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China vê primavera após seis semanas de confinamento

Um ponto de virada está em andamento na luta contra a epidemia de coronavírus. As autoridades anunciaram uma retomada gradual da atividade ontem, mas as incógnitas no plano internacional continuam pesando.

13/03/2020 11:56

(AFP/XINHUA/Xie Huanchi)

Créditos da foto: (AFP/XINHUA/Xie Huanchi)

 
A imagem se pretende tão lírica quanto marcial. E deseja referir-se às outras batalhas travadas pela China moderna. "Sob o comando pessoal do secretário-geral Xi Jinping, a vitória sem precedentes contra o Covid-19 aproxima-se ao som dos passos da primavera", alardeou a televisão pública da CGTN após a visita do presidente chinês a Wuhan, o epicentro do vírus, na segunda-feira (10).

"A disseminação da epidemia está quase debelada", saudou o chefe de Estado, saudando a resiliência da população, mas também o pessoal médico, renomeados de "os soldados de branco" pela imprensa. As autoridades anunciaram ontem o fechamento de dezesseis hospitais temporários em Wuhan, que curaram 12.000 pacientes com sintomas leves e cuja construção continua sendo "uma grande inovação na história das ações médicas", afirmou o Jornal do Povo (People’s Daily).

E Bruce Aylward, epidemiologista da Organização Mundial da Saúde, concorda: “Diante de um vírus até então desconhecido, a China indubitavelmente implantou a resposta mais ambiciosa, ágil e agressiva da história para limitar um doença”. O anúncio ontem da retomada gradual da atividade econômica no coração da metrópole confinada por seis longas semanas foi outro sinal encorajador da contenção do coronavírus, com apenas 19 novos casos registrados no dia de terça-feira.

Como resultado, empresas médicas, empresas de serviços públicos que fornecem gás e eletricidade, a indústria de alimentos e supermercados recomeçam sem demora. As empresas que têm “uma grande importância na cadeia produtiva nacional e mundial”, como as de automóveis, processamento de dados, eletrônica e têxtil, terão que obter uma autorização antes da retomada da atividade, explicam as autoridades provinciais. Isso é um sinal de que a China, que desempenha um papel essencial nas cadeias globais de valor, pretende ver o crescimento global recomeçar o mais rápido possível.

O país deve antecipar uma nova fase da globalização

Nacionalmente, a segunda maior potência do mundo também está mostrando sinais de recuperação gradual em turismo, transporte, construção e transporte. Há um grande atraso a ser recuperado: de acordo com estimativas iniciais, o crescimento no primeiro trimestre deve ficar em 2,3%, em base anual, em vez de 6%.

No entanto, é prematuro dizer que a China está completamente fora de perigo. Por um lado, porque a crise econômica e social está instalada e muitas incógnitas continuam pesando. Particularmente sobre a capacidade do resto do mundo de conter a epidemia e reavivar a atividade. Por outro lado, o massivo plano de recuperação previsto pelas autoridades centrais não será suficiente para impulsionar imediatamente as exportações. Desde o 18º Congresso do CPC em 2012, a China tem atuado para redirecionar seu modelo de desenvolvimento para estimular o consumo interno, a fim de ser menos dependente do comércio internacional.

Isso é ainda mais verdadeiro no final destes acontecimentos, que destacaram a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos globalizadas e os riscos associados à extrema dependência da China em tempos de crise. Claramente, a China deve antecipar uma possível nova fase da globalização para não sofrer uma realocação da produção.

A última incógnita para Pequim: a atitude dos Estados Unidos. As duas potências econômicas estão envolvidas em uma fase de redução das tensões comerciais, mas ainda longe de um acordo final. A "fase 2" não ocorrerá antes das eleições presidenciais dos EUA em novembro, cujo resultado é desconhecido de todos. No entanto, é difícil ver, com o risco de uma nova crise econômica, que qualquer presidente americano - quem quer que seja – aumente a catástrofe por relançar hostilidades contra a China.

*Publicado originalmente em 'l'Humanité' | Tradução de César Locatelli



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