Pelo Mundo

Ativistas agredidos por policiais em frente ao Congresso espanhol

27/07/2011 00:00

Hernan Silenus/Blog #Acampadasol Madri

Créditos da foto: Hernan Silenus/Blog #Acampadasol Madri
Integrantes do movimento 15-M de toda a Espanha, que estão reunidos durante esta semana em Madri, pretendiam hoje (27) entregar aos deputados federais, em ato frente a uma das entradas do Congresso Nacional, um documento intitulado "Problemática de los Pueblos", que contém queixas e propostas políticas recolhidas em mais de 300 diferentes povos espanhois, na maioria núcleos rurais e pequenas cidades, pelos participantes da Marcha Popular Indignada realizada durante 29 dias desde seis diferentes pontos do país, com o objetivo de expandir a luta por democracia real, iniciada na capital, a todo o território nacional. No entanto, antes do horário previsto para essa ação - por volta das 10h00 -, quando os parlamentares chegariam ao local para participar de um Pleno, os ativistas acampados no Passeio do Prado e frente ao Congresso foram desalojados com violência pela Polícia.

Por volta das 7h00, dezenas de guardas munidos de cassetetes ocuparam os espaços das duas acampadas, despertando alguns dos jovens que ainda dormiam, com a ordem de que recolhessem suas tendas e demais pertences. Uma garota, que trazia um hematoma no braço esquerdo e era vigiada por dois policiais, enquanto guardava sua bagagem num carro, contou que ela e outros companheiros foram arrastados pelo chão com violência por braços e cabelo, sem que tivessem tempo de reagir ou se preparar para a coação que sofriam. "Nos tiraram do caminho como se fôssemos objetos", contava a manifestante, comprovando o que dizia com imagens gravadas por celular. Ao mesmo tempo, outro guarda devolvia os registros de identidade de dois jovens, indicando que muitos haviam sido fichados. Quando cheguei ao local, próximo à Praça Neptuno, na hora marcada para o início da mobilização que acompanharia a divulgação do documento resultante da Marcha, a situação de conflito já havia passado do embate direto a uma guerra fria, que pairava entre os militantes do 15-M e diversas furgonetas da Guarda Urbana, bem como cordões de policiais formados em torno do Passeio do Prado e frente às quatro entradas para o Parlamento.

Alguns dos integrantes da Polícia cercaram os ativistas próximos à entrada principal do Congresso numa calçada estreita, utilizando grades de ferro, enquanto outros rodearam o Passeio do Prado, para impedir que os acampados pudessem se aproximar da zona de acesso ao edifício oficial, participando dos protestos. O curioso é que tais policiais decidiam quem poderia ou não atravessar a avenida julgando pela aparência de cada cidadão. Se fosse um jovem e trouxesse dreads, tatuagens, cuturno de punk, roupas simples, ou qualquer apetrecho típico de "indignado", era impedido de passar pela barreira de segurança. Quando observei que um garoto bem vestido havia sido liberado por um dos policiais, não pude conter minha inquietação, e perguntei: "Como e com base em que vocês decidem quem pode ou não atravessar o passeio?" O sujeito com expressão de mau-humor me respondeu de maneira ríspida: "Você quer passar? Se quer, vai logo". Logo em seguida, percebeu-se uma movimentação do outro lado da rua, indicando que um grupo de quatro integrantes do 15-M usando vestes formais havia conseguido entregar o documento com a problemática dos povos espanhois a um representante do Congresso. Nesse instante, o mesmo policial já não permitiu que eu e outros jovens nos movimentássemos para ver de perto o que sucedia ali.

Percebendo que nada mais conseguiriam dos parlamentares e que tampouco poderiam realizar uma ação com suficiente visibilidade para que fosse registrada pelos poucos veículos de comunicação presentes no local, os indignados localizados na porta do Congresso rumaram de volta ao Passeio do Prado, onde se somaram aos demais militantes para comemorar a entrega do manifesto popular a um encarregado do Parlamento. É verdade, porém, que ninguém pode ter certeza sobre se, de fato, algum deputado fará questão de ler o conteúdo daquele documento. Enquanto isso, a barreira policial prosseguia para determinados transeuntes, enquanto a outros era permitida a passagem com tranquilidade. "Você aí que tem boa aparência, dinheiro e que não pensa, pode passar. Já para você aí que pensa, a passagem está proibida", dizia um jovem indignado que se passava por integrante da Polícia para fazer piada com a situação, causando riso nos demais manifestantes sob olhares impacientes dos guardas.

Depois disso, sem outra escolha, os participantes da mobilização se reuniram no Passeio do Prado para realizar uma Assembleia Geral improvisada, em que decidiriam as próximas estratégias de divulgação do conteúdo do manifesto da Marcha, conforme promessa feita a cada um dos povos por onde passou a Marcha Indignada. Iniciou-se assim um longo processo de discussão, onde muitas ideias e opiniões foram apresentadas, sem que se pudesse chegar a um consenso. As principais propostas de ação eram: a entrega do documento ao coordenador da Esquerda Unida no Congresso Nacional, Gaspar Llamazares, com o qual alguns dos militantes do 15-M têm contato, para que ele lesse seu conteúdo ao Pleno do Congresso, e a tentativa de divulgar as reivindicações populares diretamente à sociedade, por meio de um trabalho de conscientização em diferentes bairros de Madri e também contato com meios de comunicação.

Quanto a essa última sugestão, embora todos estivessem de acordo, poucos propuseram formas de organização para que a estratégia fosse levada a cabo. Com relação à primeira hipótese, a discussão foi muito mais acirrada. "Permitir que um político leia as propostas feitas pelo povo é algo contraditório à ideia defendida pelo 15-M até agora de que nenhum político nos representa", discordou um jovem. "O que devemos entender é que o importante é fazer o documento da Marcha ser ouvido pelos parlamentares. Não importa quem lerá o manifesto porque essa pessoa não será representante do povo, mas apenas um porta-voz, que é necessário agora para que as reivindicações coletadas na Marcha sejam ouvidas pelos deputados", rebateu outro garoto.

Um receio de muitos dos presentes com relação a essa ajuda do coordenador da Esquerda Unida diz respeito à possibilidade, sempre existente, de que um político que se habilite a ser porta-voz da Marcha nesse momento, aproveite a oportunidade para exaltar interesses eleitorais, ou o poder de seu partido, assimilando as propostas populares como plataforma de campanha. Foram também levantadas as hipóteses de que não se deixaria um eventual porta-voz do povo falar no Pleno de hoje, ou que, caso sua intervenção fosse permitida, esse parlamentar poderia ler o documento da maneira como bem quisesse, ocultando ou modificando trechos do texto. Com tantas diferentes linhas de pensamento, o debate se tornou pesado e sem perspectivas de alcançar um consenso antes do término da reunião dos congressistas, prevista para as 13h30. Por volta das 13h00, um dos integrantes do 15-M pediu pressa, ao mesmo tempo em que um grupo de quatro representantes da Marcha Popular Indignada defendeu que participantes das diversas rotas da jornada se unissem novamente frente à entrada para o Parlamento, para tentar ler o documento aos deputados, ou ao menos divulgar mais uma vez seu conteúdo aos poucos jornalistas que ainda permaneciam diante do Congresso.

E assim fizeram. Posicionaram-se frente à barreira policial, tentando convencer os seguranças a permitir sua passagem. Porém, sem êxito nesse diálogo, fizeram o que podiam, dando uma entrevista a dois repórteres sobre o conteúdo da Marcha e o desrespeito à liberdade de expressão que estavam sofrendo. Nesse mesmo instante, dois senhores bem vestidos, com uma mala, puderam passar pelo bloqueio policial. Perguntei a um jovem quem eram, e ele disse: "Não sei, deixam passar quem aparenta ter dinheiro. Acho que você passaria. Se quiser, pode tentar". Essa foi minha resposta. E sobre ela ainda fiquei pensando algum tempo, comparando minha aparência com a dos manifestantes que me circundavam. Talvez o que me diferenciasse estivesse em que eu trazia roupa limpa e havia tomado banho, por ter passado a última noite num hostel, depois de dois dias dormindo em barracas do Passeio do Prado, compartilhadas comigo gentilmente por alguns dos acampados.

Os militantes mais engajados, dos quais eu estava acompanhada, tinham um esgotamento fìsico visível e podia-se notar que já levavam dias com o mesmo vestuário, sem duchar-se ou banhando-se em fontes públicas. Voltei a perceber em mim um sentimento de auto-reprovação que tem sido comum nos últimos dias, à medida que conheço a força de vontade dos peregrinos da Marcha, e confronto minhas próprias fraquezas.

Despertei-me desses pensamentos quando os indignados que tentavam ultrapassar a barreira policial começaram a ler em voz alta o artigo 19 da Constituição espanhola. O dispositivo legal, que diz: "Los españoles tienen derecho a elegir libremente su residencia y a circular por el territorio nacional. Asimismo, tienen derecho a entrar y salir libremente de España en los términos que la Ley establezca. Este derecho no podrá ser limitado por motivos políticos o ideológicos". O texto foi lido diversas vezes aos policiais, com diferentes vozes, bocas e entonações. Entre homens, mulheres, jovens e idosos, uma garota expressou o conteúdo da norma na linguagem dos sinais, para que fosse entendida por deficientes auditivos.

Essas várias leituras eram gravadas por comunicadores, que pareciam independentes por estarem sem credenciais, ou logotipos de empresas de comunicação, quando um dos policiais rebateu. "A Lei Orgânica contraria o que vocês estão dizendo", argumentou, mencionando uma norma que proibe manifestações no Congresso durante a realização de Plenos.

Diante disso, percebendo que os porta-vozes populares do documento da Marcha insistiam em vão, voltei ao Passeio do Prado, que continua tomado em parte pelas barracas não retiradas pelos policiais. Ali, a conversa dos integrantes do 15-M era sobre a organização de protestos para a noite de hoje, com o propósito de chamar a atenção da sociedade à repressão policial e às agressões sofridas por ativistas nesta manhã. Além disso, um comunicado no blog da Acampada de Madri dá todas as coordenadas para que os lesionados por policiais possam fazer suas denúncias. Enquanto alguns dos "indignados" vindos de outras partes da Espanha pensam em voltar para seus locais de origem antes de domingo, data inicialmente prevista para o fim do acampamento estabelecido com a chegada da Marcha a Madri, um calendário de reuniões de comissões temáticas do 15-M na capital espanhola foi divulgado, com encontros previstos para a começo da noite de hoje, e outros dias desta semana. Parece inteligente a ideia de, frente à atual opressão das forças policiais, aproveitar o momento para recuar com o objetivo de pensar sobre os objetivos do movimento e suas futuras ações. Estou de acordo com os militantes que avaliam como frente mais poderosa de luta a comunicação. O grande desafio vai ser superar a grande imprensa que cala sobre esses acontecimentos, criando e utilizando formas de livre expressão alternativas.

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