Pelo Mundo

Cem anos de fundação do Partido Comunista da China

 

02/07/2021 12:44

Comemoração do centenário do Partido Comunista chinês em Pequim (Thomas Peter/Reuters)

Créditos da foto: Comemoração do centenário do Partido Comunista chinês em Pequim (Thomas Peter/Reuters)

 
Na última década do século XIX e na primeira do século XX começaram a ser introduzidas na China ideias políticas oriundas do Ocidente, porém o pensamento socialista teve uma aparição tardia no país. Este fato se deve a vários motivos, contrastando com o ocorrido na Europa e , inclusive, no vizinho Japão, onde existiu um partido socialista desde 1901. Mas a razão mais importante são as profundas raízes de uma cultura e filosofia milenares que serviram de barreira à “intrusão ocidental”.

Neste contexto, no Japão foram traduzidas para o chinês as primeiras obras marxistas, que serviram para provocar acalorados debates entre grupos de emigrantes. A primeira dessas obras foi “O socialismo moderno”, de Fukui Junzo, publicada em 1889 e traduzida para o mandarim em 1903. Em 1906, o periódico do chinês Sun Yat-sen no Japão publicou o “Manifesto Comunista”, traduzido por Chu Chih-hsin, um de seus partidários mais radicais. Entretanto, essas publicações eram pouco divulgadas na China. Só após a queda da monarquia foi possível promover uma distribuição maior de publicações de autores marxistas, que começaram a alcançar um número maior de pessoas a partir de 1919.

A revolução bolchevique de 1917 na Rússia logo passou a ter influência na China. Progressistas chineses começaram a divulgar ideias de esperança no futuro e, em 4 de maio de 1919, o Movimento da Nova Cultura ou Movimento 4 de maio marcou um momento de ascensão das lutas populares. Em 1915, quando em Xangai havia sido fundada a revista Nova Juventude, houve o início de um grande debate de ideias e intensa atividade intelectual que levaram à fundação de editoras, centros culturais, revistas e jornais em quase todas as grandes cidades do país, dando um grande impulso à luta pela democracia e ao progresso da ciência.

Li Dazhao fez de base a Universidade de Pequim para promover o marxismo, o que o levou a ser considerado o primeiro marxista chinês. Todos esses fatos permitiram que essa ideologia, agora com contribuições leninistas, começasse a ter influência em setores operários, ajudando para que, pela primeira vez na história da China, associações de trabalhadores convocassem uma greve política a partir de uma perspectiva revolucionária como parte do movimento iniciado em 4 de maio. A união desses dois componentes - a classe trabalhadora e intelectuais revolucionários influenciados pelos recentes acontecimentos na Rússia – levou à propagação da ideia de que a China deveria avançar para o socialismo sob a bandeira do marxismo-leninismo. Esta foi a base para o desenvolvimento de um grande trabalho de propaganda e organização entre os trabalhadores.

Em seu livro “Uma Nova Democracia”, Mao Tsé-Tung considerou que antes de 1919 a pequena burguesia e a burguesia, por intermédio dos intelectuais, conduziam a revolução democrático-burguesa na China enquanto o proletariado não tinha força suficiente para ser protagonista consciente e independente. Mas depois de 4 de maio houve uma mudança definitiva.

A direção política da revolução democrático-burguesa da China passou da burguesia para o proletariado, mesmo que a burguesia nacional tenha continuado a participar na revolução. O proletariado chinês, graças a seu próprio crescimento e à influência da Revolução Russa, se converteu rapidamente numa força política consciente e independente. Foi o Partido Comunista da China que lançou o slogan “Abaixo o imperialismo” e elaborou um programa para toda a revolução democrático-burguesa, e foi o único partido que levou adiante a revolução agrária.

Claro, tudo isso aconteceu posteriormente, já que o Partido Comunista da China ainda não havia sido fundado. Contudo, no livro já mencionado, Mao rechaçou a ideia leninista que considerava que a questão nacional começava a fazer parte da revolução mundial e, desta forma, a revolução chinesa se encaixaria nesta lógica. Mao se contrapôs desde uma perspectiva chinesa à consideração de Vladimir I. Lenin, que em 1920, durante o II Congresso da Internacional Comunista, apresentou um programa sobre a questão nacional e colonial.

Essa crescente agitação e esforço organizacional levaram a uma vertiginosa onda de fundação de sindicatos e organizações de base, além de uma multiplicação de cursos de formação de quadros, criando condições – a partir da primavera de 1920 - para a estruturação de um partido marxista, o que coincidia com as intenções da III Internacional, que em abril daquele ano enviou um de seus quadros à China para ajudar na fundação do partido.

Em março havia sido criada a Associação de Estaudos da Teoria Marxista na Universidade de Pequim e, em maio, a Sociedade de Estudos do Marxismo em Xangai. Em agosto, Chen Duxiu e outros formaram a primeira organização comunista da China, ao mesmo tempo em que foram criadas células comunistas em Xangai, Pequim, Wuhan, Changsha, Jinan e Guangzhou. Emigrantes chineses no Japão e na França também se envolveram no movimento. Suas primeiras tarefas foram se organizar e estudar o marxismo, sobretudo entre os trabalhadores e camponeses. Os intelectuais que haviam adotado as ideias marxistas as transmitiam aos trabalhadores.

Finalmente, em julho de 1921 foi realizado clandestinamente em Xangai o Primeiro Congresso do Partido Comunista da China, fundando a organização apesar da participação de apenas 13 dos seus cerca de 50 membros em todas as regiões do país e no Japão, enquanto que o representante dos emigrantes da França não conseguiu chegar. A eles se somaram os delegados da Internacional Comunista, Maring e Nikolsky. Apesar de serem considerados fundadores do partido, Li Dazhao e Chen Duxiu não estiveram presentes. A idade média dos participantes foi de 28 anos – o maior tendo 45 anos e o menor, 18.

Os participantes apresentaram informes da situação em suas regiões, trocaram experiências e discutiram um programa para o partido e um novo plano de ação. Depois de longos debates se chegou a um consenso. Em 30 de julho, o Congresso teve de mudar de local devido a chegada da policía francesa, e o evento acabou sendo concluído em um barco no lago Nanhu, na província de Zhejiang. Com a aprovação de seu programa foi proclamada a fundação do partido.

Nos debates se manifestaram diferentes tendências, desde a do liquidacionismo, que considerava prematura a fundação do partido, até uma corrente extremista que defendia a ruptura com o movimento democrático nacional e a luta imediata pela ditadura do proletariado. Entretanto, prevaleceu a ideia de construir o partido, promover uma intensa atividade sindical e colaborar com o governo de Sun Yat-sen. Da mesma forma, foram discutidos e aprovados os estatutos, sublinhando que apesar das diferenças era preciso manter a unidade da nova organização.

Os estatutos estabeleciam que o objetivo do partido era derrubar a burguesia apartir do papel protagonista dos trabalhadores a fim de estabelecer um Estado de todo o povo e eliminar diferenças de classe até a total supressão delas. Foi adotado como método da organização o centralismo democrático e uma férrea disciplina. Os primeiros dirigentes foram eleitos, com Chen Duxiu sendo designado secretário, Li Da, encarregado do trabalho de propaganda e Zhang Guotao, encarregado da organização.

A introdução do marxismo-leninismo e a fundação do Partido Comunista da China significaram um momento trascendente nesse país milenar, que havia se atrasado frente à dinâmica mundial, mas que contava com uma grande tradição cultural e uma extraordinária história que seriam transformadas apartir de uma ideia introduzida desde o Ocidente. Esse era o desafio assumido por esse pequeno grupo de 50 militantes que se propunham a desenvolver o país e compreender suas particularidades pela perspectiva marxista. Em primeiro lugar, nesse momento, se devia trilhar o caminho da independência nacional e da libertação do povo a fim de melhorar sua condição de vida e ter o bem-estar como objetivo supremo.

Neste 1° de julho foram celebrados os 100 anos de fundação do Partido Comunista da China. Sob sua direção, o país deixou sua condição de atrasado, pobre e excluído para se tornar uma potência econômica, tecnológica e científica, tendo a perspectiva de se transformar em 2049, ano do centenário de fundação da República Popular da China, em um “poderoso país socialista moderno, próspero, democrático, civilizado, harmonioso e belo”, como proclamou o presidente Xi Jinping.

*Publicado originalmente em manifestopedista.org | Tradução de Carlos Alberto Pavam





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