Pelo Mundo

Chomsky e as sutilezas de Trump sobre a OTAN

Chomsky manifestou que "(a Europa e os aliados, em sua maioria) tentarão ignorá-lo em todo o possível, e seguirão adiante, exatamente como faziam antes", embora seja interessante ver como se movem os esforços para forjar novas alianças, numa tentativa de isolar o pária estadunidense

30/07/2018 12:49

 

 

Recentemente, apareceu na rádio pública norte-americana National Public Radio uma entrevista com o tenente-general Ben Hodges, que foi o comandante-chefe do Mando Terrestre da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em 2014. Na conversa, ele enfatizou sua decepção ao ver que o presidente Trump levou à reunião do G8, em Bruxelas, uma bola de demolição, com a qual tentou “humilhar publicamente os nossos mais importantes aliados”. Continuou explicando, creio que corretamente, que Trump “ou não compreende o conceito de uma aliança estratégica, ou sequer se importa com ter aliados para os seus planos geopolíticos” – e a segunda opção parece ser a mais provável.

Tento compreender a insistência de Trump de que a OTAN não é mais que outra extensão da corrupção e uma carga institucional para os Estados Unidos, enquanto continua impulsando sua mesma velha política exterior. O professor Noam Chomsky comentou sobre um trabalho recentes do New York Times, dos repórteres Steven Erlanger, Julie Hirschfeld Davis e Katie Rogers, que resumia a excentricidade das posições de Trump com respeito à OTAN. Dizia o seguinte: “o drama de Bruxelas, naquela quinta-feira 12 de julho, tinha tudo a ver com o desejo de Trump de fazer ruído, pensando em sua base política. A senhora Amanda Sloat (investigadora do Instituto Brookings) declarou que o encontro terminou com certa vitória para o mandatário estadunidense, que conseguiu o que queria, embora isso não seja toda a verdade (...) `No final, creio que a reunião foi menos divisível do que se temia´, declarou Alexander Vershbow, antigo vice-secretário geral da OTAN. `Creio que foi um espetáculo de tele realidade, desses que o presidente adora. Não havia drama suficiente, então Trump fez uma birra, bateu na mesa e os aliados foram utilizados como adereços do seu espetáculo´”.

Ao observar a Trump em sua viagem ao exterior, pensei também em como prever de modo apropriado a reação europeia aos sucessivos comentários de Trump sobre a OTAN, e de que modo isso repercute de forma mais decisiva nos assuntos exteriores dos Estados Unidos.

Chomsky manifestou que “(a Europa e os aliados, em sua maioria) tentarão ignorá-lo em todo o possível, e seguirão adiante, exatamente como faziam antes”, embora seja interessante ver como se movem os esforços para forjar novas alianças, numa tentativa de isolar o pária estadunidense. De certa forma, deve ser uma prova de determinação para outros chefes de Estado, e sobretudo para os europeus, que ainda tentam fingir que Trump não é um bufão, embora saibam que é, e enquanto seguem seu caminho, se preparam e “esperam a criança fazer a próxima manha”, como descreve Chomsky.

É verdade que os Estados Unidos, no passado, dirigiram e autorizaram desastrosos bombardeios da OTAN. Ações que se podem criticar facilmente e de modo justificado por parte da esquerda, mas existe potencialmente o perigo de que a mentalidade de Trump fomente a desconsideração pela ordem internacional por parte da ala direita mais reacionária. Logo, a resistência ao cinismo de Trump deixa os céticos da OTAN à esquerda numa posição difícil. Será?

Chomsky insiste em que não deveria haver dificuldade alguma. “Que se apoie o que é correto”, diz ele, pois mesmo que seja “impossível ignorar as palhaçadas de uma criatura ruim, e que desfruta de cada momento de suas pirraças, também é importante fazer aquilo que tem que ser feito, e as pessoas mais sensata atuarão, provavelmente, como espero que atuem os europeus”.

Trump foi eleito, em grande parte, devido a sua doutrina do “Eu Primeiro”, assim como o seu lema “Voltar a Fazer a América Grande”. Tanto “liberais” quanto “conservadores” deveriam estar atentos às intenções de Trump de utilizar a OTAN como distração enquanto apazigua sua furibunda base anti institucional. Mas se trata de uma sutileza, percebida ao se analisar o gabinete e a configuração real da política estabelecida desde o começo, e sem influência alguma do “Estado profundo”.

Recordemos que Trump escolheu Mike Pence como candidato a vice-presidente, e uma vez eleito o mandou viajar por aí para dar garantias da “inquebrantável” relação dos Estados Unidos com a OTAN. Trump também nomeou Nikki Haley como embaixadora nas Nações Unidas, de novo, sem as denominadas “pressões do Estado profundo”. Se trata de uma absoluta partidária da OTAN, que costuma manter uma postura hostil com relação à Rússia, para destacar seus próprios compromissos com a ortodoxia da política exterior. Outra das apreciadas seleções de Trump é o secretário de Defesa James Mattis, um falcão, também abertamente crítica da Rússia – tanto que é notícia quando não menciona a potência rival em suas sessões informativas e declarações sobre política. Por último, Trump despediu seu primeiro secretário de Estado, Rex Tillerson, único membro do gabinete com uma promessa salvadora de distensão com a Rússia, e um crítico da OTAN – ou ao menos um partidário seletivo.  

A doutrina de Trump e sua ideologia são bastante simples: Eu Primeiro! E de acordo com Chomsky, “isso exige dar espetáculo para satisfazer os fãs, enquanto ele os engana de todas as formas possíveis” (tanto em termos de política interna como de política exterior). É duvidoso que Trump tenha outro plano que não seja este, e depois de cada pomposo esforço, “Mattis seguirá fortalecendo a OTAN, e intensificará essa perigosa pose na fronteira russa”, analisou Chomsky.

Pode ser verdade que Trump esteja se configurando como alternativa populista aos Bush e os Clinton, e sua incendiária política de neoconservadorismo e intervencionismo liberal, ao mesmo tempo em que questiona nosso “excepcionalismo”, na verdade estaria levando os Estados Unidos a ampliar sua presença no mundo.

O fato é que Trump contribui para a instalação de uma perigosa mentalidade niilistas, segundo a qual não importa as consequências de suas medidas para o resto do mundo, nem mesmo as mais nefastas. Não importa se não oferece nada coerente em termos de política, ou como cita Chomsky, lembrando uma polêmica manifestação de um funcionário estadunidense em suas redes sociais: “somos a América, cabrón!” – o que Chomsky ironizou com uma paródia mais realista: “somos o 1% da América, cabrón, os que realmente importam!”.




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