Pelo Mundo

Brexit, Trump e os desafios do populismo

O neoliberalismo não tem entregue o nirvana meritocrático que seus teóricos prometeram, mas um paraíso para os rentistas.

11/07/2016 00:00

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O que temos lido: na medida em que o choque com os resultados do referendo na União Europeia continua a acontecer, alguns analistas enxergam uma dinâmica expressiva sobre o que deveria chamar a atenção dos encarregados pelas políticas econômicas dos países ocidentais.
 
Jonathan Freedland, escrevendo no New York Review of Books, reflete um certo consenso liberal quando adverte que os resultados do referendo  mostraram que argumentos racionais podem não serem suficientes para prevenir o eleitorado de uma grande nação de se infligir “autodanos penosos e duradouros”. O autor enxerga no Brexit um augúrio escuro “para os norte-americanos, que aguardam seu próprio compromisso em novembro, como populistas nacionalistas e nativistas”, advertindo contra a subestimação das expectativas quanto a  Donald Trump, após ver o como no Reino Unido a “hostilidade a imigrantes, um cínico atropelo à verdade e um cavalar desdém pela expertise” foram bem sucedidos ao canalizar generalizada ira contra as elites estabelecidas.
 
O referendo, diz ele, colocou “vencedores da globalização contra seus perdedores”.
 
“Aqueles que se associam às mudanças na economia global com suas sofisticadas lojas “gourmet”, animados bares e opções de carreira no exterior votaram em permanecer.  Agrupados contra estavam aqueles, entre outros, cujas vizinhanças foram também alteradas pela globalização mas de uma forma em que eles lamentam. Essas queixas, em parte, estão relacionadas à externalização (“outsourcing”) e às perdas do emprego. Mas, no fundo, é sobre a imigração. É onde o paralelo do Brexit com Trump se torna ainda mais acentuado.
 
“O argumento foi atraentemente simples. Os membros da União Europeia demandam que cada país aceite o livre movimento de pessoas entre os membros da UE. Portanto, a única forma de deter centenas de milhares de cidadãos da EU de virem para o Reino Unido é deixa-lo fora da UE. Apenas assim, nas palavras do poderoso e decisivo mote dos “Deixar”, poder-se-ia “retomar o controle”.
 
Repetidamente, o “Permanecer” tentou reagir com fatos e evidências, inclusive com dados que mostrariam que migrantes fazem uma contribuição líquida para a economia do Reino Unido. Mas o “Deixar” simplesmente manteve à parte o argumento. De fato, onde qualquer personalidade, instituição ou autoridade se manifestasse – do Presidente Obama  ao FMI, à OCDE ou ao Institute of Fiscal Studies dos ingleses – para oferecer ainda que uma moderada, desapaixonada analise das prováveis consequências do Brexit, seriam rebatidos como vozes das “elites” desprezadas, mais uma das metáforas de Trump. Essa abordagem foi destilada quanto o “Deixar” Michael Gove, um colunista educado em Oxford que se tornou ministro, declarou, “o povo deste país já teve o bastante de especialistas”.
 
Globalização sem compensação
 
Para o economista Nouriel Roubini, entretanto, há uma sensação de que os especialistas perderam oportunidades importantes sobre como administrar o processo de globalização.
 
Ele vê o Brexit como um sintoma de uma reação nacionalista e populista no Ocidente industrializado “contra a globalização, o livre comércio, “externalização”, migração do trabalho, políticas orientadas para o mercado, autoridades supranacionais e, mesmo, mudanças tecnológicas” – tendências que vieram a reduzir salários e empregos para  os trabalhadores de renda baixa e média nos países avançados mesmo que tenha havido redução no preço dos bens de consumo nessas economias.
 
Roubini, apesar de continuar confiante na resiliência da globalização, ele percebeu que o perigo da reação política pode ser reduzido se os vencedores do processo fizessem mais para compensar os perdedores. “Isso pode tomar a forma de compensação direta ou ampliação da oferta de bens públicos ou semipúblicos (por exemplo, educação, retreinamento, amparo à saúde, benefícios para o desempregado e pensões transferíveis”.
 
Na medida em que o processo elimine inevitavelmente postos de trabalho e crie outros, ele argumenta que “esquemas adequados são necessários para substituir a renda perdida como resultado do desemprego transitório”, adicionando que uma das razões mais importantes sobre a permanência dos partidos estabelecidos no poder nos países europeus ocidentais foi “porque esses países mantiveram extensivos sistemas de benefício social”.
 
O crescente risco político da globalização apenas pode ser administrado, adverte, através de políticas compensatórias para aqueles que perderam seus empregos e sua renda no processo.
 
Porque Comércio é politicamente tóxico
 
Escrevendo no “Project Syndicate”, o prêmio Nobel e membro do Conselho Consultivo do INET, Joseph Stiglitz vê a votação e a ascenção do populismo estilo Trump como uma consequência inevitável do consenso econômico que tem prevalecido no “establishment” político do Ocidente por toda uma geração. “A agenda neoliberal das últimas quatro décadas pode ter sido boa para o 1% superior, mas não o foi para o resto”, ele escreve. “Eu previ há muito que a estagnação poderia, eventualmente, ter consequências políticas. “Eu previ muito tempo atrás que essa estagnação teria, eventualmente, consequências políticas. Esse dia agora chegou.... . As famílias das classes trabalhadoras e das classes médias não têm se beneficiado do crescimento econômico. Eles compreendem que os bancos causaram a crise de 2008. Mas, daí, eles vêm bilhões sendo destinados aos bancos e pouco para salvar suas casas e seus empregos. Com a renda mediana real (corrigida pela inflação) para um trabalhador masculino em tempo integral nos Estados Unidos menor que era há quatro décadas atrás, um eleitorado irritado não vem como surpresa.
 
Stiglitz observa que a irritação sobre os acordos de comércio – o que vem sendo explorado pelos populistas – é algo compreensível. “Os acordos comerciais são negociados secretamente, com os interesses das corporações bem representados, mas com os cidadãos comuns e os trabalhadores totalmente excluídos. Não surpreende que os resultados fossem unilaterais: a capacidade de barganha dos trabalhadores ainda mais enfraquecidos o que se soma aos efeitos de uma legislação que mina os sindicatos e os direitos dos empregados”.
 
Ele nota que inúmeros fatores que ampliaram o poder das corporações levaram, por consequência, a enfraquecer o poder de barganha dos trabalhadores e ampliar as desigualdades. Vê também que o impacto dos refugiados que chegam numa situação em que a globalização pessimamente administrada já produzira desemprego e aumento na desigualdade, o que significa que sua chegada teve impacto desproporcional em diferentes setores. Escreve Stiglitz: “Trabalhadores nesses países sofrerão o custo de salários deprimidos e maior desemprego, enquanto os empregadores se beneficiam dos baixos salários. O peso dos refugiados cai, sem qualquer surpresa, naqueles menos aptos a suportá-lo.”
 
O desafio colocado diante dos formuladores de políticas, conclui, é uma mudança política que priorize o bem estar dos cidadãos comuns em todos os países da União Europeia. Ele escreve: “Mais ideologia neoliberal não ajudará. E devemos parar de confundir meios e fins. Por exemplo, livre comércio, se bem administrado, poderia trazer mais prosperidade compartilhada, mas se não o for, poderá rebaixar o padrão de vida de muitos – possivelmente a maioria – dos cidadãos”. E adverte que os acordos de comércio atualmente em discussão, como o Acordo de Parceria Comércio e Investimento  (TPP) proposto pelo Presidente Obama poderia causar ainda mais prejuízo.
 
Instrumentalizando o racismo
 
O sentimento anti-imigração excitado na campanha, entretanto, levou o Prof. AKwugo Emejulu da Universidade de Edinburgo a assinalar que a elite política no lado do “Permanecer” foi deliberadamente dirigida a distrair os britânicos das fontes das dores econômicas que estão sofrendo.
 
"Um estratégia não declarada da campanha do “Deixar” foi reimaginar o Reino Unido e o sentimento britânico (mas na verdade, inglês) como branco de modo a permitir tipos particulares de vitimização que poderiam realçar a desigualdade econômica sem desafiar o neoliberalismo, ela escreveu. “Por exemplo, um argumento chave na campanha foi dizer que a “classe trabalhadora” (que era assumida como inquestionavelmente branca) sofria sob o peso da imigração em massa, que transformava a cultura de seu bairro e colocava um peso extra nos serviços públicos. Portanto, a “brancura” era vítima – e a classe operária branca tomada como refém no seu próprio país pelos migrantes....”.
 
“Essa construção deliberada da “brancura” como vítima, torna difícil entender como e porque os serviços públicos estão em crise. A crise é, de fato, a política oficial do governo conservador atual, antes que causada pela migração: medidas de austeridade têm sido as respostas políticas dominantes desde a crise econômica de 2008. Austeridade, entretanto, não foi imposta ao Reino Unido pela União Europeia”. Justamente o contrário, austeridade foi a política do governo liderado pelos conservadores.
 
Política de identidade, política de classe
 
O diretor executivo do INET Oxford Eric Beinhocker enxerga os resultados como um sinal de que os eleitores estão prontos para o sacrifício de seus próprios interesses econômicos para estabelecer algum sentido no controle de seus destinos econômicos e sociais, tendo sido convencidos que sofreram uma perda de controle como resultado da chegada de imigrantes que estão, de algum modo, levando a melhor.
 
O campo dos “Permanecer” perdeu, escreve, porque não entenderam os termos da disputa.”Pensaram que estavam jogando um jogo racional, apelando para o bolso da população e a sensação de segurança”, escreve. “Eles lutram na campanha com números e dados e destacando os riscos do Brexit. Entretanto, os eleitores jogavam o jogo do ‘Ultimatum’. O “Deixar” entendeu isso e lutou com promessas de ‘tomar o controle de volta’. Da mesma forma que a campanha do ‘Permanecer”, Hillary Clinton também está jogando o jogo racional, apelando ao autointeresse econômico e a segurança. Donald Trump é a arma dos punidores dos altruístas. Clinton precisa reconhecer que eleitores não estão o jogando seu jogo. É necessário que ela convença os eleitores que ela os escuta e que irá restaurar as promessas básicas do capitalismo e da democracia. Se não o fizer, o 8 de novembro será um dia tão chocante quanto o 23 de junho.
 
Seria a União Europeia parte do problema?
 
Alguns analistas são menos inclinados a criticar os eleitores da classe operária britânica e, ao invés, focam nos problemas da própria União Europeia. O editor do Le Monde Diplomatique Serge Halimi vê o resultado do referendo como o reflexo da alienação de milhões de europeus em consequência das escolhas institucionais feitas pela EU.
 
“A EU, a criação de uma elite intelectual, nascida num mundo dividido pela guerra, perdeu uma das maiores chances históricas, ou oportunidade, de seguir outro rumo 25 anos atrás”, ele escreve. “O colapso da União Soviética foi a chance para que a Europa reconstruísse um projeto que poderia ter satisfeito a aspiração de sua população por justiça social e paz. Se tivesse a coragem de demolir e reconstruir as estruturas burocráticas da EU, subrepticiamente erigidas quando de sua criação, e remover o comércio livre como seu motor, poderia haver se oposto ao progresso triunfante da competição global com base num modelo de cooperação regional, proteção social e integração de cima para baixo dos povos do antigo bloco oriental.
 
Ao invés de uma comunidade, construiu um mercado. A braços com comissários, regras para os estados membros, penalidades para seus povos, mas inteiramente abertos a concorrência entre seus trabalhadores, sem alma e com apenas um objetivo – servir aos mais ricos e melhor conectados  com seus centros financeiros e grandes metrópoles. O sonho europeu foi reduzido a um mundo de penitências e austeridade, invariavelmente justificados como o mal menor.
 
Os protestos expressos no voto dos britânicos não pode ser desprezado como apenas populismo ou xenofobia. E não será reduzindo ainda mais a soberania nacional, em favor de uma Europa federalizada que ninguém quer, que nossas desacreditadas elites políticas irão aliviar a fúria popular desencadeada no Reino Unido – e crescente nos demais países.
 
A urgência de um pensamento novo
 
Esse foi o tema ecoado pelo colunista do The Guardian George Monbiot, que advertiu sobre qualquer tentativa de se sobrepor ao veredito democrático do eleitorado, por mais hediondo que pareça.
 
“Sim, o voto ‘Brexit’ empoderou a mais tenebrosa coleção de conspiradores, deslocados, mentirosos, extremistas e marionetes que a política britânica produziu na era moderna. Isso ameaça invocar uma nova era de demagogia, um risco afiado pelo pensamento de que isso pode ocorrer e, assim, Donald Trump.” E mesmo que suas consequências incluam o ressurgimento de aberta violência racista nas ruas e turbulência econômica, permanece a expressão democrática de “uma manifestação contra a exclusão, alienação e uma autoridade remota”.
 
Isso, acrescenta ele, oferece uma oportunidade para aqueles que buscam mudanças econômicas e políticas mais profundas.
 
“O sistema econômico não está funcionando”, Monbiot continua. “O neoliberalismo não tem entregue o nirvana meritocrático que seus teóricos prometeram, mas um paraíso para os rentistas, oferecendo espantosos retornos àqueles que tomaram primeiro o castelo enquanto deixavam os trabalhadores produtivos no lado de fora do fosso. A era da empresa tornou-se a era da renda não conquistada, a era da falha do mercado, a era da oportunidade da gaiola de ferro dos contratos ‘hora zero’, da precariedade e da vigilância.”
 
A mensagem mais urgente do Brexit, então, é um desafio político-econômico: um convite a “enfrentar a tarefa que a esquerda e o centro negligenciaram catastroficamente: desenvolver uma filosofia política e econômica adequada para o século XXI, ao invés de repetidamente requentar as sobras do século XX (neoliberalismo e keynesianismo). Se a história dos últimos 80 anos nos ensinou alguma coisa, é que sem um novo e fecundo quadro de pensamento pouco muda.”



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