Pelo Mundo

Biden não conseguirá escapar do conflito israelense-palestino

Os EUA deveriam revogar algumas das medidas de Trump contra a Palestina, buscar acabar com o bloqueio de Gaza; reafirmar que os assentamentos israelenses na Cisjordânia são ilegais; apoiar as eleições palestinas - e muito mais

17/05/2021 10:46

O prédio que abrigava os escritórios da Associated Press e outros meios de comunicação na Cidade de Gaza desaba depois de ser atingido por um ataque aéreo israelense no sábado, 15 de maio de 2021. (AP / Hatem Moussa)

Créditos da foto: O prédio que abrigava os escritórios da Associated Press e outros meios de comunicação na Cidade de Gaza desaba depois de ser atingido por um ataque aéreo israelense no sábado, 15 de maio de 2021. (AP / Hatem Moussa)

 
Joe Biden está tentando manter distância do conflito israelense-palestino, o que significa continuar com uma política norte-americana que é implacavelmente favorável a Israel. Não é provável que isso mude, já que Biden reafirma “o direito de Israel de se defender”, sem fazer nem mesmo uma reverência simbólica aos direitos iguais dos palestinos à segurança e proteção.

Biden claramente gostaria que a situação atual simplesmente desaparecesse. Este é o último assunto sobre o qual seu governo quer perder tempo, sabendo que seus maiores esforços provavelmente não produzirão nada além de autolesões políticas.

Mas o antigo status quo nas relações entre israelenses e palestinos tornou-se instável e pode ser irrecuperável.

A crise atual é significativamente diferente de suas predecessoras: os dois milhões de árabes israelenses, 20 por cento da população de Israel, se engajaram pela primeira vez em anos e ninguém sabe aonde isso vai levar. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu e o Hamas, podem não ser mais capazes de ligar e desligar a crise tão suavemente como no passado.

Biden teve décadas como presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado para aprender que o Oriente Médio em geral - e o conflito israelense-palestino em particular - está cheio de surpresas desagradáveis. No entanto, a Casa Branca ficou genuinamente surpresa com a erupção repentina da crise nesta semana e não sabe o que fazer. Não que esteja sozinho nisso, já que Donald Trump e Netanyahu foram longe em persuadir os líderes mundiais de que os palestinos estavam derrotados de forma decisiva e poderiam ser ignorados.

Ouviremos muito sobre como acabar com a violência nas próximas semanas e isso provavelmente ocorrerá em algum momento. Em seguida, falar-se-á sobre o “relançamento do processo de paz” e “a solução dos dois estados”, ambas soluções moribundas e que, provavelmente, continuarão assim.

A vantagem - do ponto de vista dos EUA - em falar sobre essas metas inatingíveis de longo prazo é que elas dão impressão de que algo está sendo feito, mas não levam a lugar nenhum. Seria muito melhor se os EUA tentassem alcançar objetivos mais limitados, porém mais realistas, que buscassem mitigar as injustiças que produziram a atual explosão.

Isso incluiria revogar algumas das medidas antipalestinas de Trump, buscar acabar com o bloqueio de Gaza; reafirmar que os assentamentos israelenses na Cisjordânia são ilegais; apoiar as eleições palestinas - e muito mais.

Nada disso tem grande probabilidade de acontecer. Biden vai investir energia para retomar as negociações com o Irã, que chegou a algum lugar antes e pode fazê-lo novamente. A Arábia Saudita e os países do Golfo têm muito menos apetite hoje em dia por um confronto dos EUA com o Irã do que há alguns anos. As guerras civis no Iraque e na Síria diminuíram e a temperatura política na região está baixando.

Biden terá em mente que, em sua vida política, três presidentes dos EUA - Jimmy Carter, Ronald Reagan e George W Bush - foram todos gravemente prejudicados por pisar em minas terrestres políticas no Oriente Médio. Ele vai querer evitar fazer a mesma coisa, mas pode não conseguir.

Patrick Cockburn é o autor de Guerra na Era de Trump (Verso).

*Publicado originalmente em Counterpunch | Traduzido por César Locatelli






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