Pelo Mundo

Canal Fox News se transforma no maior aliado de Trump

A emissora, com sua linha editorial fortemente conservadora, mostra em seu discurso um país no qual Obama é culpado por vários problemas, incluindo o Russiagate, e simplesmente ignora informações como o uso de uma AR-15 na recente matança numa escola da Flórida

19/02/2018 08:06

 

Por Francesc Peirón, correspondente do La Vanguardia em Nova York

Há mais coisas no Estados Unidos que os 50 estados, apesar de a bandeira do país exibir apenas meia centena de estrelas. Também entre as listras há segredos, uma entidade geográfica virtual, sem fronteiras predeterminadas é com marcada cor vermelha – lembre-se que aqui os vermelhos são os da direita republicana.

Esta subdivisão configura o “Fox, estado de Trump”, como descreve Thomas Baldino, professor de ciências políticas da Universidade de Wilkes, na Pensilvânia profunda.

“Na sala de espera do médico, no cabelereiro, em qualquer lugar que você vá, as televisões estão conectadas no canal Fox News, é o que o povão assiste”, assegura o professor.

“Quando esse canal fala de Trump, passa batido pelos problemas sérios e tudo o que diz busca reforçar uma melhor visão possível do presidente. Por isso se acreditam que Trump está conseguindo fazer as coisas”, afirma.

Um informe do Pew Research Center mostra que durante a campanha presidencial de 2016, os canais de notícias a cabo foram a via considerada mais confiável para buscar informação sobre o pleito, segundo 24% dos eleitores. Apesar do predomínio urbano da MSNBC (canal que defende algumas ideias progressistas), a CNN e a Fox – líder de audiência no país como um todo – são as preferidas no interior do país, entre médias e pequenas cidades. Entre elas está Wilkes-Barre, antigo bastião de Obama que se balanceou para o lado do trumpismo. A narrativa da Fox, segundo Baldino, forma parte essencial de sua teoria de que ao menos nove de cada dez que votaram no candidato republicano em 2016 voltariam a dar a ele seu apoio se ele competisse por uma reeleição agora, mesmo com um mandato cheio de escândalos.

“As pessoas não culpam o presidente Trump, porque assistem informações da Fox, que costuma repassar as responsabilidades dele a terceiros”, afirma.

Basta ver a conclusão desta última semana: o promotor especial do Russiagate, Robert Mueller, denunciou treze cidadãos russos e três empresas daquele país, por uma suposta interferência nas últimas eleições presidenciais, com o objetivo de impulsionar a candidatura de Trump e atacar a da sua rival, Hillary Clinton.

Segundo o documento, uma das instruções era “criticar Hillary e o resto (exceto Trump e Bernie Sanders)”. O noticiário se centrava nos estados indecisos. Um dia, a tela mostrava a seguinte frase: “Hillary é Satã e seus crimes e mentiras demonstrarão o perversa que ela é”.

A acusação de Mueller afirma que a infiltração russa começou em 2014, tanto online quanto na vida real, com agentes roubando identidades para se camuflarem, se passando por ativistas estadunidenses. Alguns cidadãos norte-americanos não identificados, e até gente da campanha de Trump, foram utilizados na trama “sem sabe-lo”.

Rob Rosenstein, número dois do Departamento de Justiça e chefe de Mueller, assegurou que nada disso teve impacto no resultado eleitoral.

Embora o caso se encontrar em plena investigação, e das dúvidas sobre como se pode descartar a hipótese de que houve sim influência a partir de toda a informação que já se sabe, Trump continua agindo como se isso fosse algo desimportante.

Aceitando por primeira vez que a intromissão russa não é uma montagem ou uma notícia falsa – seus argumentos habituais –, ele sentenciou em seu twitter que não há confabulação entre o Kremlin e a sua campanha, e que ganhou por seus méritos, apesar da constatação de que os russos sim queriam ajudá-lo. E destacou inclusive a informação de que a infiltração russa teria começado em 2014, antes de ele anunciar sua candidatura.

Na Fox, o discurso é de que a denúncia não aponta diretamente a nenhuma figura importante da campanha. E vão mais além: adivinhe quem acusam de permitir a infiltração... sim, Obama! Os apresentadores e comentaristas dos programas repetem sem parar que essa conspiração não influiu na vitória de Trump. Concordam que “todo o mundo” sabia das intenções de Moscou, mas o problema é que o governo anterior não moveu uma palha para impedir isso. E se algo fez, foi feito com má fé.

A partir da denúncia do Russiagate, o canal do império Murdoch passou as últimas semanas com o espaço Fox & Friends (favorito dos tuítes matinais de Trump), ou com apresentadores-estrela Sean Hannity (íntimo do presidente) e Laura Ingraham, castigando o FBI por uma suposta espionagem ao candidato Trump, sem exibir prova alguma.

Recentemente, esse relato foi incrementado com a informação de que a agência não atuou após os alertas sobre o atirador Nikolas Cruz e suas intenções de provocar uma matança, como a que cometeu finalmente na última quarta-feira (14/2), no instituto Parkland, na Flórida, onde ele estudava, deixando um saldo de 17 falecidos.

Os sobreviventes, colegas de escola tanto do assassino quanto das vítimas, reclamam que os legisladores devem fazer algo para regular o desenfreado mercado das armas. Mas essas reclamações não aparecem na Fox, porque isso seria “politizar a tragédia”.

Os âncoras e seus convidados colocam toda a culpa na saúde mental do autor confesso do ataque. Fizeram o mesmo no caso de Las Vegas – ataque em outubro que causou 58 mortes – e no de uma igreja do Texas – 24 cadáveres, em novembro passado.

Desta vez, a teoria do canal não ficou somente neste argumento tradicional, e culpou também a administração do instituto educacional, o guarda de segurança (nunca viu o atirador), os pais do detido (órfão), as drogas e até mesmo os estudantes e vítimas.

A solução defendida pelo canal consiste em reforçar a vigilância armada e dar pistolas aos professores. No programa de Laura Ingraham, o especialista em segurança Aaron Cohen defendeu fortemente o uso de rifles AR-15 como arma de auto defensa. A versão civil do AR-15 foi usada pelos assassinos da Flórida e de Las Vegas.

Na Fox, contudo, não se escutou o lamento de um dos garotos que viu seus colegas morrendo durante uma aula em Parkland: “até os 21 anos não podemos tomar uma cerveja num bar, mas aos 18 podemos comprar um arma capaz de causar massacres”.



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