Pelo Mundo

Boris Johnson promete abandonar a União Europeia no dia 31 de outubro, mas...

 

26/07/2019 15:59

 

 
Boris Johnson, o novo primeiro-ministro britânico insiste definir o dia 31 de outubro como a data definitiva, e pede para se reunir com a União Europeia, visando trabalhar em um novo acordo. Para chegar a este cenário, conformou um Executivo repleto de figuras da direita dura do seu partido, todos também anti europeístas, além de muitos dos que se opuseram à ex-premiê Theresa May, também conservadora.

“É vital estar preparados para a possibilidade remota de que Bruxelas se negue a continuar negociando, e que sejamos forçados a sair sem um acordo, não porque queremos esse resultado, mas porque é importante estar preparado para essa hipótese”, disse ele à Câmara dos Comuns, acompanhando por sua equipe recém assumida.

Boris Johnson sabe que seu mandato como primeiro-ministro depende de cumprir sua promessa de que o Reino Unido sairá da União Europeia. Começou seu primeiro Conselho de Ministros dizendo que “todos aqui estamos comprometidos com a saída da União Europeia no dia 31 de outubro, ou até mesmo antes, e sem poréns”. Seu gabinete está repleto de ministros sedentos de vingança, de pagamento de favores, mas também de aliados fiéis, a maioria deles são anti europeus assumidos.

O líder da oposição e do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, deixou claro que ninguém subestima o Reino Unido, mas que “este país está preocupado porque seu primeiro-ministro se superestime”, após pedir a Johnson que se ele confia tanto em seu plano de Brexit, que o submeta a uma votação popular na que os trabalhistas fariam “campanha para permanecer no bloco”.

No entanto, Corbyn também acusou o novo primeiro-ministro de não ter um projeto para o país após o Brexit, e de apostar tudo em um hipotético acordo comercial com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Por isso, o desafiou a ser mais claro sobre os acordos que pretende alcançar com a administração estadunidense. Johnson não esclareceu nada, e somente respondeu que “nós somos o partido da maioria e eles (os trabalhistas) são o de alguns poucos”.

“Devemos restaurar a confiança na democracia, tirando este país da União Europeia até o dia 31 de outubro”, disse o novo mandatário, afirmando que falhar nessa missão levaria a “uma incerteza catastrófica dentro de nosso sistema político”. E aos que o acusaram de exagerado, por dizer que o Brexit fará da Grã-Bretanha a melhor economia de Europa, ele estipulou uma data: “é mais que possível alcançar isso antes de 2050”.

Johnson quer que a saída aconteça com um acordo, negociar uma alternativa ao acordo de May “com a Comissão Europeia ou com quem tiver que se reunir, onde tiver que ser”. Por isso, afirma que confia na possibilidade de que a União Europeia também esteja pronta para reconsiderar sua atual postura. E se Bruxelas disser que não, “abandonaremos o bloco sem acordo”.

Disse que seu objetivo é conseguir uma alternativa à famosa salvaguarda irlandesa – a solução acordada por May e a Comissão Europeia, para evitar a criação de uma fronteira tensa entre ambos os países – porque ele considera que “não é necessária”. Outro acordo alternativo seria o de estabelecer unilateralmente a separação, e assim não pagaria à União Europeia os mais de 42 bilhões de euros como fatura pelo divórcio.

Johnson se declarou convencido de poder fechar um trato sobre uma fronteira com a Irlanda “sem controles aduaneiros e sem a antidemocrática salvaguarda” para garantir a fronteira invisível na ilha, entre o norte britânico e o sul republicano, incluído no pacto de retiro do bloco europeu. Aos mais de três milhões de comunitários residentes no Reino Unido, ele garantiu a “segurança de permanecer” no país, mesmo que não se chegue a um acordo de separação satisfatório.

Mais espaço para os duros

Mais da metade dos ministros de Theresa May estão fora do novo gabinete, alguns demitidos por Boris, e outros que pediram para sair antes que ele o fizesse. Entre eles está o ex-chanceler Jeremy Hunt, um dos candidatos que enfrentou Johnson na disputa interna do Partido Conservador, mostrando-se seu adversário mais duro – e que votou no referendo pela permanência do Reino Unido na União Europeia em 2016. Ele foi substituído por Dominic Raab, outros dos candidatos à sucessão de May.

O novo gabinete tem só sete mulheres: uma das sobreviventes é a secretaria de Trabalho Amber Rudd que parece ser uma conhecedora das ideias de Groucho Marx, e por isso colocou em prática a piada de que “se você não gosta dos meus princípios, posso mudá-los”: era defensora de permanecer na União Europeia, e agora não mais.

Dos ex-adversários de Johnson na eleição interna do Partido Conservador, dois se puseram rapidamente à sua disposição: Michael Gove (que agora lidera os preparativos para o divórcio) e Sajid Javid (novo ministro da Economia, um posto importantíssimo neste atual cenário, ainda mais no caso de uma saída abrupta.

No ministério do Interior (que antes era ocupado por Javid), Johnson colocou Priti Patel, uma aliada que sempre votou contra o acordo de May e é partidária de restaurar a pena de morte no país. Retorna ao governo após ser destituída pela primeira-ministra antecessora, assim como Andrea Leadsom, cuja saída do gabinete, há cerca de dois meses, foi o estopim para a queda definitiva de May. E não se pode esquecer de Jo Johnson, irmão do novo mandatário, também seguidor da linha de Trump, e agora secretario de Universidades.

Boris Johnson foi prefeito de Londres e se desempenhou como Ministro de Assuntos Exteriores, cargo para o qual foi nomeado por Theresa May em 2016. Se tornou primeiro-ministro após vencer facilmente a eleição interna do Partido Conservador, semanas atrás, tendo como principal rival Jeremy Hunt.

Com apoio precário

Contudo, sua chegada ao poder está longe de ter apoio unânime. Militantes ecologistas da organização Greenpeace bloquearam brevemente o caminho de Johnson em direção ao Palácio de Buckingham, formando uma corrente humana nas ruas. A promessa de Johnson de abandonar a União Europeia com ou sem um acordo o coloca em uma situação de conflito com deputados de alto nível do seu próprio partido, ameaçando sua já pequena maioria e aumento a perspectiva de eleições gerais antecipadas.

A ex primeira-ministra Theresa May afirmou que a prioridade imediata de Johnson será conseguir uma saída que seja aceitável para todo o Reino Unido. May teve que renunciar ao cargo por não conseguir a aprovação do parlamento ao acordo de divórcio que ela elaborou junto com a Comissão Europeia, um texto que Johnson prometeu revisar, embora Bruxelas já tenha advertido que não pensa em permitir mudanças.

A verdade é que três anos depois do referendo do Brexit, o Reino Unido continua sendo membro, tendo adiado sua saída já duas vezes. O texto que está sobre a mesa, negociado entre os 27 sócios europeus e Theresa May, e rejeitado pelo Parlamento britânico em três ocasiões, não será tocado, segundo a autoridade em Bruxelas.

O grupo de trabalho do Parlamento Europeu sobre o divórcio avisou Johnson sobre as consequências “prejudiciais” que o Reino Unido enfrentará caso decida por uma saída sem acordo. “Espero me reunir com você para discutir os detalhes da nossa cooperação”, afirmou o presidente do Conselho Europeu, o polonês Donald Tusk, encarregado de coordenar os trabalhos durante as reuniões na capital belga, e europeia.

A agenda de Johnson também se vê complicada pelo conflito que mantém com o Irã. O país asiático mantém dois navios britânicos capturados no Golfo Pérsico, em represália pela retenção em Gibraltar (território britânico) de um petroleiro iraniano, acusado de violar as sanções europeias contra a Síria e transportar petróleo cru a esse país.

A posse do novo primeiro-ministro foi retratada pela imprensa europeia com “um misto de incredulidade, zombaria e depressão”, segundo o diário The Independent. Já o semanário alemão Der Spiegel usou a manchete “Loucos no Reino Unido”, e seu editor sugeriu um novo slogan para Johnson: make Britain small again (“fazendo a Grã-Bretanha pequena outra vez”).

Isabella Arria é jornalista chilena residente no Reino Unido, analista associada ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




Conteúdo Relacionado