Pelo Mundo

Chávez é produto e não a causa da crise na Venezuela, diz Garcia

13/08/2004 00:00

Brasília – Em fevereiro de 1989, o professor Marco Aurélio Garcia estava em Roma com Luiz Inácio Lula da Silva, buscando apoio internacional à primeira candidatura do líder petista à Presidência da República, quando estourou a revolta popular na Venezuela, que ficou conhecida como Caracazzo. Os dois acompanharam pelos jornais os desdobramentos da eleição do presidente Carlos Andrés Pérez, que o povo venezuelano havia reconduzido ao poder na expectativa nostálgica de que repetisse as políticas populistas que marcaram seu primeiro governo, em meados da década de 70. No entanto, Pérez negociou com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e impôs um duro pacote econômico para enfrentar a crise agravada pela queda dos preços do petróleo – até hoje a maior fonte de divisas da Venezuela. O aumento dos preços da gasolina acendeu o pavio da revolta popular nas ruas de Caracas e o confronto com o exército resultou na morte de 300 pessoas, segundo as fontes oficiais, ou mais de mil, conforme estimativas conservadoras de entidades independentes.

Quinze anos depois, na qualidade de assessor especial do presidente Lula, Marco Aurélio relembra o episódio trágico que marcou a história recente da Venezuela para sustentar sua avaliação sobre a crise política que deságua no referendo deste domingo, convocado para o povo decidir se o presidente Hugo Chavéz – eleito seis anos depois de liderar um frustrado golpe militar contra o próprio Andrés Pérez – deve ou não concluir o mandato. “Essa crise não é resultado da eleição do presidente Chávez. Pelo contrário, o presidente Chávez é produto da crise”. Segundo o assessor de Lula, que conhece bem a Venezuela e seus dirigentes, a origem da crise está na indiferença da mesma elite que hoje tenta derrubar o presidente venezuelano. “Uma parte da elite venezuelana foi muito predadora e se beneficiou dos ganhos do petróleo não para distribui-los para o conjunto da sociedade, mas para ter padrões de vida muito conspícuos”.

Marco Aurélio recebeu a Agência Carta Maior na noite de quinta-feira (11) em seu gabinete no terceiro andar do Palácio do Planalto – que fica a 30 passos do gabinete presidencial - para conversar sobre a situação da Venezuela na véspera do referendo revogatório. Ele acredita que uma eventual vitória de Chávez dará uma legitimação grande para que o presidente venezuelano lidere a estabilização política do país – muito desejável para o processo de integração latino-americana.

Carta Maior - Quais são as implicações do referendo na Venezuela no contexto geopolítico atual?

Marco Aurélio Garcia - Em primeiro lugar, acho muito positivo que se faça o referendo. O referendo é uma conquista do povo venezuelano e cria um mecanismo de estabilização importante. Em outros países, quais são as alternativas que se abrem? A votação de um impeachment no Congresso, que em geral é precedida de grande mobilização, ou uma situação mais dramática como foi a da Bolívia - que eu inclusive acompanhei de perto –, onde uma enorme mobilização social terminou praticamente forçando a renúncia do presidente Sanchez de Lozada. Mas tudo isso precedido de enfrentamentos muito grandes. No caso boliviano, foram quase cem mortos.

Se Chávez sair vencedor, e pelo menos boa parte das pesquisas assim indica, evidentemente ele terá um nível de legitimação muito grande. Uma avaliação do que seria um governo de oposição [a Hugo Chávez] é muito difícil, porque é um movimento muito heterogêneo. Não quero especular sobre isso. Então vou especular sobre a hipótese de uma vitória de Chávez. Se a população se manifestar a favor dele, será um dado positivo do ponto de vista do processo de integração da América do Sul. A estabilização da Venezuela é fundamental, e eu penso que o referendo vai criar condições para tanto.

CM - Por quê?
MAG - Chávez tem insistido muito, com um viés muito próprio da ideologia bolivariana, na idéia de que nós devemos construir uma América Latina e uma América do Sul unidas. O governo brasileiro teve um papel muito grande na admissão da Venezuela como membro associado do Mercosul na última reunião. Foi por proposta do presidente Lula que houve um apressamento do ingresso da Venezuela.

Por outro lado, a Venezuela é um país que tem economia pujante, que está evidentemente um pouco abalada pelos dois últimos anos de crise. O locaute de dezembro de 2002 a janeiro de 2003 afetou muito a economia, mas é um país que tem um grande potencial petroleiro e mineral. É um país que tem uma população significativa, em torno de 25 milhões de habitantes, que constitui um mercado importante. É o tipo de país relevante para o processo de integração da região não só por ser fornecedor de matérias-primas e mercado consumidor da indústria brasileira e argentina. Eles podem se industrializar cada vez mais também. Temos insistido muito, no caso da América do Sul, que seria fundamental estabelecer uma integração maior das cadeias produtivas. Esse problema [de indústrias concorrentes] que se coloca de forma muito forte com a Argentina, também está sendo colocado em relação aos outros países. Nós não queremos cristalizar a atual divisão do trabalho, em que alguns países produzem bens primários e outros países produzem industrializados. Nós queremos ver se é possível criar um sistema industrial conjunto. Para isso, O presidente Lula tem sido enfático, entre outras coisas, em dar prioridade à questão da infra-estrutura, do problema da construção de estradas. Nesta semana, ele esteve na fronteira da Bolívia inaugurando uma ponte e na fronteira do Peru lançando a pedra fundamental de uma outra ponte que estará pronta daqui a um ano. As obras vão criar canais de comunicação muito grande com esses dois países.

Temos uma presença econômica muito forte na Venezuela. O governo brasileiro abriu uma linha de crédito em torno de US$ 1 bilhão para aquele país justamente para impulsionar obras de infra-estrutura, com participação de empresas brasileiras. Quando o presidente Lula, eleito ainda naquele momento, decidiu que eu deveria ir a Caracas para observar de perto, conversar, na crise de dezembro de 2002, nós sempre dissemos o seguinte: Primeiro, parece-nos de fundamental importância que aquela região não seja desestabilizada. É uma região que tem muitos problemas. Vários países ali estão submetidos a fortes tensões sociais e políticas. Isso poderia ter repercussões e é um país que faz fronteira com o Brasil. Em segundo lugar, um processo de desestabilização como aquele poderia ter um efeito negativo para os próprios venezuelanos. Em terceiro lugar, nós tínhamos interesses econômicos. Interesses já constituídos naquele momento e, potencialmente, muito grandes. Naquele momento particular, alguns setores da oposição com os quais eu tive contato disseram que, se fosse mesmo constituído um governo de oposição, eles gostariam de manter relações muito boas com o Brasil. De qualquer forma, com o atual governo venezuelano, nós temos relações econômicas muito importantes. A estabilização da Venezuela é fundamental, e eu penso que o referendo vai criar condições para tanto.

CMNão é um otimismo exagerado, tendo em vista que a sociedade venezuelana está bastante dividida?
MAG - Veja bem, é sempre bom lembrar o que se passou na Venezuela. Em maio de 2002 houve uma tentativa de golpe de Estado que teve êxito durante 48 horas. Depois disso, houve uma grave crise social e política de dezembro de 2002 a janeiro de 2003. Nesta crise, a oposição tentou derrubar o presidente. Depois tentou uma série de fórmulas e o presidente Chávez dizia: “Esperem até agosto porque em agosto vocês terão a chance de lançar mão do referendo revogatório”. Houve ainda uma série de conflitos jurídicos sobre se as firmas poderiam ser recolhidas antes ou se elas tinham que ser recolhidas depois. Finalmente, anularam-se as firmas reconhecidas anteriormente, ocorreu uma segunda anulação até que houve aquela ação confirmatória. A partir daí, o presidente acabou aceitando. Acho que houve uma índole democrática e o referendo vai se fazer agora.

O presidente Chávez, na última reunião do Mercosul em Puerto Iguazú, disse-nos em reunião privada e depois reiterou publicamente que ele aceitaria qualquer decisão do referendo. Ele disse que está tranqüilo de que vencerá o referendo, mas disse também que está disposto a aceitar qualquer decisão.

A nossa grande preocupação – que expressamos durante todo esse período que é mais longo que o próprio governo Lula (começamos a nos ocupar da crise venezuelana antes mesmo de tomar posse) - é que os venezuelanos possam se reencontrar. Parece que uma das coisas que essa crise toda deixou foi um cansaço em boa parte da população. Tem uma parte da população que quer paz, quer tocar para frente. Às vezes nós, que somos mais politizados à esquerda ou à direita, achamos que a nossa politização e as ações que decorrem dela são um sentimento compartilhado pelo conjunto da população. Mas não é assim. A sociedade às vezes se mobiliza de forma muito intensa, mas essa mobilização não dura indefinidamente. Os homens de esquerda e de direita podem ficar mobilizados até a morte. Mas para o homem comum, que tem que enfrentar seus problemas, não é bem assim. Chega um determinado momento em que ele quer que aquela mobilização política se institucionalize, comece a produzir resultado. Acho que os venezuelanos merecem isso.

CMA vitória de Chávez seria a melhor solução para a crise venezuelana?
MAG - Essa crise na Venezuela não é resultado da eleição do presidente Chávez. Pelo contrário, o presidente Chávez é produto da crise. Ele não é o causador da crise. Ele tentou dar uma resposta a uma crise que dura muito tempo. Atravessa pelo menos todos os anos 90 e coincide com o fracasso do modelo econômico venezuelano centrado no petróleo. Uma parte da elite venezuelana foi muito predadora e se beneficiou dos ganhos do petróleo não para distribui-los para o conjunto da sociedade, mas para ter padrões de vida muito conspícuos. Caracas é uma cidade que tem marcas de concentração de renda enormes.

O simples fato de que o presidente Chávez veio de fora do esquema tradicional dos partidos já é sintomático. Aliás, isso já estava acontecendo antes. Quando Rafael Caldera foi eleito presidente pela segunda vez, a despeito de, no passado, ter sido ligado à democracia cristã, ele era um candidato outsider. Os candidatos dos partidos tradicionais fracassaram redondamente, seja da ação democrática ou seja da Copei [Comitê de Organização Política Eleitoral Independente, legenda democrática-cristã]. E os nomes de mais destaque ou eram outsiders, como Caldera - que teve um papel importante por ocasião da tentativa de golpe que o Chávez, como coronel, protagonizou [em 1992] -, ou eram candidatos como o [ex-sindicalista Andrés] Velásquez, que muitos comparavam com o Lula, mas depois ficou bem mais moderado e fez uma grande votação também. As alternativas que se abriam para a Venezuela eram as mais estranhas: miss Venezuela, que em certo momento se cogitou que poderia ser presidente, etc.

E o Chávez foi eleito no bojo de um movimento de insatisfação muito grande. Ele teve que dar respostas para isso e evidentemente que essas respostas não foram compartilhadas por todos os setores da sociedade. Mas, além do juízo do que cada um possa fazer sobre o seu governo, sobre o seu estilo de governar e sobre a sua personalidade, acho que temos que ter claro que ele foi um resultado dessa crise bem maior. E a Venezuela precisa resolver esse problema. É um grande país: rico, importante, com um povo extraordinário, que tem uma composição étnica mulata como nós, uma exuberância cultural. Seria muito importante que essa situação se normalizasse. Nós estamos muito esperançosos e o Brasil se empenhou e continuará se empenhando para que isso aconteça.

CM – E o Grupo de Amigos da Venezuela? Qual é o balanço da atuação do grupo? Existem planejamentos futuros?
MAG - O Grupo de Amigos foi uma idéia que surgiu justamente quando eu passei por lá. Havia a idéia de que se pudesse constituir um grupo de países que respaldasse uma solução negociada [para a crise venezuelana]. Mais do que isso, naquele momento, apoiasse a ação que a Organização dos Estados Americanos (OEA) estava desenvolvendo junto às partes – governo e oposição. O próprio Chávez não estava muito de acordo com a composição do grupo quando foi constituído em uma reunião em Quito, no dia da posse do presidente Lucio Gutierrez. Ele inclusive veio ao Brasil dois dias depois, nós tivemos uma reunião prolongada, e ele foi sensível dizendo que não estava de acordo, mas que dava um voto de confiança à proposta que o Brasil estava impulsionando.

O grupo ajudou. Havia países com posições muito diferentes. Hoje, inclusive, algumas dessas posições estão modificadas. Chamaria atenção, por exemplo, que o governo espanhol era muito reticente quanto ao governo Chávez. O novo governo espanhol tem uma posição bem mais simpática a ele. O grupo teve uma função importante que talvez não tenha aparecido tanto. Ele evitou que algumas pressões diplomáticas - e mais que diplomáticas - se fizessem com mais intensidade. E garantiu, portanto, que a crise venezuelana fosse resolvida basicamente pelos venezuelanos. A diplomacia às vezes é uma atividade ingrata porque os erros aparecem com muita facilidade e os acertos nem sempre vem à tona.

Um dia será conhecido tudo o que o grupo fez e o que os integrantes do grupo fizeram. O grupo conseguiu concretamente diminuir a pressão externa. Porque eu acho que a pior coisa que poderia acontecer é que sobre a crise venezuelana pesassem fortes pressões externas. Obviamente, isso transformaria a crise em um problema também de soberania nacional. É claro que houve pressões, mas o grupo – inclusive pela sua composição heterogênea – teve capacidade de cumprir essa função.

No momento atual, há uma observação internacional. Inclusive o embaixador Valter Pecly, que está deixando o cargo de embaixador brasileiro da OEA para assumir a embaixada de Assunção, está em Caracas coordenando uma equipe de observadores internacionais. Oxalá o Grupo [de Amigos da Venezuela] não precise mais funcionar. Espero que ele possa chegar à conclusão de que realizou o seu trabalho e que de alguma maneira contribuiu para que o processo tivesse essa solução.


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