Pelo Mundo

Biden e Trump sobre a Venezuela: dois lados da mesma moeda.

Biden possui a mesma política e retórica usadas pela administração Trump

14/07/2020 12:07

Uma reunião entre o presidente venezuelano Nicolás Maduro e Joe Biden, como a ocorrida em janeiro de 2015, dificilmente se repetirá se Biden vencer as eleições noe EUA (AP)

Créditos da foto: Uma reunião entre o presidente venezuelano Nicolás Maduro e Joe Biden, como a ocorrida em janeiro de 2015, dificilmente se repetirá se Biden vencer as eleições noe EUA (AP)

 
A campanha de Biden realizou um evento online em 8 de julho apresentado como “a visão do ex-vice-presidente sobre a Venezuela e os venezuelanos nos EUA”. Alerta de spoiler: sua visão para a Venezuela quase não difere da do presidente Trump. Esse evento, que não mereceu a aparição do próprio Biden, teve o objetivo de conseguir venezuelanos-americanos para serem voluntários do “Tio Joe”, como o legislador Darren Soto (Democratas-Flórida) o chamou. Foi uma hora e meia de angariação de votos e influência, e demonstrou que quando se trata da Venezuela, políticas de mudança de regime, sanções e a recusa ao diálogo unem os VenezolanosConBiden (o grupo anfitrião do evento) com o MAGAzuela (o termo para venezuelanos que apoiam Trump).

Existem somente duas diferenças na política de Biden e Trump em relação a Venezuela. Uma é sobre o TPS, o Status de Proteção Temporária, que é uma política de imigração que permite que pessoas de dez países específicos afetados por desastres vivam e trabalhem nos EUA. Biden apoia o TPS para os venezuelanos, enquanto os aliados de Trump o bloquearam no Senado e o próprio Trump encerrou o programa e se recusou a emiti-lo para venezuelanos. De acordo com um dos substitutos de Biden, existem 150 mil venezuelanos nos EUA que estão aqui ou sem documentos ou com documentos vencidos.

Uma presidência de Biden, assim como outros quatro anos de Trump, pode ser desastrosa para o povo venezuelano.

A outra diferença é o muro na fronteira, que está, agora, sendo construído usando financiamento venezuelano. A administração Trump desviou 601 milhões de dólares em bens roubados do povo venezuelano para construir o muro na fronteira dos EUA com o México. Esse dinheiro estava anteriormente no “fundo de confisco” da Tesouraria, que é tipicamente usado para financiar operações de segurança pública. É parte dos estimados 24 bilhões que os EUA e seus aliados congelaram e saquearam da Venezuela em seus esforços para mudar o regime. Juan Guaidó, o auto proclamado presidente interino, ainda não comentou sobre como a administração Trump está usando esses fundos venezuelanos, mas seu “embaixador”, Carlos Vecchio, admitiu estar trabalhando com o Departamento de Justiça para “estabelecer um acordo formal... para definir a porcentagem” do total dos bens confiscados que irá para os EUA. De acordo com Guaidó e seus associados, é “normal” que os EUA peguem uma parte.

O TPS e o muro são os únicos pontos nos quais Biden e Trump diferem. Os substitutos de Biden alegam que ele irá garantir o TPS aos venezuelanos no primeiro dia de sua administração e Biden diz que irá parar de financiar o muro. Essas diferenças são mínimas, no entanto, especialmente considerando que Biden continuará com as políticas que levaram milhões de venezuelanos a deixarem seu país em primeiro lugar e ele indicou diversas vezes que mais fundos serão congelados.

A visão de Biden é mais do mesmo pensamento mágico que a administração Trump conduziu por anos. Sua campanha diz que as sanções irão continuar e, na realidade, intensificar. Uma administração Biden iria buscar “um grande aumento nos auxílios”, não somente para a Venezuela, mas para a Colômbia e outros países com migrantes venezuelanos também. Iriam construir uma “coalizão internacional” para reconstruir a Venezuela. Iriam perseguir apoiadores importantes do governo venezuelano, independentemente de onde estiverem no mundo. De acordo com Juan González, ex-secretário de Estado assistente na administração Obama e atual conselheiro de Biden para a América Latina, irão conceder ao governo do presidente Nicolás Maduro uma opção: eleições observadas por uma instituição multilateral respeitada (e anônima) e ele deve sair do cargo.

Os substitutos de Biden alertam que a Venezuela é um problema de segurança nacional para os EUA, que o país foi infiltrado por grupos terroristas e que devem fazer de tudo para dar fim à influência russa, chinesa e cubana. Eles responderam a uma pergunta sobre o impacto das sanções culpando o chavismo pela “crise humanitária”. Eles dizem que Biden não vai negociar com Maduro. A campanha de Biden atacou Trump por sugerir que ele se encontraria com Maduro, forçando Trump a desfazer a oferta, e vem fazendo propaganda em Miami acusando Trump de ser muito mole com Maduro.

 Biden possui a mesma política e retórica usadas pela administração Trump. Desde 2017, os EUA impuseram sanções que custaram as vidas de 100.000 venezuelanos e que levou a perdas econômicas de 130 bilhões. Mas de acordo com Soto, apoiador de Biden, “não aconteceu uma repressão suficiente” ao governo Maduro. Trump gastou três anos construindo uma coalizão anti-Maduro de aproximadamente 60 países e o secretário de Estado Pompeo viajou o mundo buscando mais ajuda supostamente para a Venezuela, mas que termina em países com migrantes venezuelanos. Eles sancionaram empresas estrangeiras que faziam negócio com a Venezuela e tentaram prender empresários venezuelanos em outros países.

Sobre a questão da intervenção militar, os substitutos de Biden alegaram que as ameaças de Trump de uma opção militar eram vazias e insistiram que outras opções devem ser exploradas e todos os outros caminhos para pressionar devem ser exauridos (exceto, claro, o diálogo) antes de considerar a ação militar. Eles não disseram se uma intervenção dos EUA deveria “estar na mesa”, e enquadraram a discussão com base na suposta aversão do povo estadunidense à outra guerra, ao invés de falar sobre as consequências catastróficas que isso causaria ao povo venezuelano, muito menos sobre a ilegalidade de qualquer tipo de intervenção militar.

Não é segredo que a mudança de regime na Venezuela é um objetivo bipartidário, e a tática de Trump de agradar os latinos extremistas de direita na Flórida levou os Democratas a fazerem o mesmo. A estratégia da campanha de Biden é clara: imitar a política venezuelana da administração enquanto oferece o TPS para tirar votos de Trump. Os substitutos também insistiram repetidamente que Biden não é um socialista – aparentemente um equívoco comum entre as pessoas do MAGAzuela.

Não deveria ser surpresa que tudo isso é sobre a Flórida e a eleição de 2020. Trump não somente ganhou o estado em 2016, como também seus aliados conquistaram o governo e uma cadeira no Senado em 2018. O governador Republicano Ron DeSantis e o senador Rick Scott ambos acusaram seus oponentes de serem socialistas que são moles com a Venezuela. A campanha de Biden está fazendo o máximo para evitar que esses tipos de ataques marquem seu candidato.

Não há razão para acreditar que Biden vai mudar o curso sobre a Venezuela se for eleito. Têm muitos votos na Flórida em jogo, bem como doações a serem feitas por venezuelanos ricos expatriados – que, a essa altura, estão jogando nos dois lados e indo muito bem. Uma presidência de Biden, assim como mais quatro anos de Trump, será desastrosa para o povo venezuelano.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Isabela Palhares

Conteúdo Relacionado