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Buttigieg: um democrata de 'Wall Street' em dívida com interesses corporativos

Dada sua história, não é surpresa que as empresas financeiras (Wall Street), as grandes de tecnologia (Big Tech), as grandes da indústria farmacêutica (Big Pharma), as seguradoras de saúde, as incorporadoras e os fundos de investimento com especial interesse em empresas de capital fechado (private equity) tenham decidido investir milhões de dólares na campanha de Buttigieg

19/02/2020 10:43

Buttigieg muda de posição em resposta à pressão de 'Wall Street' e as grandes da indústria farmacêutica (Scott Olson/Getty Images)

Créditos da foto: Buttigieg muda de posição em resposta à pressão de 'Wall Street' e as grandes da indústria farmacêutica (Scott Olson/Getty Images)

 

A questão mais importante - e muitas vezes mais ignorada – para as próximas eleições não é assistência médica, tributação, educação ou mesmo mudança climática. Trata-se, sim, do poder: quem o possui, como é obtido, quem se beneficia e quem perde. O poder determina a capacidade de tratar ou não de todos os outros problemas. Analisei anteriormente o processo pelo qual as empresas dominam nossa economia política por meio de um sistema de corrupção legalizada em que as grandes corporações (Big Business) basicamente compram a lealdade dos políticos investindo bilhões de dólares em contribuições para campanhas, obtêm legislação favorável gastando mais bilhões em lobby e garantem que a legislação seja apoiada por juízes favoráveis a elas, que foram indicados pelos mesmos políticos (veja aqui, aqui e aqui).

Esse sistema permitiu que as grandes empresas e a elite rica dominassem nossa política nos últimos 45 anos, durante os quais obtiveram trilhões de dólares por meio de cortes de impostos, desregulamentação, acordos comerciais injustos e privatização de ativos públicos. Simultaneamente, eles impediram a aprovação de legislação pró-trabalhadores e pró-consumidores. Esse sistema de dominação corporativa prevaleceu sob o comando de maiorias de ambos os partidos no Congresso, sob presidentes democratas e republicanos. As grandes empresas, especialmente aquelas de Wall Street, investirão centenas de milhões de dólares durante esta eleição para garantir que seu domínio continue no futuro.

Neste e em vários artigos futuros, examinarei candidatos presidenciais específicos não em termos de rótulos progressistas, moderados ou conservadores, mas em termos de sua relação com a estrutura de poder dos EUA: quem os apoia e quem os financia, quem tem seu poder aumentado ou diminuído em função das políticas que adotam e quais interesses eles, de fato, representaram no passado e representarão no futuro.

Wall Street é provavelmente o setor mais poderoso da economia corporativa. Wall Street desempenha um papel significativo na economia em geral, pois controla basicamente o Federal Reserve (Banco Central dos EUA), que, ao estabelecer as taxas de juros, tem mais poder sobre a economia geral do que qualquer presidente. Wall Street também influencia as decisões de todas as outras grandes corporações. As empresas confiam em Wall Street para comercializar ações e títulos e obter vários empréstimos. Mas é muito mais profundo: as preocupações de Wall Street podem alterar o comportamento das maiores corporações.

A AT&T oferece uma história de advertência. Essa gigantesca corporação foi forçada por um fundo de abutre a recomprar US$ 30 bilhões de suas próprias ações [esses fundos compram, com grandes descontos, dívida de empresas ou países em dificuldades para depois tentarem receber um valor maior, lançando mão de métodos de todos os tipos), a fim de aumentar artificialmente o preço das ações e, não por coincidência, também o valor das opções de ações de seus executivos. Simultaneamente, a AT&T eliminou 37.800 empregos e reduziu seus investimentos em US$ 1 bilhão. A Moody's, a agência de classificação de crédito, declarou que o grande custo da recompra poderia colocar a AT&T em risco de um rebaixamento do crédito. Não é de surpreender que a AT&T ainda esteja sendo recompensada com um corte de impostos de US$ 42 bilhões, apesar de estar cortando empregos e investimentos. Wall Street também consolidou seu domínio de nosso sistema político investindo US$ 6,53 bilhões em seus candidatos políticos escolhidos entre 1990 e 2019, outros US$ 8,94 bilhões no lobby desses mesmos políticos e utilizando a conhecida porta giratória entre os lobistas de Wall Street e, tanto os principais funcionários, como posições eletivas no Congresso e no Poder Executivo. Por exemplo, apenas em 2019, o setor de capital financeiro como um todo (FIRE - Finanças, Seguros e Imóveis) empregou, 2.348 lobistas, dos quais 1.430 ou 61% eram ex-funcionários do Congresso ou funcionários eleitos ou funcionários da Casa Branca.

A análise a seguir examinará Pete Buttigieg, não em termos de suas políticas "sociais" ou "culturais", mas em termos de seu relacionamento com as grandes empresas, especialmente com Wall Street. Ele apoia e apoiará Wall Street ou Main Street? [termo usado, em geral, para contrapor a elite financeira à classe média e aos pequenos negócios]

Buttigieg, grandes corporações e Wall Street

O ex-prefeito Pete Buttigieg é muitas vezes retratado como um pragmatista não-ideológico, mas de mente aberta, que se dará bem com a classe média norte-americana e aprovará legislação progressista com o apoio dos ‘republicanos com consciência’. Ele também é visto como o representante de uma geração em ascensão, um estranho a Washington que oferece uma nova perspectiva e um pioneiro por ser o único candidato abertamente gay.

Ele recebeu muito apoio de muitos especialistas políticos do establishment. Por exemplo, vários colunistas do New York Times elogiaram Buttigieg. David Brooks afirma que "o segredo de Buttigieg é que ele transcende muitas das tensões que atravessam nossa sociedade de uma maneira que faz com que as pessoas de todos os lados se sintam confortáveis". A coluna de Brooks é intitulada “Por que você ama o prefeito Pete”, com o subtítulo “Buttigieg separa a política progressista da guerra cultural".

Frank Bruni, embora preocupado com a idade e a falta de experiência gerencial de Buttigieg, afirmou: “Ele costuma se afastar dos extremos – nas questões dos cuidados com a saúde , das armas, das questões ambientais - não porque ele não tenha convicção ou coragem, pelo menos não do meu ponto de vista, mas porque não é a partir dos extremos que, geralmente, se faz o maior progresso ou que a cura é mais provável. Ele é um campeão dos sensatos. Dessa forma, ele parece muito mais velho do que a idade".

Essas caracterizações de Buttigieg resistem a uma análise substantiva mais detalhada? Quem é o "real" Pete Buttigieg? Como prefeito de South Bend, Indiana, Buttigieg não possuía histórico de votação em questões de política nacional. Portanto, suas futuras posições políticas e lealdades devem ser deduzidas de suas práticas como prefeito, dos principais colaboradores de suas campanhas anteriores para prefeito e da atual campanha presidencial e de seus pronunciamentos políticos.

Como a análise a seguir revelará, Buttigieg teve o cuidado de tranquilizar as grandes empresas e Wall Street de que ele é parte do seu time , especialmente em relação à sua história de recompensar grandes doadores com grandes contratos governamentais, de nomear funcionários-chave com vínculos nos setores financeiro e de alta tecnologia, de mudar de posições / declarações sobre política de saúde e reforma do Colégio Eleitoral em resposta à pressão de Wall Street e das grandes empresas farmacêuticas, de apoiar compromissos pró-negócios na Suprema Corte, de apoiar à privatização da educação pública, de fiar-se em doadores bilionários, especialmente dos setores financeiro, de alta tecnologia e farmacêutico e de aceitar contribuições de escritórios de advocacia que reconhecidamente atacam sindicatos. A conclusão: embora Buttigieg seja socialmente liberal, ele é a favor das grandes empresas e de Wall Street em relação à política econômica.

Siga o dinheiro: Buttigieg depende de contribuições de Wall Street e bilionários que o veem como uma alternativa a Sanders e Warren

De acordo com o Center for Responsive Politics, o setor financeiro (classificado como Finanças-Seguros-Imóveis) contribuiu com US$ 4,18 milhões para a Buttigieg em 2019. Comunicações e Tecnologia formaram o segundo maior grupo doador do setor empresarial com US$ 3,6 milhões. As principais fontes de contribuições incluem pessoas ligadas ao Alphabet (Google), Microsoft, AT&T, Disney, Comcast, Wells Fargo e Bank of America.

Buttigieg também é o favorito entre doadores bilionários. Uma análise da Forbes descobriu que Buttigieg obteve doações de 40 bilionários. Treze deles deram exclusivamente à campanha de Buttigieg “de longe mais do que a qualquer democrata que esteja concorrendo à presidência”. A Forbes continua afirmando: “Mais de um terço dos ricos contribuintes à campanha de Buttigieg enriqueceu no setor de finanças e investimentos”.

Indivíduos ricos também atuam como agrupadores das contribuições de vários doadores. A contribuição mínima para se qualificar como agrupador é de US$ 25.000. Buttigieg lista 180 agrupadores em seu site. De acordo com um relatório do Center for Economic and Policy Research, 54% do total de agrupadores de contribuições estão vinculados aos setores de Finanças – Seguros – Imóvei (FIRE - Finance, Insurance, Real Estate), incluindo 39% de Finanças e Seguros (a maior fonte de agrupadores) e 15% de Imóveis (a segunda maior fonte de agrupadores). No mínimo, os agrupadores do setor FIRE levantaram US$ 2,35 milhões. Sessenta e oito agrupadores, ou 39%, estão ligados ao setor financeiro. O relatório também mostra que, embora Buttigieg goste de dar publicidade a seu apoio de eleitores rurais e suburbanos, 59% de seu grande apoio financeiro vem de Nova York, Chicago, Califórnia e Washington DC.

Buttigieg apenas começou a pedir dinheiro à classe de doadores bilionários. Após sua boa exibição nas convenções de Iowa, o Washington Post publicou um artigo intitulado "The Finance 202: Pete Buttigieg atrai ainda mais atenção dos doadores de Wall Street após um forte desempenho nas convenções de de Iowa". O artigo declara: "Fontes de Wall Street dizem que o ex-prefeito de South Bend, Indiana, já um dos favoritos dos financiadores democratas, pode contar com arrecadações imprevistas de Wall Street, agora que provou a vitalidade de sua candidatura na caótica corrida presidencial de 2020". Um agrupador de recursos para a campanha, citado no artigo, apontou para uma "tremenda oferta reprimida de fundos de doadores disponíveis para um candidato democrata líder que possa unir o partido ... Nesta comunidade, quanto mais ímpeto tiverem as campanhas de Bernie e Elizabeth, mais arrecadadores começarão a aparecer. Todos os dias, há mais informações que motivam os financiadores tradicionais de Nova York a apoiarem alguém que tem possibilidade de ganhar. "

Para jogar é preciso pagar: os doadores das campanhas de Buttigieg esperam ser recompensados - como foram em South Bend

Um relatório investigativo conduzido em conjunto pelo Center for Public Integrity e The Young Turks (TYT) chegou às seguintes conclusões: "Os primeiros financiadores que bancaram pesadamente a campanha de Buttigieg incluem numerosos lobistas e empresas que buscavam contratos com o governo de South Bend, de acordo com registros financeiros de campanha obtidos por TYT … Os empreiteiros da região de South Bend, que para se beneficiar de negócios com a cidade, aparecem na lista de contribuintes, antes das primárias, de Buttigieg em 2011…. O Center for Public Integrity e The Young Turks identificaram vários deles que, mais tarde, acabaram obtendo negócios lucrativos da administração municipal de Buttigieg."

Outro reportagem investigativa do site anticorrupção, Sludge, foi intitulado "Em busca de incentivos da cidade, os executivos imobiliários de South Bend doam para a campanha presidencial do prefeito Pete". Este reportagem forneceu vários exemplos, incluindo a Great Lakes Capital, uma firma de private equity que, com seus negócios conectados, obteve vários subsídios de South Bend para o desenvolvimento imobiliário, incluindo US$ 790.000 para um projeto no centro da cidade. Somente no primeiro trimestre de 2019, os funcionários de nível superior da GLC doaram US$ 9.000 à campanha de Buttigieg.

Esses relacionamentos e contribuições podem não parecer muito dinheiro da perspectiva de uma campanha nacional. No entanto, são indicações para Wall Street e para as grandes empresas de que Buttigieg atende às necessidades de seus principais colaboradores e se envolve em políticas de contrapartidas, ou seja, ele recompensa aqueles que contribuem para sua campanha.

Buttigieg preencheu cargos importantes com pessoas ligadas a Wall Street

Buttigieg não apenas obteve contribuições significativas de campanha de Wall Street, como também deu cargos importantes a pessoas com vínculos com Wall Street. E ele ajustou alguns cargos importantes como resultado.

 Funcionários-chave e apoiadores com laços com Wall Street

Buttigieg tem muitos laços estreitos com Wall Street. Sua diretora de política nacional é uma ex-executivo da Goldman Sachs e do Google. Além disso, alguns dos maiores apoiadores de Buttigieg são diretamente de Wall Street. Aqui está apenas um exemplo destacado no artigo do site The American Prospect que merece uma citação extensa, porque contrasta os interesses de Wall Street com os interesse de proprietários / locatários - uma questão de interesse especial para Buttigieg.

"Um dos titãs mais notáveis da indústria financeira que apoia Buttigieg é Tony James, vice-presidente executivo da Blackstone, a maior empresa de private equity do mundo. James organizou, em sua casa, um evento para angariar fundos para Buttigieg no início de junho. Os interesses da Blackstone se opõem a reformas importantes em muitas frentes. Qualquer plano para tornar a habitação mais acessível, por exemplo, terá que lidar com o controle do patrimônio privado sobre o aluguel de casas unifamiliares. De fato, o Relator Especial da ONU sobre o direito à moradia adequada criticou diretamente o patrimônio privado em geral, e a Blackstone em particular, por representar uma força "devastadora" que prejudica os inquilinos. O fato de James ter arrecadado fundos para Buttigieg é uma indicação de sua confiança de que um presidente Buttigieg não prejudicará os interesses imobiliários de private equity. Isso não significa que Buttigieg falhe em abordar a acessibilidade econômica da habitação, ele ainda pode, por exemplo, incentivar o Congresso a aumentar o financiamento federal para moradias populares, como sua página promete. É claro que isso não ameaçaria o modelo de negócios de Blackstone."

Como discutido anteriormente, esse relacionamento não é novo para Buttigieg. Quando ele era prefeito, Buttigieg estabeleceu um relacionamento simbiótico entre sua campanha e as empresas de private equity que obtinham contratos lucrativos ao mesmo tempo em que forneciam contribuições para a campanha dele.

 Buttigieg foi convidado para reuniões com doadores de Wall Street como parte de sua ofensiva a Sanders

Um artigo do New York Times revelou que Wall Street favorece Buttigieg como uma alternativa realista a Sanders. "A questão do que fazer com Bernie e o imperativo maior da unidade partidária, por exemplo, pairou sobre uma série de jantares democratas não revelados em Nova York e Washington, organizados pelo financiador de longa data do partido, Bernard Schwartz. Os encontros incluíram vários membros da ala moderada ou de centro-esquerda do partido, incluindo a presidente Nancy Pelosi, da Califórnia; o senador Chuck Schumer, de Nova York, líder da minoria; o ex-governador Terry McAuliffe, da Virgínia; o prefeito Pete Buttigieg, de South Bend, Indiana; candidato e a presidente do Centro para o Progresso Americano, Neera Tanden."

Laços fortes e funcionários importantes do Facebook, Zuckerberg e Vale do Silício

Buttigieg tem conexões profundas com Zuckerberg, Facebook e Vale do Silício. Conforme relatado no American Prospect, Buttigieg era amigo de dois colegas de quarto de Zuckerberg, Joe Green, e o cofundador do Facebook Chris Hughes. Buttigieg posteriormente cultivou muitas outras vozes importantes do Vale do Silício, incluindo uma sócia (Cyan Bannister) do maior patrocinador de tecnologia de Trump, Peter Thiel (ele mesmo o primeiro investidor externo do Facebook).

Executivos seniores do Facebook doaram para a campanha de Buttigieg. A campanha de Buttigieg também contratou dois funcionários recomendados por Zuckerberg: Eric Mayefsky, consultor sênior de análise digital, e Nina Wornhoff, gerente de organização de dados. Essas contratações seguiram o passo incomum de uma série de e-mails particulares enviados por Zuckerberg e sua esposa recomendando pessoas específicas para a campanha contratar. Não é de surpreender que Buttigieg tenha criticado propostas para desmembrar o Facebook. Depois de analisar o relacionamento da Buttigieg com as empresas de alta tecnologia (High Tech), um comentarista da Wired declarou: "Do ponto de vista do Vale do Silício, Buttigieg é o candidato dos sonhos: um agente de mudança que não quer mudar o Vale do Silício".

Buttigieg muda de posição em resposta à pressão de Wall Street e Big Pharmaceuticals

Não é incomum os candidatos mudarem de posição durante as campanhas. Mas a questão principal não é apenas o que mudou, mas também por que as mudanças foram feitas. Em várias áreas importantes, Buttigieg mudou de posição em resposta às preocupações expressas pelos principais financiadores de Wall Street e Grandes Empresas.

 A pressão de Wall Street já forçou Buttigieg a moderar algumas de suas posições

Buttigieg parou de abordar suas propostas para reformar o Supremo Tribunal Federal e eliminar o Colégio Eleitoral em resposta à pressão dos principais doadores financeiros. Inicialmente, as propostas de Buttigieg para reformar a Suprema Corte e eliminar o Colégio Eleitoral eram características centrais de sua campanha - e peças-chave de seus discursos iniciais. No entanto, o New York Times relata que "vários financiadores disseram à campanha que as propostas da Suprema Corte e do Colégio Eleitoral não eram populares, de acordo com pessoas familiarizadas com as discussões. Buttigieg, desde então, silenciosamente as abandonou de seu discurso."

 A pressão da Big Pharma contribuiu para uma grande mudança em sua posição no Medicare for All

Buttigieg inicialmente apoiava o Medicare for All (Saúde para Todos) e o fim do seguro de saúde privado. No entanto, ele foi acusado de mudar de posição sobre essas questões. Buttigieg afirma que o que ele realmente quis dizer foi Medicare for All Who Want It (Saúde para Todos que o desejarem) - uma posição que preservaria o seguro de saúde privado. É claro que é interessante notar que o setor de produtos farmacêuticos / de saúde contribuiu mais para Buttigieg do que para qualquer outro candidato democrata à Presidência (perdendo apenas para Trump). Os indivíduos que deram pelo menos US$ 1.000 à campanha de Buttigieg incluem executivos seniores da CVS Health, Astex Pharmaceuticals, Anthem Inc. e Ironwood Pharmaceuticals.

Buttigieg envia sinais claros para Wall Street e bilionários de que ele está do lado deles

Buttigieg enviou sinais importantes a Wall Street e aos oligarcas econômicos de que ele apoia o próprio setor, mas também os apoia em outras questões.

 Buttigieg recebe contribuições de empresas que atacam os sindicatos

Uma reportagem investigativo do site Sludge intitula-se "Biden e Buttigieg ganham muito dinheiro com advogados que arrebentam sindicatos: advogados de escritórios de advocacia com histórias notáveis de ações contra trabalhadores têm se unido em torno dos moderados candidatos presidenciais democratas".

O reportagem declara:

“Esses grupos incluem escritórios de advocacia de elite e empresas de consultoria com longa história de oferecer serviços caros de ‘evasão sindical’ a empregadores que buscam reprimir os esforços de organização de seus trabalhadores entre outros serviços anti-trabalho. Os funcionários dessas empresas variam de associados a CEOs. e de doadores de pequenas quantias a agrupadores, mas seu apoio a esses candidatos pode sugerir que as políticas trabalhistas que eles esperam de uma administração de Biden (ou Buttigieg) são mais amigáveis para os empregadores do que o que os sindicatos estão esperando. No mínimo, essa empresas estão procurando influenciar compromissos estratégicos em departamentos e agências, como o Departamento do Trabalho e o Conselho Nacional de Relações Trabalhistas, onde membros simpáticos do conselho podem ajudar a garantir que os clientes da empresa fiquem ‘livres de sindicatos’”.

 Apoio para indicações moderadas / pró-negócios no Supremo Tribunal

Em uma entrevista para Cosmopolitan, Buttigieg elogiou o ex-juiz Anthony Kennedy como um exemplo de juízes que podem ‘pensar por si mesmos’. Ele disse que os juízes que ele nomearia pessoalmente de acordo com esse plano seriam mais progressistas que Kennedy.

Ben Mathis-Lilley, em seu artigo para a revista Slate, coloca isso em contexto: “uma Suprema Corte para a qual democratas designam progressistas e republicanos designam conservadores, com retrocessos como Kennedys no meio, é o mesmo arranjo que produziu vários dos resultados que Buttigieg uma vez alegou lamentar. O próprio Kennedy emitiu votos cruciais no Citizens United, na decisão Janus de 2018 que causou um grande golpe na organização do trabalho, na decisão de 2013 no Condado de Shelby que matou uma seção importante da Lei dos Direitos de Voto e na decisão Husted que apoiou a supressão de eleitores”.

 Apoio à Educação Corporativa e Privatizada

Buttigieg fica do lado da política de educação corporativa e da privatização. Diane Ravitch emitiu uma crítica contundente à posição de Buttigieg na educação. Ravitch é professora de educação na NYU e ex-secretária assistente de educação de George H.W. Bush. Inicialmente, ela era uma forte defensora das escolas charter (sob gestão privada) e dos testes nacionais. No entanto, ela agora é uma forte crítica de ambos. Ela se encontrou com Sonal Shah (conselheira de política nacional de Buttigieg e ex-funcionária da Goldman Sachs e do Google).

Conclusão de Ravitch: "O prefeito Pete pode ter muitas coisas a seu favor, mas sua agenda educacional não é uma delas. Se ele for presidente, continuará a fracassada agenda Bush-Obama". Em termos específicos do encontro, Ravitch declarou: "Foi uma conversa frustrante porque estávamos em polos opostos. Discordamos sobre se as escolas charter são eficazes, se são suficientemente reguladas, se precisam de mais supervisão. Discordamos sobre o valor dos testes anuais. Eu disse que nenhuma nação de alto desempenho tem testes anuais para todas as crianças das séries 3 a 8. Como elas disseram que eu estava errada, citaram o Japão e a Coreia do Sul. Eu as corrigi e disse que essas nações têm testes periódicos, e não anuais. Perguntei se o candidato queria atrair os 6% que enviam seus filhos para escolas charter ou os 90% que não. Eu não recebi uma resposta".

 Reduzir a dívida federal cortando programas governamentais

Buttigieg também retirou uma página do manual de políticas preferenciais de Wall Street: aponte para a dívida federal como uma justificativa para cortar programas sociais. A NBC News informou recentemente que Buttigieg propôs reduzir a dívida. Ele declarou especificamente:

"Não está na moda nos círculos progressistas falar muito sobre a dívida, em grande parte por causa da irritação de como ela é usada como desculpa contra o investimento. Mas se estamos gastando cada vez mais em serviço da dívida agora, torna mais difícil investir em infraestrutura e rede de saúde e segurança de que precisamos no momento ..."

O artigo da NBC observou que “Buttigieg não estabeleceu um plano para reduzir significativamente a dívida nacional, o que poderia exigir aumentos ou reduções de impostos programas de grande apoio popular como o Seguro Social".

No entanto, Buttigieg está errado no nível da teoria e como da experiência econômicas. Paul Krugman, economista vencedor do Prêmio Nobel, declarou: "Talvez Buttigieg desconheça o crescente consenso entre os economistas convencionais de que a histeria sobre o deficit, de sete ou oito anos atrás, foi muito exagerada ... Buttigieg está jogando com ... a estratégia [republicana] de incapacitar a economia com austeridade fiscal quando há um democrata à frente da Casa Branca, para, em seguida, tomar recursos emprestados livremente assim que o Partido Republicano recupera o poder. Se os democratas vencem, eles devem seguir uma agenda progressista, não desperdiçar capital político limpando a bagunça do Partido Republicano."

Também é interessante que Buttigieg esteja jogando a carta de austeridade quando o serviço da dívida federal, como uma porcentagem do produto interno bruto, é muito menor agora do que no final dos anos 90, quando houve um crescimento significativo no PIB, empregos e salários. De acordo com o Federal Reserve Bank de St. Louis, o serviço da dívida era de 1,75% do PIB em 2019 - mesmo após o impacto de dois anos do corte de impostos de Trump (que adicionará US$ 2,289 trilhões à dívida federal em dez anos, de acordo com o Escritório de Orçamento do Congresso). Esse percentual foi de 3,04% em 1995 e 2,9% em 1999. É muito interessante como a dívida federal se torna um problema quando relacionada a programas governamentais, incluindo Assistência à Saúde e Previdência Social, mas não quando relacionada a cortes de impostos para empresas e ricos ou ao orçamento militar .

 Trabalho para a McKinsey and Company

O ex-prefeito Buttigieg divulgou relatos conflitantes sobre seu papel como funcionário da McKinsey and Company, a gigante empresa global de consultoria de gerenciamento. Quando ele se candidatou a prefeito de South Bend, Buttigieg se gabou de seu papel em recuperar várias empresas da Fortune 500. Uma análise do Washington Post declarou: “Uma revisão dos discursos e entrevistas que Buttigieg deu quando ele ocupou um cargo público em Indiana mostra que ele sempre exagerou sua experiência na McKinsey, divulgando trabalhos que orientavam ‘tomadores de decisão seniores’ e alegando que ele participava das decisões de bilhões de dólares tomadas por empresas da Fortune 500.”

O artigo do Washington Post também se refere a uma entrevista de 2011 com o South Bend Tribune, na qual Buttigieg afirmou: “Sou o único candidato envolvido em decisões de bilhões de dólares no setor privado. , com algumas das principais empresas do mundo.”

Agora que ele está concorrendo à presidência, Buttigieg está subestimando seu papel na McKinsey, especialmente depois que foi forçado a revelar as empresas que analisou e tornou-se público que várias dessas empresas demitiram milhares de trabalhadores, conforme recomendado por McKinsey e seus analistas.

O artigo do Washington Post também se refere a uma entrevista em 10 de dezembro com o noticioso The Atlantic, na qual "Buttigieg pintou uma imagem dele próprio como um funcionário de baixo nível trancado em uma sala com um computador, que não apenas foi afastado do poder de tomada de decisões, mas muitas vezes não conversava com os funcionários de seus clientes ou conhecia os resultados de seus projetos ... Quando perguntado se seu trabalho tinha levado a perdas de empregos na Blue Cross Blue Shield, Buttigieg disse à revista: 'Não sei quais foram as conclusões ou a que elas levaram. Portanto, é difícil para mim dizer.’” Uma reportagem investigativa da Vox sobre a experiência de Buttigieg na McKinsey tem um subtítulo “O escrutínio da McKinsey põe em questão a proximidade de Buttigieg ao poder”. Há pelo menos duas conclusões que podem ser alcançadas em relação a todo esse episódio. Primeiro, Buttigieg deu duas perspectivas muito diferentes sobre seu tempo na McKinsey, que serviram a diferentes propósitos ao concorrer a prefeito e à presidência. Segundo, seu trabalho na McKinsey é outro sinal para Wall Street de que Buttigieg está do lado deles.

Buttigieg e seus apoiadores gostam de retratá-lo como um "agente de mudança". No entanto, ele provou ser um agente de mudança que não desafiará de maneira significativa a atual distribuição de poder, riqueza e renda neste país. Dada a sua história, não é surpresa que Wall Street, Big Tech, Big Pharma, Seguradoras de Saúde, Incorporadoras e Private Equity tenham decidido investir milhões de dólares na campanha de Buttigieg. E com base em ações passadas, Buttigieg garantirá que o investimento compense se eleito.

Kenneth R. Peres aposentou-se como economista-chefe da Communications Workers of America.

*Artigo publicado originalmente em Common Dreams | Tradução de César Locatelli




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