as mexicanas que passam por situações semelhantes. Apesar dos níveis de impunidade que prevalecem em todo o país, em termos de acesso à justiça, “ser cidadão da Cidade do México é um privilégio, e queremos garantir que todos tenham esse mesmo privilégio perante as autoridades”, confirma Erika.

Karina Vergara chegou ao abrigo com doações e bonecas de pano para as meninas, ela é uma mulher mexicana que apoia abertamente a luta feminista, e garante que essa ocupação faz parte de um processo histórico. “O que as mulheres fazem nunca é gerado pela espontaneidade, mas porque temos uma genealogia de luta que já se arrasta há muito tempo, e isso é apenas mais um passo nessa luta”. Acompanhada da filha, ela afirma que não será um evento isolado. “Não acho que seja a primeira nem a última (ocupação). É um dos muitos outros incêndios que vão haver (…) e se eles não entenderem, então tudo terá que ser queimado”.

Karina estava certa. Até o momento, as sedes das comissões de direitos humanos dos estados de Puebla, Tabasco, Veracruz e do Estado do México foram ocupadas para serem transformadas em abrigos, a exemplo do que aconteceu no centro do país.

Na tarde do dia 10 de setembro, Mariana Rojas Wah, presidenta do Girl Up da Cidade do México – iniciativa das Nações Unidas que busca empoderar meninas adolescentes –, apoiou a ocupação da CODHEM (Comissão de Direitos Humanos do Estado de México), por meio da divulgação de informações em redes sociais. Mariana e suas companheiras observavam atentamente a situação quando se tornou público que as autoridades haviam entrado para desocupar o prédio, e que estavam prendendo e transferindo mulheres com o uso da forçam em veículos não identificados. Cerca da 1h30 da madrugada de 11 de setembro, decidiram ligar para a Promotoria de Atizapán, onde teriam sido detidas 11 mulheres, entre elas uma jovem grávida e duas menores. José Antonio Sánchez Hernández atendeu a ligação e garantiu que as pessoas que foram detidas no CODHEM não estavam presentes na delegacia, e que não haviam denúncias. No entanto, Mariana e suas companheiras, preocupadas com a inconsistência das informações que receberam, decidiram recorrer ao Ministério Público para apurar os fatos e apoiar as mulheres detidas.

No gabinete do promotor, elas se reuniram com diferentes grupos feministas, incluindo participantes da ocupação do CNDH, que deixaram o protesto para apoiar as detidas.

“Agentes de segurança entraram para nos reprimir, usaram a força, gás lacrimogêneo, cassetetes, puxaram pessoas, chutaram pessoas e houve até ameaças de tiro”, lembra Mariana Rojas Wah.

Em meio ao caos, elementos da polícia levaram várias outras mulheres com o uso da força, incluindo Marian Velázquez Mejía, de 19 anos, membro da Secretaria Jurídica do Girl Up da Cidade do México – ela ficou completamente isolada entre as 3h e as 10h, e não deram a ela permissão nem mesmo para dar um telefonema.

“Às 8h, um advogado do Ministério Público apareceu para confirmar a lista de detidas. Antes, a única resposta que as autoridades nos davam é que não podiam negar ou afirmar nada”, lembra Mariana Rojas Wah.

Quando a mãe de Marian perguntou de que crime sua filha era acusada, eles não responderam. A filha e o resto das mulheres detidas foram libertadas por volta das 10h. Em um vídeo publicado nas plataformas do Girl Up, Marian Velázquez Mejía relata que foi arrastada, chutada e espancada por elementos da polícia, dentro da Promotoria de Atizapán. “Eles me jogaram no chão, me chutaram, me chamaram de puta, vadia, filha da puta e fizeram várias ameaças de morte”, relatou.

O governador do Estado de México, Alfredo del Mazo, disse em seu perfil do Twitter que o governo “condena as ações da política contra as mulheres que se manifestaram no CODHEM”. Por outro lado, a Prefeitura de Atizapán assegurou que seus elementos não participaram dos atentados, e que as autoridades indicaram que não foram os policiais municipais os que participaram da prisão e transferência das mulheres.

A desconfiança de grande parte dos cidadãos com relação às autoridades do país não é segredo. Em 12 de agosto de 2019, mais de 300 mulheres se manifestaram na Cidade do México para exigir punição de policiais acusados %u20B%u20Bde estuprar menores. A marcha culminou na sede da promotoria local.

No México, a violência de gênero tira a vida de 10 mulheres por dia. Só no ano passado, houve quase 3 mil mulheres assassinadas, embora apenas 726 dos casos tenham sido investigados como feminicídios.

A faísca que foi acesa na Cidade do México alimentou uma luta expansiva que está crescendo e está longe da extinção, alimentada pela raiva de Yesenia, a dor de Erika, o desespero de Silvia e Marcela… o grito de milhões de mulheres mexicanas que não encontraram outra forma de ter acesso à justiça e defender o que lhes foi tirado. Essas mães, como muitas outras, estão roucas, mas não roucas, de tanto gritar o nome de suas filhas e seus filhos.

*Publicado originamlente em 'Gatopardo' | Tradução de Victor Farinelli



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