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Bolívia vai às urnas neste domingo após intensas mobilizações

O que está em jogo neste domingo (20) na Bolívia é retroceder ou avançar no processo de libertação nacional, coincidem o pesquisador e cientista social Porfírio Cochi, o renomado cinegrafista Andrés Salari e o jornalista Mariano Vázquez, para quem o resultado eleitoral também impactará diretamente o processo de integração regional, implodido pelos neoliberais

20/10/2019 13:56

''Futuro seguro'': a bandeira de Evo tremula em defesa do projeto de nacionalização e industrialização (Leonardo Wexell Severo)

Créditos da foto: ''Futuro seguro'': a bandeira de Evo tremula em defesa do projeto de nacionalização e industrialização (Leonardo Wexell Severo)

 
La Paz, Bolívia - Neste momento de extrema tensão, em que uma elite entreguista usa e abusa de armações midiáticas e fake-news – como a de que Evo teria milhões de dólares depositados no banco do Vaticano – cerca de 7,3 milhões de bolivianos escolherão, além do presidente e do vice, 130 deputados e 36 senadores para o período 2020-2025. Para que não haja segundo turno, basta conquistar 40% do eleitorado e abrir dez pontos percentuais sobre o segundo colocado.

Contra Evo, que lidera com folga todas as pesquisas de opinião, estão dois candidatos: Carlos Mesa – manchado pelo sangue de cerca de 70 manifestantes mortos e mais de 500 feridos no Massacre de Outubro, em 2003, quando era vice de Sánchez de Lozada –, e Óscar Ortiz, senador e empresário de Santa Cruz de la Sierra, mero serviçal da embaixada dos Estados Unidos.

Na avaliação do boliviano Porfírio Cochi, “Mesa representa um salto ao vazio, para trás, é um mero oportunista conjuntural, que tira proveito do descontentamento de alguns setores da população e da dispersão da direita, sem qualquer compreensão da economia, enquanto Ortiz encarna a expressão do racismo da elite mais conservadora, retrógrada e entreguista”.



Porfírio Cochi: "O receituário da oposição é de
submissão ao FMI e ao Banco Mundial" (Foto: ME Bolívia)

 

Por isso, descreveu Porfírio, “assinalamos que a opção é simples: entre retroceder ao passado de submissão ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial, com seu receituário de privatização, arrocho e desrespeito a direitos ou dar continuidade ao processo de libertação nacional, com tudo o que isso representa em termos de efetivação da independência, de soberania científico-tecnológico, de autonomia, de fortalecimento da nossa autoestima, de sermos donos dos nossos próprios recursos naturais”. Para o pesquisador, “este é o momento de efetivarmos um processo que tem servido não só de marco para os bolivianos, mas de referência para o conjunto dos povos da América Latina”.

Enfrentamento ao neoliberalismo

“Nossas sociedades têm claramente um nível de desenvolvimento social, econômico e político diferenciado na região. Na década de 2000, a Bolívia passou por um intenso processo de reconfiguração política em que aflorou com muita força o movimento indígena, coordenando as mobilizações. Ao assumir o papel de vanguarda, este setor capitaneou a luta contra a exploração, contra a discriminação e a subalternidade, aglutinando o conjunto de forças populares no enfrentamento ao neoliberalismo”, destacou Cochi.

Conforme o pesquisador, o resultado deste rico processo redundou na Assembleia Constituinte e na efetivação da Carta Magna, “com a Constituição política de um Estado plurinacional, materializada em novas leis, novas estruturas, em pluralismo democrático, político e econômico”. Passados dez anos daquele rico 2009, lembrou Porfírio, “encontram-se em disputa dois projetos políticos, duas visões de mundo, dois modelos: um de defesa do protagonismo dos nossos povos, que passam a ser sujeitos do seu próprio destino ou uma corrente ideológica de subalternidade, ultraconservadora, de antidireitos, que remonta os velhos tempos em que se fechava a porta à participação e ao controle social”.

Debilidades e limitações

Ao mesmo tempo em que são inegáveis os avanços do governo Evo nos mais variados aspectos, declarou o cientista social, “é preciso reconhecer autocriticamente que houve debilidades e limitações na efetivação do projeto popular, levando em conta por um lado que é um processo e por outro que foram herdadas instituições sólidas que buscam impedir que o novo aflore”. Exemplo disso, apontou, “são os contratos firmados com as transnacionais por cooperativas de mineiros que buscam barrar o avanço da economia social, sabotando avanços e mantendo o extrativismo e privilégios”.

Autor do renomado documentário “O cartel da mentira”, em que descreve como os conglomerados midiáticos unificaram suas baterias contra o presidente Evo Morales, Andrés Salari condenou a reação extremamente preconceituosa. “Na Bolívia e em toda a região há dois projetos bem definidos. Uma disputa entre governos progressistas, com suas diferenças e matizes, mas que têm no horizonte um projeto de desenvolvimento nacional, e as classes políticas tradicionais e dominantes, que sempre terminam implementando políticas submissas aos organismos financeiros”, frisou.

De acordo com o cineasta argentino, “não é casual que nestes últimos anos se volte a falar de Fundo Monetário Internacional. Parecia uma entidade já sem ingerência na região e que no entanto vemos mais claramente, no caso da Argentina e do Equador, ao assumir políticos neoliberais terminam sempre sob a sua órbita”. “Se Evo não segue sendo o presidente”, alertou, “não resta a menor dúvida de que o país cairá novamente sob a direção deste organismo financeiro internacional”.



Andrés Salari: "Evo afirma um projeto de desenvolvimento
soberano, com base no mercado interno" (Foto: CTA)


Para Salari, “é muito importante o exemplo da Bolívia porque encarna um projeto alternativo de desenvolvimento, que tem por base o mercado interno, políticas econômicas independentes, sem a ingerência de organismos financeiros que vemos novamente com tanto poder na Argentina e no Equador”. “A questão é que, neste momento, Evo Morales ficou muito só devido ao avanço da direita no Brasil, na Argentina, no Equador e no Chile. Então, o discurso de integração tem ficado um pouco em segundo plano. A integração precisa novamente de um entorno geopolítico e me parece muito boa a notícia que Alberto Fernández possa ser ungido à Presidência da Argentina, porque já na campanha tem falado sobre esta necessidade. Neste sentido, estou seguro que com Evo Morales à frente do governo contará com um aliado fundamental para que a região possa retomar o processo de integração”, acrescentou.

Com tudo o que está sendo visto, apontou o cinegrafista, a luta político-ideológica e cultural mais do que nunca passa a ter um papel chave. “Acredito que temos uma dívida importante em torno à batalha cultural que precisa ser travada contra a hegemonia que vem desde Washington, e reproduzida pelas nossas classes dominantes, que continuam sendo as donas dos principais meios de comunicação na América Latina”, apontou.

A apreciação de Salari é de que a Bolívia não seja exceção, havendo necessidade da construção de “um espectro radioelétrico mais democrático e plural, o que está obviamente ligado à propriedade dos meios de comunicação, que seguem nas mãos da classe dominante”. “Acredito que deva haver uma autocrítica da esquerda porque governou muitos anos na América Latina e há uma grande dívida em torno à geração de conteúdo e à batalha cultural que deve ser dada para que a nossa mídia possa competir em melhores condições com os meios hegemônicos”, concluiu.

Manipulação e invisibilidade

Uma das maiores demonstrações de como os grandes conglomerados manipulam ou invisibilizam a informação, reduzida à mercadoria, relatou o jornalista argentino Mariano Vázquez, especialista no país andino, são os logros alcançados por Evo ao longo de sua gestão. “A Bolívia é hoje um exemplo de economia pujante, que transformou um país excludente, formatado pelas elites brancas que segregavam suas maiorias, em um país inclusivo”, indicou.




Mariano Vázquez: "Mídia oculta as inúmeras
conquistas obtidas pelo governo boliviano" (Foto: CTA)


“Vejamos alguns indicadores sociais e econômicos entre 2005 e 2018: o Produto Interno Bruto saltou de US$ 9,574 bilhões para US$ US$ 40,574 bilhões, a inflação anual caiu de 4,9% para 1,5%, as reservas internacionais líquidas saltaram de US$ 1,714 bilhão para US$ 8,946 bilhões, os investimentos públicos aumentaram de US$ 629 milhões para US$ 4,458 bilhões, a dívida pública externa caiu de 51,6% para 25,1% do PIB, o salário mínimo subiu de US$ 54 para US$ 300, a diferença entre os mais ricos e os mais pobres foi reduzida de 129 para 39 vezes, a pobreza extrema baixou de 38,2% para 15,2%, a pobreza moderada recuou de 60,6% para 34,6% e o desemprego de 8,1% para 4,3%”, relatou Vázquez.

Apesar das contundentes vitórias, ponderou o jornalista, tanto econômicas como sociais, “o cenário está polarizado”, lançando o interrogante: “Para qual lado do pêndulo a Bolívia escolherá?”


Leonardo Wexell Severo é jornalista do Coletivo de Comunicação Colaborativa ComunicaSul, que está cobrindo as eleições na Bolívia, Argentina e Uruguai com o apoio das seguintes entidades: Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Hora do Povo, Diálogos do Sul, SaibaMais, Fundação Perseu Abramo, Fundação Mauricio Grabois, CTB, CUT, Adurn-Sindicato, Contee, CNTE, Sinasefe-Natal, Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos e Região, Sindsep, Sinpro-MG e Apeoesp.

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