Pelo Mundo

Carta urgente da Nicarágua

Daniel Ortega não pode continuar encontrando legitimidade dentro dos movimentos de esquerda. Ele traiu progressismo latino-americano, com seus atos sem escrúpulos. Um texto de Ernesto Cardenal dirigido a Pepe Mujica

22/06/2018 19:23

 

Por Ernesto Cardenal
 
O mundo deve saber e se pronunciar a respeito do que está acontecendo na Nicarágua: uma verdadeira crise de direitos humanos e terrorismo de Estado.

Reconhecendo que você é um defensor dos direitos humanos, da luta pela dignidade e fonte de inspiração para toda a América Latina, a juventude e o povo que luta nas ruas de Nicarágua, necessitamos que somes a tua voz à nossa causa, que é digna e justa.

Desde abril de 2018, os jovens nicaraguenses voltaram às ruas para reclamar por democracia e liberdade. Cumpriram a profecia de um dos principais artífices da cruzada nacional de alfabetização na Nicarágua, o padre Fernando Cardenal, que nunca se cansou de assegurar que assim seria. Lamentavelmente, o ímpeto e determinação da juventude foram respondidos com a mais violenta repressão governamental que este país visto na sua história.

Em 19 de abril, há dois meses atrás, o governo de Daniel Ortega e Rosario Murillo tirou a vida do primeiro dos mais de 180 nicaraguenses que foram vítimas da repressão, a maioria jovens e inclusive crianças. Há mais de 1,5 mil feridos, muitos desaparecidos e presos políticos. Estes números aumentam a cada dia que passa, com Ortega se mantendo no poder.

No dia 16 de junho, uma família completa foi vítima de um incêndio provocado pelos esquadrões da morte do regime, represália pelo fato de que esta não permitiu que franco atiradores entrassem na casa para, a partir dali, atirar contra as pessoas que protestavam na rua contra o governo.

Apesar da repressão, a mobilização cidadã se mantém firme, obrigando a Daniel Ortega e Rosario Murillo a aceitar o diálogo nacional com interlocutores, e não somente os do grande capital – que agora estão contra ele, diferente se outros tempos, mas que não são os únicos. Pela primeira vez em onze anos, tiveram que se sentar para conversar também com os estudantes universitários, movimento camponês e sociedade civil.

A estratégia orteguista tem sido a de estancar o diálogo e ganhar tempo suficiente para poder instalar sua estratégia de terror. Ainda é incerto o futuro desse diálogo, se será capaz de responder ao clamor popular por justiça e fim do regime.

A pressão das ruas também permitiu a concretização de uma visita de trabalho da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), cujo informe preliminar está em concordância com o da Anistia Internacional a respeito das graves violações aos direitos humanos ocorridas na Nicarágua recentemente. Ambos os organismos conseguiram documentar o uso excessivo da violência por parte das forças de segurança do Estado e dos pelotões de choque, que incluem franco atiradores que disparam para matar e que foram os causadores de muitíssimas vítimas, incluindo o jornalista Ángel Gahona e vários jovens e crianças.

Ortega e Murillo não podem continuar encontrando legitimidade dentro dos movimentos de esquerda. Eles traíram o progressismo latino-americano, com seus atos sem escrúpulos. Os heróis e mártires da Revolução Sandinista não merecem que sua memória seja manchada pelos atos genocidas de um ditador que os defraudou. As vítimas de Ortega e Murillo merecem justiça.
 
Ernesto Cardenal é sacerdote e poeta nicaraguense, dissidente sandinista e irmão do falecido padre jesuíta Fernando Cardenal – aqui citado. Este texto foi enviado pela Coordenadora Universitária por Democracia e Justiça



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