Pelo Mundo

Começa a era Evo Morales

23/01/2006 00:00

Emir Sader

Depois de superar com grande sucesso o período transitório, que começou na vitória eleitoral de 18 de dezembro – passando pelas viagens ao exterior e pelas cerimônias de posse -, começa a era Evo Morales. Começa com um apoio popular e internacional inédito, com um selo claramente de esquerda e com um cronograma altamente favorável à realização dos seus objetivos.

ALAFABETIZAÇÃO, SAÚDE e DOCUMENTOS
Evo Morales é o primeiro presidente latino-americano eleito que faz sua primeira viagem internacional a Cuba. O segundo país visitado foi a Venezuela. O que por si só revela a opção política e ideológica do novo governo. Em Cuba, assinou convênios de apoio para terminar com o analfabetismo – tornando a Bolívia o terceiro país do continente, junto com Cuba e a Venezuela – a lograr esse objetivo. Receberá também de Cuba apoios na área de saúde pública. Na Venezuela, Evo Morales conseguiu apoio para a extensão da documentação legal a todos os bolivianos – um problema gravíssimo, especialmente para os camponeses, um problema que se reflete em enormes filas na principal avenida da cidade, de gente pobre tentando regularizar sua documentação. Além disso, a Bolívia receberá todo o diesel de que necessita, em troca de alimentos – segundo Hugo Chaves, da mesma forma que faz com outros países do continente, como o Uruguai, a Argentina, a Venezuela não quer receber nada em dinheiro, apenas em alimentos e outros produtos que necessite.

Evo Morales conseguiu o perdão de parte considerável da divida com a Espanha, mas aqui reside uma jogada do governo espanhol para tentar obter, em troca, proteção dos interesses da Repsol. A atitude original desta companhia era a de, necessitando Evo de uma confirmação no Congresso, obter garantias para as empresas petrolíferas. Porém, ao triunfar Evo no primeiro turno, agora o governo espanhol mandou a Felipe Gonzalez, para ver se consegue algo do novo governo. A Repsol e a Total já retiraram os documentos que haviam apresentado à Justiça, reafirmando a necessidade de arbitragem internacional dos acordos estabelecidos, afirmando que estão dispostas a negociar nas condições estabelecidas pela nova lei de hidrocarburetos, o que é uma importante vitória do governo. A Petrobrás já havia manifestado também sua disposição de renegociar os preços e os termos do contrato anterior.
ESTADO MULTICULTURAL E FORTE
O governo de Evo Morales – que se inicia hoje na Bolívia – é o primeiro governo no mundo que afirma que vai sair do modelo neoliberal. Afirma, com um plano de governo que se inicia com um choque produtivo, em que o Estado tem um papel decisivo. Nas palavras de Álvaro Garcia Linera, vice-presidente da república e um dos mais importantes intelectuais da nova geração do continente, na praça São Francisco, para centenas de milhares de pessoas:

“Olhando para o futuro, temos a decisão, a vontade de construir um Estado forte, sólido, do qual nos sintamos orgulhosos, estejamos onde estivermos. Tem que haver um Estado forte na economia, para que não apenas sejam o mercado e a livre competição que distribuam os recursos. Tem que haver um Estado forte que priorize o que é necessário para a pátria, que proteja a todos, mas fundamentalmente aos mais vulneráveis, aos mais esquecidos, que a maioria do nosso país e que hoje, com um Estado forte no plano econômico, encontrarão melhores opções para o desenvolvimento.”

“Não queremos nunca mais um Estado sem povos indígenas. O Estado de todos; de mestiços e indígenas, de profissionais e trabalhadores, de camponeses e estudantes. Queremos um Estado multicultural, em que os distintos povos, os distintos idiomas, as distintas cores valham igual: que valham igual um vestido e uma saia, um poncho e uma gravata, uma cor de pele mais clara e uma mais escura.”

“A luta pelo poder gerou muitos conflitos, muitos mortos, muitos feridos e muitos danos. No entanto, este 18 de dezembro o povo foi muito claro. O empate catastrófico – entre os setores conservadores e os sociais – foi resolvido de forma inapelável. As pessoas, o povo, o cidadão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, do campo e da cidade, empresários, profissionais, indígenas, camponeses, operários, cooperativistas e comerciantes optaram pela mudança.”

“Compete agora aos povos indígenas, ao mais nobre, ao mais verdadeiro da nossa pátria, a seus trabalhadores, a sua gente empobrecida e à gente simples, ocupar o mando da nação e conduzir-nos por um caminho de bem-estar, por um caminha de unidade e de integração nacional.

APOIO POPULAR
Para colocar em prática sua plataforma de governo, que começa pela nacionalização dos recursos naturais e pela convocação da Assembléia Constituinte, Evo Morales conta com grande apoio popular, revertendo uma rejeição fabricada – como ele disse no seu discurso de posse, no Congresso Nacional: “Estamos submetidos por alguns jornalistas e meios de comunicação a um terrorismo mediático”. Em março de 2005, as pesquisas indicavam que Evo tinha uma rejeição de 73% dos consultados e apenas 21% de apoio. Em setembro, Evo superou a casa dos 30% e, no inicio da campanha eleitoral, em outubro, chegava aos 44%.

Nas eleições de dezembro Evo teve 54% dos votos – apesar de que cerca de um milhão de pessoas, a maior parte camponeses, não puderam votar -, pesquisa de dezembro ainda lhe dava 65% de apoio e, agora, no momento de tomar posse Evo possui 74% de apoio. Esse apoio é mais avassalador na região ocidental do país: em La Paz, tem 80% de apoio, em El Alto, 85%, em Cochabamba, 78%. Em Santa Cruz de la Sierra, bastião da oposição a seu governo, Evo conta com 61% de apoio e 28% de rejeição.

UM ARCO-ÍRIS DE BOM AUGÚRIO
Entre as medidas que mais efeito tem, Evo anunciou que o que se costuma chamar – nos EUA – de czar da luta contra o narcotráfico, será um cocaleiro. “Vou colocar como vice-ministro de Defesa Social – que se ocupa do tema – um cocaleiro”, anunciou ele em Cochabamba na semana passada.

O anuncio, hoje, do ministério, dá inicio prático ao funcionamento do governo, que contará com a convocação da Assembléia Constituinte em junho, para sua eleição em agosto, quando se acredita que o governo terá mantido sua alta popularidade, o MAS – como mencionou ontem Evo na praça – pode varrer e constituir uma enorme maioria e assim colocar em prática o objetivo de refundar o Estado boliviano – dando cara nova ao poder já no primeiro ano da era Evo Morales.

Evo e Álvaro irão a Sucre dar posse aos novos governadores, enquanto o cenário popular mais atraente ficará nas mãos de Hugo Chávez que, gripado, não pôde responder aos apelos da massa para falasse, irá hoje a um ato na Universidade San Andrés, antes de retornar, com sua enorme comitiva, que ocupa dois aviões, a Caracas, para participar do Fórum Social Mundial.

No sábado, quando retornávamos de Tiwanakum surpreendentemente um imenso arco-iris estendia-se sobre La Paz, quase como um prenúncio de que os votos indígenas de um bom governo para Evo e a frase de Hugo Chaves de que o Che estaria baliando de alegria pelas nuvens da Bolívia, encontrava seu desenho visual nos céus da nova Bolívia.


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