Pelo Mundo

Biden expõe sua agenda como puro bom senso

Com a promessa de alocar recursos para os trabalhadores e tributar os ricos, o programa de Biden visa fragmentar a coalizão de Trump

29/04/2021 13:10

O presidente Joe Biden fala com a senadora Debbie Stabenow e o chefe do Estado Maior, general Mark Milley, após discursar em uma sessão conjunta do Congresso (Caroline Brehman/Pool via AP)

Créditos da foto: O presidente Joe Biden fala com a senadora Debbie Stabenow e o chefe do Estado Maior, general Mark Milley, após discursar em uma sessão conjunta do Congresso (Caroline Brehman/Pool via AP)

 
O discurso do presidente Joe Biden, em uma sessão conjunta do Congresso, foi a declaração ideológica mais ambiciosa feita por um presidente democrata em décadas - expressa em uma linguagem que soava como se ele não estivesse apresentando nenhum argumento ideológico.

Não se engane: ele estava. Ele pediu trilhões de dólares em novos gastos para uma expansão robusta do papel do governo, em múltiplas arenas da vida norte-americana, que seria impossível de se contemplar na presidência de Barack Obama. Ele mergulhou em assuntos - desigualdades raciais e de classe, imigração, violência armada - que foram esfolados até sangrarem no mandato de Donald Trump.

Normalmente, esses problemas são formulados com uma pergunta: de que lado você está? Embora raramente descrito como orador talentoso, o discurso de Biden foi um desempenho notável em parte porque não assumiu um tom majestoso e, em grande parte, nem mesmo tentou. Em linguagem simples, ele descreveu uma agenda incrivelmente ampla como puro bom senso. Em vez de implorar que as pessoas tomassem partido, ele projetou o espanto de que qualquer um tivesse algum espírito prático, de qualquer convicção, pudesse se opor.

Sob uma pose de inocente, o discurso de Biden foi, na verdade, impregnado de astúcia política. A agenda que ele promoveu para expandir a pré-escola e a faculdade comunitária gratuitas, para subsidiar a mudança para uma economia de baixo carbono, para financiar uma forma massiva de construção de novas obras públicas tributando os muito ricos, representou anos de demanda progressista reprimida. Mas muito do dinheiro deverá ser gasto de maneiras projetadas para quebrar a coalizão de Trump, que foi fortemente alimentada por brancos de classe média e média baixa que não têm diploma universitário e que desprezam grande parte da agenda progressista.

Referindo-se à sua proposta de infraestrutura, Biden argumentou: “Quase 90 por cento dos empregos de infraestrutura criados no Plano de Empregos Americanos não exigem diploma universitário. Setenta e cinco por cento não exigem um diploma de curso técnico superior. O Plano de Emprego Americano é um projeto de trabalhadores para construir a América”.

A aposta é que os ganhos materiais - ou seja, uma recuperação que produza muitos empregos para a classe trabalhadora e permita que as famílias eduquem seus filhos com mais facilidade - podem superar as queixas culturais que levaram muitas dessas pessoas para o movimento conservador nas últimas duas gerações, começando com os apoiadores ultraconservadores de George Wallace e mais tarde se tornando uma enxurrada de "democratas de Reagan".

Na verdade, houve um aceno - foi subconsciente ou Biden e seus redatores de discursos pensavam nisso explicitamente? - para um dos grandes argumentos de Reagan, apresentado em 1981, quando Biden, com 38 anos, já estava no Senado há oito anos . Em seu primeiro discurso de posse, Reagan declarou: “O governo não é a solução para o nosso problema, o governo é o problema”.

Falando na quarta-feira (28) ao Congresso, no qual o distanciamento social tornou a audiência na Câmara uma pequena fração de seu tamanho normal para um discurso presidencial, Biden rejeitou explicitamente a noção conservadora do governo como uma força externa ou hostil, diferente do norte-americano médio. “Nossa Constituição começa com as palavras, 'Nós, o povo'. É hora de lembrar que 'Nós, o Povo' somos o governo”, suplicou Biden. “Você e eu. Não alguma força em uma capital distante. Não é uma força poderosa sobre a qual não temos controle. Somos nós. Somos 'Nós, o Povo'”.

A passagem foi um lembrete notável do percurso da carreira de Biden. Durante a maior parte de seu meio século no governo, Biden tem operado em um clima em que democratas de seu tipo, geralmente centristas, tiveram que praticar políticas defensivas. Eles sabiam que o movimento sindical que havia sido a base da velha coalizão democrata estava se enfraquecendo continuamente. Eles sabiam que a erosão do respeito, durante décadas, por instituições governamentais e não governamentais tinham ajudado a alimentar um movimento conservador movido pelo desdém. Para apoiar os democratas, muitas pessoas precisavam de garantias constantes de que os candidatos não eram descaradamente ou irresponsavelmente progressistas.

O discurso foi outro marcador sugerindo que o pêndulo ideológico pode ter finalmente balançado novamente no final do meio século de Biden em Washington.

De sua parte, Biden acredita que as pessoas estão prontas para apoiar um governo agressivamente ativista se o debate for retirado do reino do simbolismo e da abstração política e centrado no reino das realidades concretas da vida das pessoas. Ele comemorou o sucesso em ultrapassar em muito sua meta de 100 milhões de vacinas nos primeiros 100 dias e chamou a distribuição de vacinas em seu mandato de “uma das maiores conquistas logísticas que nosso país já viu”.

Sobre a construção de uma economia verde, Biden disse: “por muito tempo, deixamos de usar a palavra mais importante quando se trata de enfrentar a crise climática. Empregos. Empregos. Para mim, quando penso em mudanças climáticas, penso em empregos”.

Coisas sutis. Sem o benefício de jornalistas políticos ajudando na tradução, as pessoas podem ter perdido o ponto de Biden de que o debate sobre o clima deve ser removido das discussões misteriosas da ciência e das alegações de que os ativistas do clima não se importam com as pessoas nos estados fabris do interior e, em vez disso, ser retratado como um impulsionador da economia.

Se o pêndulo realmente fez uma oscilação histórica - de uma visão de Reagan de que os EUA precisavam simplesmente ter seus poderes criativos liberados do governo, para uma visão de Biden de que o país só pode competir no mundo se os talentos das pessoas comuns forem aproveitados para ação governamental criativa - isso certamente se deve a uma convergência de fatores. No longo prazo, a nação tornou-se muito mais diversificada do que quando Biden entrou no serviço público. Mais imediatamente, a pandemia de coronavírus criou um momento de emergência em que o governo normalmente cresce. Os conservadores perderam muito de sua autoridade moral para fazer oposição por sua aquiescência a Trump, que não defendia nem responsabilidade pessoal nem responsabilidade fiscal.

A própria ousadia das propostas de Biden vai iniciar uma nova geração de argumentos sobre o papel do governo. Mesmo assim, o discurso foi um sinal vívido dos tempos, já que Biden falava de uma expansão de governo ao estilo do New Deal [o planos de reconstrução de Roosevelt] como se fosse No Big Deal [nada do outro mundo], apenas uma resposta sensata e eminentemente acessível às preocupações cotidianas desta geração de norte-americanos.

*Publicado originalmente por Politico | Traduzido por César Locatelli

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