Pelo Mundo

Chile: colapso neoliberal e fim da pós-ditadura

 

21/10/2019 11:32

 

 
O Chile viveu dias de protestos da cidadania que não têm antecedentes na memória coletiva mais recente. É possível encontrar momentos semelhantes durante a ditadura, mesmo quando todos respondem a estratégias canalizadas e ordenadas, com objetivos políticos mais imediatos e visíveis.
 
Os protestos que abalam todas as cidades chilenas foram desencadeados por um problema aparentemente trivial, como o aumento de 30 pesos na tarifa do metrô de Santiago, e se tornaram, da noite para o dia, num movimento de intensidade surpreendente.
 
O ritmo dos incidentes acontece de forma acelerada. Primeiro em Santiago, com crianças em idade escolar que se organizaram em grupos numerosos para saltar as catracas do metrô. Depois vieram as barricadas, enfrentamentos com a polícia no centro da cidade, até chegar à sexta-feira (18/10), como uma noite de fogo em edifícios públicos e privados.
 
Centenas de estabelecimentos comerciais em chamas, milhares de barricadas, saques em supermercados em toda a capital chilena, com ênfase nos bairros mais remotos e empobrecidos. Enormes panelaços em todos os setores da cidade. No início da manhã de sábado, o governo de Sebastián Piñera decretou Estado de exceção, e a entrega da administração da ordem pública a um general do exército.
 
Horas depois, a medida foi amplificada. Nas praças, nas esquinas, nas estações de metrô de Santiago, grupos de vizinhos batiam panelas, milhares de motoristas tocavam a buzina, enquanto grupos de jovens faziam barricadas fogo para interromper o tráfego.
 
Apesar da presença de policiais e de 500 soldados do Exército, os cidadãos continuaram seus protestos em massa. Nesse momento, a indignação social que começou em Santiago começou a se reproduzir em outras cidades do país. De Concepción a Valparaíso, de Arica a Punta Arenas. A tarifa do metrô de Santiago tinha sido apenas a faísca.
 
Piñera, depois de muitas horas desaparecido (uma foto nas redes sociais o mostrava em uma pizzaria de um bairro chique, enquanto a cidade estava pegando fogo) cedeu à pressão e revogou o aumento da tarifa do transporte. Tarde demais: os protestos já não eram só desenfreados, como o fogo estava em plena expansão.
 
A partir de então, começaram os ataques incendiários a centenas de estações de metrô, veículos, agências bancárias, supermercados, farmácias, postos de gasolina, pedágios, ministérios e prefeituras. Tudo o que representa poder político e, principalmente, poder econômico. Porque o surto social, que é político, tem sua origem na indignação contra o controle econômico.
 
Os protestos massivos levaram ao caos e aos saques. E diante disso, novamente, a resposta do governo foi aumentar a repressão, com o decreto de toque de recolher em Santiago, das 22h às 7h, o que posteriormente foi replicado em Valparaíso. Apesar do aumento do aparato militar nas ruas e da proibição de dirigir, a população permaneceu nas ruas até o amanhecer. Uma desobediência que também expressa um confronto, um repúdio contra um exército que até hoje é identificado com violações dos direitos humanos cometidas na ditadura de Pinochet.
 
A reação do governo foi tardia e inútil. Para começar, Piñera mostrou que não sabe em que país vive. Alguns dias atrás, ele falou – e sem ironia, mas talvez por causa do cinismo ou ingenuidade sincera de sua classe – que o Chile era um “oásis” na América Latina.
 
A porta-voz do governo, Cecilia Pérez, declarou que o governo estava preocupado com a cúpula da APEC (sigla em inglês da Organização de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) em novembro, e com a COP25 (reunião mundial sobre a crise climática) em dezembro, reafirmando a “liderança” do presidente e insistindo que o país deveria voltar ao normal o mais rápido possível.
 
Mas é por causa dessa compreensão da “normalidade” que os chilenos se levantaram. Contra uma normalidade baseada nessa ordem que deu a vida cotidiana, o presente e o futuro das gerações às grandes corporações e seu lucro excessivo.
 
A indignação é pelo aumento do transporte público, mas também pela educação com fins lucrativos, pela saúde controlada por privados, os baixos salários e horas de trabalho extenuantes, dívidas enormes e impossíveis de pagar, aposentadorias miseráveis, corrupção política, injustiças óbvias expressadas nas diferenças sociais, os esquemas de corrupção milionários realizados por policiais e pelas Forças Armadas.
 
A exclusão social e econômica, a educação deteriorada, consumo como único horizonte e sentido de vida… diante de tudo isso, os protestos pareciam ser a única forma se se expressar contra essa maldita “normalidade” imposta pelas elites. Diante deste glossário de misérias, a questão é por que essa explosão demorou tantos anos para chegar.
 
O Chile é um país que foi construído para o fluxo de grandes capitais. Com a legislação elaborada por políticos corruptos e comprada por grandes corporações, os enormes lucros alcançados há décadas, à custa da exploração dos cidadãos e do trabalhadores/consumidores, sem contar os recursos naturais que são saqueados.
 
Piñera não é o único responsável. Talvez, em breve, ele tenha que responder com seu cargo por seus erros políticos e econômicos, mas essa avaliação ainda é prematura, mesmo que se torne mais provável a cada decisão sua. Os responsáveis %u20B%u20Bsão todos, absolutamente todos os governos e políticos que governaram o Chile desde a ditadura. Da “justiça (aos violadores de direitos humanos) na medida do possível”, de Patricio Aylwin, a Ricardo Lagos e sua política de entrega final de todos os serviços públicos à ganância dos grandes investidores.
 
Esta classe política está em silêncio hoje. E é melhor ficar calada, porque aprovou uma reforma tributária, dias atrás, que vai beneficiar os mais ricos, e também acatou a proposta do controle de identidade preventivo aos cidadãos, e uma reforma previdenciária que favorece ainda mais asa empresas privadas.
 
O governo de Piñera insiste na “normalidade”, ao mesmo tempo em que apoia a manutenção do regime que deu muitos benefícios às empresas, e muita dor aos chilenos. Até agora, ele não quer ouvir ou é incapaz de entender que se trata de uma rebelião que expressa o colapso neoliberal; é um choque de grandes proporções, que não aceita reformas, adiamentos ou modificações complicadas. O Chile acordou.
 
Este é um clamor pelo fim.
 
 
 
Paul Walder é jornalista e escritor chileno, diretor do portal Politika e colaborador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
 
Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli

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